“TIC TAC… TIC TAC… TIC TAC…”
Breitling, o relógio de pulso perdido
A vida de Afrânio Demério não era lá um mar de aventuras. Sujeito pacato, ligeiramente enfadonho demais, vivia sua rotina insossa e débil com extremo afinco. Para ser franco, a essa altura da vida já odiava aventuras e o balanço do mar lhe causava graves enjoos. Suspeitava que o ápice dos seus dias havia fincado moradia às seis e quarenta e cinco da manhã – momento em que, após o habitual desjejum à base de cereais e duas torradas com geleia de cebola, desembaraçava, meticulosamente, os pelos do simétrico bigode. Havia nele um temor de que jamais restabelecesse outro ápice, e a total ausência de sinais de mudança legitimava todo temor.
Aos quarenta e dois anos, tudo se encaminhava para que a sua existência não fosse uma das emocionantes histórias dos livros que costumava ler na juventude. Na sua escala de preocupações (atualizada semanalmente no quadro branco e depois passada para as tabelas do Excel e depois impressa e depois finalmente colada ao lado do mesmo quadro branco), esta ocupava a terceira colocação, atrás apenas do momento “ápice do dia”e dos boatos de um prematuro fim de seu seriado médico dinamarquês. No entanto, eis-me aqui contando a sua história e eis-te aqui, lendo-a.
Neste momento, amigo leitor, você deve estar se perguntando a razão disso tudo. Ou estou enganado e seus questionamentos giram em torno da sua mísera existência, ou “a que ponto chegamos?”, ou mesmo “será que pegamos o ônibus certo?”. E se o pegamos, quem está dirigindo? Somos, então, meros passageiros de nosso destino, literal e figurativamente? Ainda por cima, pagamos o abuso de quatro tostões e alguns trocados para sermos levados ao confins da existência? Pior! Passará, essa imaginária condução pública, pela Av. Brasil em pleno horário do rush? Como um dos insignificantes seres viventes deste planeta, marionete dos astros, também não possuo respostas para estes desesperos coletivos. Mas olhe para mim agora, trazendo-vos a razão disso tudo.
Acontece, caro leitor, que nosso parco protagonista sofre de uma anomalia fisiológica extremamente rara, que medicina nenhuma conseguiu desvendar – e neste momento torna-se importante ressaltar que agendamento de consultas é um dos hobbies favoritos de Afrânio, o fazendo, inclusive, mandar seguidas cartas para o Comitê Olímpico Internacional dos Tabeliães, sugerindo a criação de tal modalidade nos próximos Jogos, em Chisinau, capital da Moldávia. Nota: outros passatempos de Afrânio são: xadrez, sua coleção de figurinhas de famílias reais ao longo da história e o arquivamento alfabético de processos jurídicos.
A tal anomalia surgiu por volta de sete meses atrás e é de complexo entendimento e explicação. Afrânio possui, digamos… um coração metafórico-literal (por mais contraditório que isso aparente ser). Em um belo dia (apenas força de expressão, era um daqueles dias horríveis em que você deseja nunca ter saído da cama e até a companhia de sua tia chata, cuspindo no seu pedaço de bolo enquanto encontra simbolismo bíblico para sua maledicência, é mais aprazível), durante sua caminhada matinal ao trabalho, Afrânio ouviu alguém dizer que corria contra o tempo. Acontece que, por incrível coincidência, neste exato momento havia um lindo balé astrológico, no qual Júpiter e Saturno se alinhavam com Canopus, a segunda estrela mais reluzente da galáxia – feito que ficou conhecido nas assembleias entre os mais brilhantes astrônomos e pessoas que falam de signos ordinariamente com qualquer estranho, como Plié das Estrelas.
Dessa forma, desde o acontecido, o coração de Afrânio passara a bater, literalmente, como um relógio, o tornando inimigo deste que tem como alcunha “o senhor do destino”. Para aqueles que ainda estão aqui e não se impressionam, ou mesmo veem como dádiva divina tal estrondoso fenômeno, permitam-me deixar claro: dentro do peito do pobre homem batia, incessantemente, um relógio velho de madeira. Tic tacs exasperadores no lugar de românticos tum tuns. E assim, Afrânio, o homem que não hesita em submeter-se, se tornou o primeiro homem-bomba de Piracicaba. O que certamente, por sua vez, também o fez celebridade na “Terra da Pamonha”.
Apossado desta metáfora tão trivial em seu músculo cardiovascular, Afrânio decidiu fazer o que todo homem de brio faria: programou o despertador em seu coração para tocar pontualmente às seis da manhã. Deu inúmeras funções e utilidades à sua patologia: cronometrava seu banho de sete minutos, ajustava o timer para os exatos noventa segundos que deixam as torradas crocantes, porém levemente molhadas, marcava passo a passo o seu caminho até o tabelionato. Não era de todo ruim.
