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o céu cai e eu tento fazer sentido

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Sopro de pássaro

houve uma brisa
ou suspiro
não importa, tudo é vento
e esse que pode ser o meu último sopro
é, no mínimo, um bom intento
‘um trem locomovendo esfumaçante
desgoverna o seu destino
mas não cabe na estante
de brinquedo de menino’
tudo é livre, não obstante
isso é só um pensamento,
que me levará distante
e retornarei mais atento
suspira ao vento o seu caminho
ser criança é importante
mas quando cresce, passarinho
Voa, sopra o vento, asas
bica ao norte o horizonte
encontrai o firmamento
quando não souber mais onde
voa de volta pra casa
pra de perto do teu ninho
pois só fará morada
onde venta teu caminho.

Sérgio Loureiro

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Forte e Verdadeiro

Foi um amor vivido por inteiro.
Até o seu tenro fim
Forte e Verdadeiro.
Proferido pelo começo
Mãos pelos pés ao avesso
Era tudo que queria, menos ligeiro.
Vagou um espaço em cada peito
Cresceu prum lado que não conheço.
Se antes fosse tudo do meu jeito
Se ao menos eu fosse aquilo que prometo
Se tudo fosse de direito
O mundo a ti soaria até perfeito.
Eu levo um vazo com flor e um conselho
De cuidar do broto e amar o espelho
Porque lindo é aquilo que com afeto é feito.

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tempo entre linhas

o tempo e as tuas mãos enrugadas
acostumaram-me aos carinhos
em pelo pele encravada
mãos que me deram de comer
das dores e delícias
e apontaram o caminho

Para o tempo
e o amarelo que fica
a concretude física
carnal divina
pois tudo que move é sagrado
no toque
de uma mulher que recusou morrer

o tempo
e o sopro do vento nos meus cabelos
encaracolados ao destino e o porvir
virá
calvo galopante sem rédeas ou frenagens
solto grisalho na loucura fina da paisagem
sorriso distante que se aproxima
no ritmo rouco da rima

o tempo e o ventre expansivo
dentro sorri o destino
menina ou menino
certo sensível
de que tempo há de prover e tirar
o que nem as enrugadas mãos conseguem evitar

o tempo preso numa foto
junto a uma fonte

que não seca
cega e mata a sede
do viajante e da dúvida
desatina, onde nem fui ainda
esse meu paradeiro sem fim

o tempo e um relógio no pulso
de quem acha que tem o tempo
nas rugas linhas da palma da mão
ou no curso do rio
caudalosa abstração
de um menino vazio
caçando borboletas renovando o mundo
num relativo pueril

o tempo
uma máquina incessante
dispara e aperta o peito
silenciosa
sacrificada em poesia pura e pontual
sem pontuação
tempo para quê?

Sérgio Loureiro

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Carta tardia aos ávidos olhos apressados

eu cheguei, eram quase duas para as seis. tu sequer notares. com esse seu jeito de quem possui toda beleza e mistério do existir, nada podias ser mais que ti. no centro da sala, onde todos cantavam o refrão ‘oh, meu amor, não desistas de mim’, eu me lembrei de um sonho que tive no fundo do trem. por um instante até pude crer – por outro juro quase gritar.

quantas vezes quis evitar a dor fugindo para cantos de salas, cantos de fala (tantas foram as derrotas), e agora as malas arrumadas lá fora e aquele olhar que me diz “meu bem, eu te amo só por hoje, amanhã vou-me embora para Paris”. nesse deserto frio e escuro de cegueira e solidão, espero uma luz vir me buscar e seu brilho solar me levar daqui.

“o amor morre. só a arte, não.”

enquanto tu ias enfileirando copos e brindes, a festa seguia ao fim. se parrasse o mundo, olharia para mim. já longe de minha órbita natural. criando casco e o cansaço. tentando apenas ser pequenos passos, engatinhando numa gravidade que pela primeira vez não me empurra para baixo: me deixa solto no vazio de um espaço ao qual jamais pertenci.

nós compartilhamos as lágrimas que caíram ao anoitecer. meu coração chorava e eu só queria esquecer. engoli os goles secos das palavras que nunca ousei. descabidas no peito, as duras pontas agudas – a torto direito – constipavam-me aos mínimos pigarros. desprovidas de artefato para ouvir o murmúrio, provei sozinho a minha tristeza sabor cigarro.

eu sigo escondendo sentimentos em versos juvenis.

do alto de mim, o mundo inteiro parecia partido, dobrado ao avesso e então cuspido – e, escarrado, não bastava achar graça nos motivos pelos quais um dia havia rido sozinho. corte os laços com a lâmina fria de um punhal, dê para seu adeus uma oferenda final. esquente as lágrimas na colher e respire. alimente a boca do ego, a boca do estômago, a boca desdentada do afeto, e ouça o oco do teu eco.

ouves bem o que te digo, para que o que ficou calado comigo não fique para sempre em sigilo. e leve este meu choro aos braços do amparo. com uma flecha que disparo sem destino, te escrevo esta carta com um verso perdido: “não te esqueças, meu amor, que quem mais te amou fui eu. neste sonho para dois foste tu quem me fodeu.

por onde vá, encontre a beleza.

