ainda assim

“Eu não me arrependo de você. Cê não devia me maldizer assim.”
Não Me Arrependo – Caetano Veloso

um poema sobre a vida que não vivi, planejei viver. Ou coisas do tipo. Ou nada a ver.

Não é que eu fosse uma aberração, mas eu ainda possa estar sendo;
em feições naturalizadas que já não me metem medo ou me assombram os brios.
E ainda assim, aparar as arestas dos pelos.
Mas ainda monstro sendo, monstro sê-lo.

Não é que ter um armário me fez diferente,
apenas posso fingir organizá-lo.
E ainda assim chegar na poeirenta casa, no poeirento quarto.
Mas ainda assim chegar numa casa, num quarto.

Não quero me perder.
Ir além do que devia ir.
E ainda assim, é cedo para voltar.
Mas ainda assim, nunca é tarde para arriscar.

Tenho muito e isso é quase nada.
Sou metade, sou inteiro.
E ainda assim, sou primeiro.
Mas ainda assim, sou em partes.

Se sou menino, afobado.
Se ora homem, desesperado.
E ainda assim, faço a barba, faxino.
Mas ainda assim, a poeira e o monstro me consomem.

“Vi você crescer.
Fiz você crescer.”
E ainda assim, voas alto de mim.
Mas ainda assim, sombreia o desenho de nós aqui.

E cagas nas minha cabeça com tamanha destreza.

Sérgio Loureiro (sob luz de Caetano Veloso)

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