Mas era uma desgraça! Aquele tique em seu peito ditando seu ritmo. Acordar sabendo, não só ideologicamente, como literalmente na pele, que a sua existência escorre como uma areia nesta enorme ampulheta chamada vida. E ver que a vida está por um fio, e que este fio dissipa-se inevitavelmente, perenemente, imparavelmente e eternamente. Mais e mais, meu Deus! E que, ao mesmo tempo (trocadilho), relatórios precisam ser entregues, faxes precisam ser mandados, arquivos precisam ser organizados alfabeticamente, o mercado do mês precisa ser feito, a roupa precisa ser estendida… Muitas satisfações a dar, poucas a receber. Mas mesmo estas se tornam um fardo. E tudo que se ocupa em sua cabeça é “Oh, céus! Estou tentando provar o quê e à quem, mesmo?”. E agora mais essa, Afrânio: precisa atualizar o quadro de preocupações.
Afrânio era uma bomba-relógio, ready to explode (diria, se ao menos tivesse tempo para ouvir o Queen). Como somos e estamos todos nós – só que de uma maneira metafórica e muito mais segura. O passar do tempo, tão mais vivido por ele que, literalmente, marcava os segundos, era desesperador. Já não mais trabalhava. Não se alimentava de torradas crocantes mas levemente molhadas, e substituíra a geleia de cebola pela margarina. Seus banhos duravam horas. Metaforicamente. Nem mesmo o quadro era atualizado ou arquivos quaisquer eram organizados alfabeticamente. O homem, sentado na janela do ônibus, admirava a paisagem caótica de sua vida, sem se preocupar em que ponto chegamos ou com o troco da passagem. Esse era o destino de quem conhecia o condutor da viação vida: o tempo.
Em uma literal e não-metafórica viagem de ônibus em direção ao Rei da Pamonha, no centro de Piracicaba, Afrânio teve um daqueles pensamentos que, assim que nasce, deve imediatamente ser minado, expelido, jogado em uma sala de quinta série cheia de meninos espinhentos e posto diante de toda humilhação infantil que apenas exemplares masculinos da espécie humana conseguem reproduzir com maestria por toda a vida (para azar do mundo). Afrânio decidira assumir a rédea de sua própria vida. Desafiando sua patologia com um rascunho de discurso que dizia basicamente “se sou metafórico-literal, por quê não viver literalmente todas as saborosas metáforas da vida?”. Por isso, dirigia-se decididamente ao Rei da Pamonha para saber se “em terra de cego, quem tem olho é rei”. Tenho quase certeza que Afrânio não entendia de metáforas, ou ao menos sabia diferenciá-las de trocadilhos.
Mas vivendo literalmente o sentido de que, no meio da ignorância, quem sabe pouco, domina, Afrânio caminhava tictacmente ao seu destino, quando subitamente seu alarme disparou, assustando uma senhora que também sofria de problemas cardiácos e caiu dura ao chão, sendo imediatamente socorrida por um rapaz jovem, loiro, de bigode simetricamente também loiro, trajando uma linda camisa quadriculada por dentro da calça jeans e um casaco de couro com o rosto e a assinatura de Garry Kasparov – o maior enxadrista de todos os tempos (trocadilho). Em suas mãos, as pastas organizadas pelas ordem de cores do arco-íris se espatifaram pela calçada, criando o caos estético para ambos. Sem pestanejar, Afrânio coletou e reorganizou-as, devolvendo-as para o seu proprietário, que prontamente disse, com uma voz garbosa e um olhar meigo e ligeiramente vesgo: “tak”.
Por um instante, o coração de Afrânio parou (metaforicamente), como um relógio velho em que os ponteiros são por demasia desobedientes. A conjunção de fatores em um só homem era demais para seu pobre relógio. Estava desarmado. Não sentia mais o risco de explodir. Os dois se levantaram paulatinamente. Testemunhas podiam jurar que no fundo tocava Lionel Richie, mas era demais acreditar em tamanha pieguice. Segurando as mãos, via pastas, eles se entreolharam. Foi então que Afrânio proferiu as palavras que o Tempo, até hoje, afirma serem as mais linda que um passageiro pode dizer ao motorista quando ignora o aviso em letras garrafais de “fale apenas o necessário”.
– Kærlighed er den bedste af sygdomme.*
Pouco se sabe o que foi dito, apenas que Afrânio aprendera tal sentença assistindo seu seriado médico dinamarquês.
Hoje, Afrânio mora em Copenhague. Casado com Sven, ele cuida da relojoaria da família do marido, onde prova que “em casa de ferreiro, espeto é de pau”. Seguindo sua rotina, toda terça-feira pratica yoga e costuma fazer a posição sirsasana, em que fica com a cabeça para baixo, girando a areia de sua ampulheta e lhe garantindo não a eternidade, mas segundos extra de esplendor. Além do mais, descobriram que a doença é contagiosa e agora Sven tem um cérebro de elefante (o que o tornou o ser humano mais inteligente da atualidade, porém reduziu seu paladar a folhas de árvores, ervas, raízes, frutos e, especialmente, gramas do jardim do vizinho).
* O amor é a melhor das doenças
Sérgio Loureiro