Sérgio Loureiro

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Quando vieres

Guardo estas palavras para quando vieres.
Este é o relato de alguém ofegante que respira entre as linhas escritas e o fim do pavio.

Sou algo, até mesmo o resto. Sou o que evidencia, evoca a si, e se esconde para debaixo do tapete. Às vezes sou a gota intransigente de refrigerante, tensionada entre os dentes. Às vezes sou onda que quebra corrente e te traz para o meu meio-mar. Em outras, até sou gente.

Trago este perfume que exalo e me entala a garganta. Cheiro ao doce suor nos amargos da boca que me estranha. Bom ver o tanto que já caminhei para cheirar aqui.

Sento meus olhos ao repouso dominical, aconchego meus anseios em poltronas de veludo. Pois agora que sei que vens, peço sossegado. Quase mudo.

Os dias, por aqui, são mais do que páginas desesperadas – dependuradas pelas pontas – que caem detidamente, como as folhas de jornais e os outonos ainda sazonais insistem em cair no meu quintal. Foi quando passei a despender o tempo necessário para que nada escapasse que soube pela primeira vez do teu sinal.

Enquanto te escrevo, ouço rumores e notícias de política na tevê. Um chá, quase pronto, assobia e o movimento migratório dos pássaros bate asas pela cozinha. O Flamengo perdeu de novo, o dólar subiu e o presidente é um otário.

Tanta coisa acontece em tanto lugar.

Vais descobrir que adoro o barulho de chá pronto às seis. Entre essas e outras ninharias, um ninho de Bem-te-vi no assoalho do telhado me faz companhia.

Lido com a terra entre os dedos e me pergunto: “quando estive sozinho?”.

Tanta coisa acontece em tanto lugar.

Às vezes penso se a terra é o tapete de Deus. Tenho escondido coisas bonitas pelo simples prazer de reencontrar.

Dos meus dilemas, os que te esperam volta e meia vêm me perguntar de ti. Tua chegada é mais que resposta divina, é resolutivo prover.

Dos meus dilemas, és o derradeiro.

Afinal, o que é que há? O que será de tão inevitável que eu tanto torço para que aconteça? Que verdade existe nesta dúvida para que me reivindique a natureza primária do ser? Que potência se manifesta neste desejo, que me ocupa os espaços vazios?

Já não há mais tapetes.

Quando vieres, vais me encontrar nativo de mim e da terra.

Sérgio Loureiro

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fogo fogueira

fogo fogueira. vida e morte. luz que encandeia e cega tudo ao redor. belo é o que se vê. e só. a representação da morte que, se esvaindo, definha-se em estalos. queima. aquece. acalenta. não quero pensar em fim como um processo físico/químico que se desenrola independente de forças próprias de vontade, planos ou mero desespero. quero pensar em fim como um caminho. como quem dá boas vindas pelo espelho. como quem se despede o tempo inteiro. ou simplesmente como quem se confunde entre começos e recomeços intermináveis de única certeza eterna: o fim. quero viver como a música que, em mim, agora ressoa sonora e tranquila. quero ser galho, tronco e graveto. há vida em viver assim. a vida, que ávida em ver de perto, avisa que verde é a cor da chama que arde e não queima. há verdades vívidas em quem pula fogueiras cotidianamente, pois estes têm brasa nos pés e calma na mente.

Sérgio Loureiro

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LUA EM TOURO

Vida que cai em mim, aquariana divina com lua em touro. Não lembro exatamente quando passei a me valer de leituras do destino. Sinto que sempre fui aguçada nos meus sentidos. Hoje o olhar de fora de uma lágrima vertente me visitou, e ele me trazia lembranças de uma estrela cadente – como pode a beleza que tange o tensionamento do acaso e rompe todas as certezas mais incríveis ser tão semelhante?

Esta tarde, não pedalei. O cansaço da disposição só não me tira o juízo. Este se põe em labuta operária de construção moral e civil. Por sorte, venho andando em muitas conduções coletivas e transportes públicos. Tenho lido muitos jornais e minha visão está cada vez melhor. Agora alcanço o horóscopo, e a charge de hoje é uma criança usando a folha do dia como fralda. “Você acha que eu nasci ontem?”. Ri.

Durmo melhor à noite quando debruço nas culpas e o sono transmuta-me para o ideal ilusório, onde os valores e o real dividem prateleira com o sentir ortodoxo. Desperto ao que os olhos fechados são capazes de ver. Encontro a paz quando me esforço a entender as minhas culpas, e em meus sonhos há o perdão habitando um mundo onde todos se preocupam com as dores do devir. 

E se eu olhar pela janela e perceber que respiro o mesmo ar que o resto do mundo? Será que eu percebo? Nunca sei se me desespero ou me tranquilizo. Atormenta(dor) querer entender demais. Nos sonhos costumo ter respostas para as dualidades. De olhos fechados enxergo mais.

Me sinto uma folha em branco mas que foi carimbada pelas pautas da sociedade. Agora quero apagar as pautas, voltar ao vazio. Dizem que do vazio tudo nasce, e eu estou afim de nascer de novo.

Em uma nova página. De um diário que chamo calendário.

Cami & Sérgio Loureiro

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rio nascente

estou nu
e todos pensamentos me parecem bem-vindos
aberto como um ventre
filtro da vida
linha de cerol que passa rente
ao fio que passa ruivo
ao diferente
amigo canino
que rasga-me ao dente
ao pelo, ao couro, ao risco tangente
à noite, ao coito, a semente
ao que me torna gente
ao outro, ao ego, ao ente
ao passo que faço comum, de repente
o laço, o abraço, o flato descrente
da intimidade criada inocente
ao choro da lágrima
palhaço novamente
a tu, ao teu
afago imponente
que me renova de força
pede-me que tente
tirar
as roupas
as armas
os medos
os sonhos
os outros
e ser
tão somente.

sérgio loureiro

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qualquer coisa

eu posso falar sobre o perdão. posso falar sobre os sabores e sobre o vento. posso contar os acasos oportunos regentes desse fantochismo porvirá, dos descuidados distraídos marionetes que se esbarram por mera implicância ao caminhar em trens ou plataformas de encontro casual. ou efeito causal consequente. sobre esse cotidiano consciente (ou não), em que todos cientes do rumo dormem no caminho. / posso falar sozinho sobre a ancestralidade evocada, esse tropeço no destino inclinado ao fino passo em que se dá em uma corda-viva onde todas histórias parecem amarradas. dessa linha-agulha que me guia ao espetáculo, desse palco e dessa luz que me cerca. dessa vida, que é circo. desse equilíbrio celebrado em fases que marcam a pele. cicatrizes. felizes são as novas como bem são as velhas formas de se encontrar. / posso falar sobre nós. nessa coincidência em que se resgata o ponto de encontro e partida. a incidência do sol é a marca da vida de um novo dia e voltar para casa é fugitivo se o melhor lugar é agora e aqui. / posso te falar dos sonhos cheio de medos e dos receios em que me despi ao seu dispor. ou de como a cidade mudou, e no trajeto você mudou, a vida mudou e tudo agora é um deserto. posso falar, mas prefiro que seja de perto.

queira. escute essa canção. ou qualquer bobagem.

eu posso falar das luzes azuis da sirene, e de seus olhos. e desse acaso entregue somente aos encontros que nunca tiveram fim. e então falar dessa sorte a nossa e a vontade que eu tenho de sair por aí. ir por aí, por aí afora. numa estrada que só me leva, nunca me traz. uma estrada de terra que não me pergunta onde foi que me perdi. sentir o barro, beijar a pedra, ser o pó. eu e você, no banco de trás de uma carona. me encontrar longe, mas na tua cama. viajante com você perto a mim. e você é luz da manhã, é de lua, de fases e frases cantadas ao verso que se escreve e encerra sempre com um final feliz.

eu realmente poderia falar. para quando você pudesse ler. e quando você me perguntasse, saberia dizer. diria algo mais do que viria à boca. diria, exatamente, qualquer coisa.

sergio loureiro


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relatos

ouvi dizer que esteves por aqui
vesti as botinas
fui caçar rastros atrás de ti
segui passos em vão
pois tuas pegadas foram vistas em outra dimensão, longe daqui.

por lá, surgirão boatos
jurarão que estivestes ali
“saiu nestante, eu quase vi”.
“dançava e pulava sem jeito, me acabei de rir”
“tinha um sorriso que quase fico louco, quase desfaleço, quase que quis”.

só podia ser você
ouço relatos próximos aos olhos
espalho seu nome por onde passo
foi por pouco, mas não desisti.

na busca incessante
incenso de jasmim
esteves por estes lados, posso sentir
na fragrância que sopra
no rio que dobra
na viúva e na grávida que choram a dor do partir

meu navio sem rota dispara ao sabor do vento
eu até nem sei se tenho tempo que não te vejo
mas velejo nesse corpo desconhecido
passeio sem jeito
pelo teu semblante perfeito à luz da sombra, oblíquo.

nesse ‘disse me disse’, bate o vento e quase me perdi
corro como se quisesse existir
a dor me pregando peças pelo chão
que delícia é ser e sentir!

era só migué, mas foi divertido
era verdade
e eu acreditei desde o princípio.

sérgio loureiro

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letras do desassossego

essa é para você contar aos outros na rua.
essa poesia pura, nua e crua. tua como teus dentes que se atrevem a atravessar a minha carne quente a um mero instante do contato aos meus ócios, meus ossos, meus órgãos, meu âmago, para, quem sabe então, meu corpo literal, meu antieu, minha essência antes posta em prática pelo meu ser vivente.

quem sabe o meu desmoronar demonstre mais que as palavras sentidas – não ditas – tentaram falar. quem sabe em nome de algo eu possa dar, à vida ou ao desamor, o infortúnio ato de despejar – e quem despeja um dia não tem mais água para dar.

essa vem de longe. fui procurar no dicionário a direção exata, o ponto ordinário ao que eu possa, enfim, me perder. outrora vaguejante vaqueiro na vastidão do palavrear, agora nada mais a ser ante o que há. sou desculpas e teimosia, sou demora e a agonia recém-nascida do primeiro ar.

você sempre quis estar neste papel de folha branca e curvas desalinhadas, ornando o rasuro ao desenho de trato infantil. agora esse canino que se mostra ao liso sorriso arredio está no verso subversivo punhado à mão do descaso, e se escreve tal qual o apunhalado peito do teu aço frio.

tu és a morte e a vida. é o mundo inteiro se acabando. é sentir a célula-prima da natureza de todas as coisas se partindo em um espetáculo piromático, e depois se apagando. é o fogo-rei que contrai as entranhas num rebolado de devastação e magia. é brasa que não queima, mas arrepia. é, e é isso todo dia. um fenômeno raro e obtuso, diferente como cada qual há de ser. és a beleza na noite trancado numa cela. a fúria e a alma de uma pobre donzela. és o resgate do náufrago atendido em oração, és a colheita divina quando estendo as mãos.

me leve contigo. amassado, no bolso de sua calça. ou mesmo perdido entre tuas coisas na mochila. agora nada mais me importa se nada me acalma. podes me mostrar aos teus amigos desconhecidos no meio da rua. a gente é esse grão, indo de mão em mão, caindo em tentação.

só não esqueces de mim. esta poesia que é uma recordação, um segredo entreaberto, é também uma tentativa. mas, antes de tudo, uma confissão.

sérgio loureiro

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delírio escatológico

essa noite, Laura era astronauta
voava e batia as asas
como se fossem esforços válidos.

penas e taças se arremessavam pelos lados
pelos e lábios em contato equidistante
laços dados em linha de cetim.

sobe de longe, a lua vai
o clarão vertical
anuncia em tambor o seu nome alvorecer.

num dadaísmo reverso
golpe de pragmatismo à revelia
um faz-de-conta que faz sentido
passaria em minha TV.

nesse delírio escatológico
de comportamento óbvio
sacramentado o inócuo
sangue tinto, clorofórmio
utopia, sonda espacial e unicórnio.

sabes, de longe, onde flutuar
tendes as firulas das manhãs
dentes nas frutas – o sabor da maçã
o que seria da sereia que rega corais no fundo do mar?

preenchida pela alegria do profano
arremetia-se em sonhos tão mundanos
caindo de cabeça no universal amar.

“é tão bom não ser divina”
e, serelepe, saciar a sede
do carnal desejo
do peito, o leite quente.

já rodou o mundo
fez a volta errada
deu lugar a tudo
fez muita sacanagem
arrependeu-se, muda
já sentiu saudade.

mas retornando ao discernimento
copular astral
melantonina em dissenso contratual
rompe a barreira do sono inabitual.

afã do afago ao lado
me acordou com olhos esbugalhados
me dizendo no espelho:

“sou forte.
meio doce e meio ácida.
em alguns dias acho que sou fraca.
e boba.
sou gente.
mais tarde, hei de ser.
me acorde às seis.”

sérgio loureiro

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Carta para Flora

Essa é a história de Flora. Uma garota, que antes mesmo de ser garota, era um projeto – como você e eu, mas não exatamente todos nós. Planejada na mais bela das intenções, teve seu destino escolhido e acolhido como se fosse realmente seu. Nome batizado a dedo, escrito no enxoval oito meses antes do primeiro beijo. Envolta no berço de zelo e proteção que a apresentara ao amor e à compaixão, acreditou no perfeito. Criou e foi criada na casa, e coragem para quê? Sabia exatamente onde ir pelas migalhas que ouvira falar. Não te preocupavam os labirintos, os labores e as lábias malditas, desde que houvesse e ouvisse os cantos do rio. Ornava perfeitamente com os adornos encontrados pelo caminho. Adorava seus cachorros, mas de borboletas tinha um temor umbilical que lhe levava ao definho.

Preferia acreditar na dureza da vida e nas pedras da estrada, mesmo isso lhe sendo um mero burburinho. A certeza de pisar os pés em solo firme lhe garantia a segurança de poder voar. E voar era distante: queria mesmo ser girafa, sentir o céu com os pés colados ao chão. Como toda certeza da vida, os primeiros passos tropeçados a jogaram para frente, depois para cima, até, por fim, cair abraçada ao seu amado chão. A felicidade estampava. Os passos maiores que as pernas, os passos tortos na linha, os passos e os sapatos apertados nos pés.

Signo de virgem com personalidade em libra. Vítima das escolhas difíceis da vida. Regida pela força que só a beleza pode ver. E via. Via em cada ser o lado puro e bom que cintilava em meio ao cinza duro do corpo físico. Tinha, como ninguém, o dom magnífico de amar os estranhos às entranhas escondidas. Com a exata precisão da tenra ternura da terra molhada pronta para o semear. Nada, absolutamente nada, poderia uma criatura como eu, senão, amá-la.

Era admirável ser adorador expectante dos seus passos, vê-la caminhar cautelosamente com a certeza de quem corre livre pelos campos de flores vermelhas. Flora tinha medos que ninguém podia ajudar, mas isso jamais lhe fora problema. Quantas vezes corri desesperadamente, crente do presente que só o futuro poderia me dar? Como se pudesse prever – ou, ao menos, ousar. Quantas vezes tive que voltar? E no retorno, encontrar Flora ainda indo, colhendo os frutos das árvores que eu nem sequer pude notar..

Flora valia o seu nome. Fazia germinar em cada peito infértil, cada coração árido a pureza e a bondade de ser o melhor que há. Gostava de casais americanos, copos americanos, jogos de mesa americanos e até sua cozinha era tal. Colecionava revistas e jornais, cartazes e jogos de talheres e tabuleiros. Muito pude aprender, mas o pouco que soube ensinar ainda me visita os pensamentos. Os passeios no parque, as primeiras pedaladas. Os livros trocados e os filmes adormecidos na madrugada. Sua partida fora um devastador desmate dentro de mim.

Como toda flor desabrocha, a menina cresceu. Cresceu e se tornou mais que seu armário pôde aguentar. Cresceu e foi para longe, onde ninguém, nem mesmo ela, soube imaginar. No chão cinza duro da cidade, jurou-me ter encontrado o amor. Jurou uma, jurou duas, jurou três e mais vezes possíveis de contar. Amou o sorvete gelatto, o cinema indie, a moda Belle Époque. Amou o estrangeiro com os olhos hospedeiros, amou o novo e a novidade. Amou disco na vitrola e o samba na alvorada. Amou o orvalho e a neblina, a garoa, os garotos e as meninas.

Romances foram todos. Romance ao pé da cama, regado de beijos escondidos. Romance tipicamente vermelho, outrora laranja, espremidos. Romances de ritmo rápido e viril intenso: beijo com cigarro, beijo de armadilha, beijo com gosto de incenso. beijo de criança, beijo enquanto dança, beijo e silêncio. Beijo, te amo, beijo escondido, beijo ‘te encontro na saída’. Beijo de cinema, beijo apressado. “beijo, me liga”. Romances, poucos, com nomes e rostos penduradas em um ladrilho. Com Paulo foi feliz, nunca soube o porquê. Lucas te fazia dormir no colo ao mais tardar das seis. Aldo era triste – e triste fora até morrer, quando cansado de ir lar em lar decidiu ceder. Joana era evangélica, muito não pôde fazer. Ana, carente, essa custava para crer.

Aos 24, com pé quebrado, Flora me mandou mensagem às 2 da madrugada do sábado para o domingo, 23.

“Descobri que encontro nos pés muito da minha disposição em ir. E ir nem sempre é um lugar físico, um endereço. Ir, ás vezes, é um lugar de escolha, um destino que não conheço. E nesse caminho, a gente para sempre numa encruzilhada, e encruzilhada não é lugar de dúvida, é lugar de decisão. Me pergunto: ‘quem sabe agora, repousando forçadamente, eu escolha com calma aonde ir, então?’

Quero voltar a patinar quando tudo isso passar. Gosto de sentir o vento no cabelo. É o máximo de velocidade que a vida me reservou. Porém, por desconhecer o rápido, nunca aprendi a frear. Na bicicleta, tinha controle. Patinar é confiar no universo. Crer que ele saiba quando parar”.

Flora vivia como quem houvesse sempre o que perder. Sem ver que aquele projeto embrionário se tornara uma grande mulher. Como se pudesse – e até podia -, evitava ser. Essa pessoa comedida, sempre com a medida exata do exagerado ser. Negando a si e as migalhas, queria o inteiro. Em meio ao sonho e ao destino derradeiro, carros, roupas, móveis e samambaias. Compras do mercado e um violão empoeirado parado no canto do quarto. Um quadro torto de um vazo quebrado e um retrato seu com um broto no cabelo. Um barulho no corredor e uma batida forte em minha porta. E essa cara que só eu sei.

Now it’s too late.

Sérgio Loureiro

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poemas que leria olhando em seus olhos

Corri tanto atrás de viver, que caí e quebrei o pé. mas que fique claro: não me arrependo do caminho trilhado apressado, pisando com pés em falso. Não fosse por isso não saberia, sequer, em qual esquina do viver escrevem-se às linhas o tempo do amor, sem ter que sofrer, sem ter que chorar.

Hoje no colo, nos seios, nos sexos, do secos na boca, no traço em que faço meu destino. Acendo meu cigarro, não preciso mais correr. Pois agora sei o caminho de casa. Pois agora tenho você.

Confesso, não sinto mais aquela paixão arrebatadora, não me sinto mais jovem ansiando viver, sonhadora. Estou de cara lavada. Aprendi a ligar os pontos. Agora me sinto preparada.

Portanto, não te apresses. Queira-me como quiseres, como queres, como bem me queiras o querer. Só não queira me agradar. Tenho categoria para amar. Tenho calma e a poesia para me acompanhar.

E amar é um pedacinho do céu.
E amor é onde eu queria estar com você.

sérgio loureiro

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preto & branco

em preto e branco, mais um dia se vai. lá fora um frio lindo, com a garoa paulistana cobrindo sonhos e telhados, cercas e cercados. a noite cai. os olhos cinzas como a cidade e os pensamentos inocentes voando no alto dos prédios, cortando luzes, antenas e fios. as estrelas se escondem entre as nuvens de fumaça, nuvens de algodão, nuvens de sonhos cobertos pela garoa. o céu era uma noite normal em sampa. concreta contra a parede fria, sentada vendo carros correrem pelas ruas, ruas correrem pelo asfalto molhado da avenida Afonso Pena. não houve o que duvidar.

em preto em branco ela se veste. a Terra, cinza, da cor do seu vestido. a Terra gira, como a flor no seu cabelo. a Terra atenta ao primeiro sinal de vida em seu sorriso no espelho. fora de órbita, outros braços estendem-se a si. entocada em seu quarto, uma só constelação estelar. intocável, a Terra gira no eixo de seu dedo. a Terra, vista assim, até faz sentido ser e estar.

duvidou. talvez por saber que o armado atira até por medo de que um outro atire primeiro. teve medo. o rádio da vitrola tocava uma canção que dizia “minha tristeza tem sabor de cigarro, mas dentro de mim você pode me ouvir cantar”. cansada, atirava pedras em vidraças e as vezes achava que não haviam pedras suficientes.

em preto e branco, uma foto junto ao junco. um conjunto de flores mortas no vazo feito de cinzeiro. cinzas regendo um enterro. não houve sentimento presente. ouve um silêncio que se rompe, sorrateiro. subitamente deseja sentir o tato do tácito, o implícito à flor da pele.

em preto e branco, ela tem algo a dizer. antes mesmo de ter as palavras. palavras sufocadas já não cabem nas páginas rasgadas do caderno amarelo. ouve promessas de felicidade. dentro de si, não se sente neste lugar. desejaria viver em Júpiter onde as almas são puras e a transa é outra. não que seja a mais virginal de todos os tempos, mas seu perfume tristeza contrasta com o cheiro e com a dúvida que acaricia na ponta de seus dedos.

em preto e branco hoje vai se rebelar a maior de todas, estrela lunar. no apartamento, oitavo andar, um deserto perfeito. num país sem nome, outros homens mantém-se satisfeitos. como se pudessem prever o vento. como se pudesse duvidar. em preto e branco, um cartão postal de Paris. um casal ensaia-se feliz. um soco em cheio no peito. este amor em seus olhos já se fecharam. não abra a porta se você não pretende entrar.

em preto e branco hoje vai se revelar. batom vermelho para quê? a noite é sua, a dança sua. aos corpos quentes, pedras de gelo. em preto e branco, é hora do adeus. cigarros, gato, cartas espalhadas pela sala, cartão postal e uma mensagem no espelho. o disco torto na vitrola contracena perfeito com o que há la fora. as vivas cores do destino desbotam na palidez do pensar. são tons de sim, são tons de cinza. em preto e branco sabes exatamente o que vai ser.

o seu pensamento tem a cor do seu vestido

sérgio loureiro

 

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SÉLFICO

essa manhã eu me olhei no espelho
sob o filtro vermelho
que deixa tudo perfeito
minhas olheiras, minhas espinhas
até mesmo minha calvície se tornou simpatia
já fui gato, já fui cachorro
criei personagens para todos os efeitos
feito feitiço para mim mesmo
agora na película do espelho
já não mais me reconheço

sérgio loureiro

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astro notas austrais

Tenho ido e vindo, de um lado para o outro. Quem vê de longe, acha lindo esse meu balé torto pelas estrelas. Quem vê de perto, jura que estou perdido. Captei sinais remotos de vida lá fora e investi boa parte do meu tempo em novas descobertas. Isolado, tento fazer de minha nave um pouco de mim. Tento lembrar de mim. Este negócio têm os seus dias. Saudade e solidão se entranham na excitação a cada passo mais distante. Tudo é muito pequeno para olhar para trás. Talvez por isso, apontei minha antena para o maior satélite. Ver no que vai dar.

sérgio loureiro

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o olho é uma bandeira

eu não quero mais fugir. estou cansado de despedidas e de saídas de fininho. percebo que finjo escapar de algo que está preso à mim. me persegue sempre – e tão somente – quando me ponho em disparada. saio catando frases pelo caminho. coleciono sonhos – maioria, vazios. entre tombos e tropeços, vez por outra me esbarro no acaso.

por estar desatento, não lembro como me viesse. se em orelha de livro ou panfleto ao chão. talvez um post aleatório que tenha me iluminado (e, de repente, isso me faz lembrar da metáfora de que Deus é um poste: passa boa parte do seu tempo ali, despercebido enquanto há luz; mas basta um segundo de escuridão para se tornar essencial).

estampada estava tal qual jamais pudera ignorar. sei que durante muito tempo não busquei entendê-la. apenas aceitava-a como fato – e achava lindo, como ainda me vejo encantado pela sua beleza profunda e misteriosa. um preceito bíblico, uma ordenação constitucional. um poema de si. agora, cansado de partir sem levar, eis-me aqui: decidido a descifrar os mistérios que te convém, acordado para o sentido precedido ao além.

“o olho é uma bandeira”.

o que é uma bandeira? uma demarcação, um registro de posse? uma bandeira é um ato de rendição, um pedido de perdão e clemência. uma bandeira é uma ideia vivida em conjunto, a união coletiva de indivíduos em prol de algo único. uma bandeira é um símbolo, uma representatividade.

já o olho…é uma lente. é a representação do mundo a mim. eu vejo aquilo que é, mas aquilo como é? o olho também é rendição. o olhar que cai, despenca, sucumbe ao outro por paixão. o olhar que se desvia, faz vítimas de olhar perdido. o olho entrega. o olho dá bandeira.

por longo tempo estivesses acompanhando-me. em todas as fugas, presa a mim em uma página abarrotada de caderno, ao lado de uma mancha de café, talvez? tantas variantes já foram criadas diante ti. todas fadadas ao mesmo destino massante: páginas rasgadas de uma história que não se conclui.

por fim, nenhuma poesia deu-se, enfim. tampouco há para onde ir daqui. resta esse registro pessoal onde descarrego tudo que há em mim. só não há poste aceso nessa rua escura na qual trafego. agora, também não há ti. que se eterniza nesse conto sem fim.

sergio loureiro

* que se finque olhares em novas descobertas.

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salmos perdidos

por que todos nós caímos na inocência
em  fantasiar algo tão certo, tão bom
tão vívido daquilo que buscamos, irremediavelmente
repleto dos reflexos de quem somos
algo tão cheio de nós que nosostros?

porque teimas, tão irritadamente
em ver a verdade via o véu das emoções
mesmo estando diante, prostrada
crente deste irreal retrato do absurdo
fenômeno raro e obtuso
um irretrato reto e intransigente
do trato que se dá ao acuso
do curso, sem pulso
mudo, surdo do sentido de gente.

oh, senhor de todos os sonhos não vividos
os do turno da manhã, sonâmbulo adormecido
que no ventre da anciã, proferido. preâmbulo
fez-se a soma divina
fez-se a luz e a cortina
o eco das risadas, ceias matinas
onde parte-se o pão e cede-se a carne
sangue escorre em cálices
fim ao seios maternos.

por que caímos no conto do amor perpétuo
se nada que façamos será eterno?
em que conta contam os corpos que pagaram o preço do divino?
em nome de quem se dará este menino?
filho de vários, irmão de todos
virgem sou eu, bem como outros.

se eu não tivesse nada.
nem perto, nem cortante
nem espécie, nem montante
nem troco e nem choro
diria que te amo, mas isso é um aDeus.

porque te quero e tua presença me leva ao supremo
gosto do teu jeito de me fazer sair da cama
e do teu dom de me desacordar
aos sentidos, uma mensagem na caixa postal
sintam se em casa eu não estiver.

Sérgio Loureiro

Destaque

afinal de contas

O seu amor eu não sou capaz de entender
mas jamais desejaria não sentir
não me cabe nada além de caber aqui
o seu amor é novo para mim
me faz crescer para te alcançar
estiquei meus braços por onde não cresciam galhos
não sei se você chegou a ver
o seu amor me faz ver o sol
e me beija todas manhãs de um jeito diferente
hoje nasceu uma flor na minha ponta
amanhã ela está no chão, vira semente
seu amor é livre demais para buquê
quem quiser que venha para ver
quem quiser que queira o bem-querer
o seu amor é realmente fora da curva
e que bom que seja
que bom que é
afinal, é amor
e você disse que agora é meu.

sérgio loureiro

Destaque

o cárcere e o exílio

Hoje eu acordei angustiado. Acordar, a início de conversa, é mera formalidade linguística. Desde que esse resfriado começou, eu não tenho uma noite contínua de sono. A saudade ainda assola o rosto desamparado de alguém que não se vê inteiro nos estilhaços de um espelho. Mas a angústia – essa sim -, de longe, é o sintoma mais preocupante. Agravada pelo isolamento e ainda mais pela interação virtual com os outros confinados, ela dilacera a esperança que ainda ilumina esta cela.

Pode parecer ironia àqueles que intimamente me conhecem, os quais agora me destino, mas não sou uma pessoa extrovertida. Todas as minhas vivências e experiências são mais fruídas em processos internos do que externos. Quando estamos rindo juntos, simultaneamente dentro de mim, estou ruminando os sentidos, ocultando os sentimentos, ressignificando a risada. Aquilo que chega à superfície é apenas produto de exportação. Mas nem por isso deixo de lado uma característica essencial nesse fardo de me ser: a espontaneidade. Não me interessa ser nada além de quem sou.

Há uma razão por trás. Fui criado sozinho, sempre mudando de endereço, afastado de qualquer noção de núcleo familiar e constantemente impedido de criar novos vínculos efetivos de amizade. Muitos dos doutores que posteriormente analisaram meu caso, condenam à esta formação parca de afeto as razões de meu comportamento “imprevisível, impulsivo e com fortes tendências ao uso de substâncias psicoativas” (SIC).

Foi na solitude em que criei o hábito (antes de sobrevivência, hoje de pura vivência epicurista) do autoexílio. E isto cria um caráter analítico infinito: sou regido por códigos de conduta que se atualizam a cada experiência simultaneamente vivida em processos internos. Tais condenações sociais – as quais hoje pago o preço com o suor do meu confinamento e o definho físico e mental – não são nada se comparadas aos perjúrios que cometi a mim mesmo durante esta longa trajetória.

Mas nem tudo são espinhos. Minha condição me possibilita estar sempre em dois lugares: o aqui e o meta-aqui. Assim, não há prisão que se limite à solidão sem fim. O exílio é o confinamento no confins que há em mim.

Mas este é apenas um preâmbulo ao que me direciono. Durante esse período em que o mundo se tranca em casa em meio àquela que já é chamada de “crise da geração”, tenho acompanhado de tudo: desde as coberturas combativas, massivas e massantes da mídia, às reações e interações das redes sociais – ambas vistas sempre de relance em pequenos quadrantes permitidos pelos oficiais da ronda. Incrível o que os olhos são capazes em tempos de fadiga mental. Membros mais ávidos do meu organismo, não acomodam-se nem mesmo quando o corpo clama por repouso. Estar em estado constante e perene de vigia, de caça, à procura de algo – e algo é tão absoluto quanto possa parecer. Algo é qualquer coisa. E de qualquer coisa, o mundo está cheio.

Parece óbvio que existe uma certeza universal pairando sobre o coração de cada ser ainda humano neste planeta. Nossa existência necessita uma revisão. E não é alarmismo, é constatação básica de algo que deveria ser inerente. Com ou sem crise. Em um dos artigos capturados pelos olhos ávidos, o autor lembra da situação da tão enaltecida fronteira livre da União Europeia, agora suspendida. Muros se erguem enquanto costas se viram aos, antes, irmãos, que agora se olharão com a desconfiança da contaminação – livres sequer da preocupação de seu  E/estado.

Novas certezas emergirão. Como a de que nada é irreversível. Estamos presenciando o começo da ruína de antigos contratos sociais, como a liberdade, a democracia como a conhecemos, a benevolência, a segurança e a saúde pública – conquistados à sangue e suor pelos que agora constituem o principal grupo de risco. Elas não deixarão de existir, mas certamente estarão sob outra perspectiva.

Quando o contato social for reavido, tudo será como antes, mas antes jamais será como fora um dia. Quando as celas se abrirem, e o sol nascer redondamente esbelto em algum horizonte imponente demais que me mostre a grandeza da insignificância de ser quem sou, lembrarei dos tempos de exílio. Lembrarei do cárcere e do martírio. Lembrarei de tudo que dê tempo, pois há pressa em abraçar um amigo.

Eu não sei como dizer, nesse momento de incertezas, onde tudo é tão duvidoso e todo passo é dado em falso, para onde vamos daqui. De certo que a algum lugar, pois um dia deixaremos as celas, um dia sairemos das virtualidades dos quadrantes, um dia teremos que assumir o papel que nossos pés tem: não o de caminhar sempre em firmeza, mas o de caminhar. Não o de nos dar equilíbrio, mas também, por vezes, nos levar ao ar. Não de nos guiar a algum lugar de paz, mas de, acima de tudo, romper antigas fronteiras.

Sérgio Loureiro

Destaque

anarquia do talvez

há de haver algum sentido nisso tudo, ou então o que virá depois? falo sobre a vida, sobre mim e sobre tu e sobre esse passarinho que acabou de passar e tudo mais que é e reivindica para si a sua existência corpórea, material, física e tangível. reclamo ao concreto o sabor de sua rebeldia, a fantástica fábrica de operários felizes e revolucionários. cansados de serem o que são, não almejam patrão. eu particularmente não quero dinheiro, não quero paz, não quero sequer querer. querer o ser e talvez nem mesmo isso. quero ser legado do meu destino e infortúnio do meu fracasso. essa noite nada me basta, sentido ou mesmo depois. talvez o dia não amanheça e a lua é o que me resta. quero o que restou e o que não chegou a ser – ficou restrito à sensibilidade dos olhos que não veem, sentem. talvez vou virar foguete, meu destino é partir. no fim não há nada. talvez, uma arte.

sérgio loureiro

essa é uma obra inacabada dedicada a todxs que não se enganaram o suficiente para estarem prontos.

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notas da calçada

Eram quase uma e meia da madrugada da quinta e eu estava parado na calçada do lado de fora da festa. No oitavo andar do apartamento do outro lado da rua um homem abre a vidraça, cigarro pendulando na ponta dos lábios. Espreguiça-se abrindo os braços ao que se passa: carros, motos, vira-latas. Dentro do bar entre todas metáforas mal entendidas repetidas incessantemente ao som das batidas, você suava. Suava e não eram minhas mãos a te secar. Suava e o samba já não suportava o tamanho desse calor. Em meio às fumaças cigarros cinzas, silhuetas se entrelaçavam do lado de dentro para fora. Sentado sem saber ao certo o que fazer da vida, ciente de que o que me restam são apenas as suas sílabas, solucei. Solução nenhuma surgia. Logo eu que nunca soube fazer somas entre vírgulas nem tampouco ousei aprender – talvez por isso contraí tantas dívidas. E no fim da conta no bar onde está você? Espero que escute essa canção que não se dança mas se baila. A estrada é longa a vida é curta e entre todas as curvas e bebidas espero que se encontre a paz. Que seja, nesse caminho que te leva para o outro lado da festa, passiva e possante. Passageira e volante. Um passo errado e o outro errante. A vida não é mais vida quando vivida dessa forma e geralmente passa despercebida, como o casal que se entreolha na minha frente. À sombra das silhuetas que acompanhava quase que cinematograficamente, à moda que não volta, ao descaso próprio com a sanidade. São uma e meia e eu não sei se já se diz bom-dia. São uma e meia e a sua insistência em sumir satisfez a minha perseverança. São uma e meia e não se passa mais nada, não se ouve mais nada, não se dança mais nada. Não há janela e nem estrada. Mas se for dirigir essa noite fique comigo só mais uma vez. No rádio as notícias mais tristes são as mais repetidas. Por aqui o que me restam são goles de sensatez.

É difícil acreditar o que o sol é capaz de fazer nestes dias desde que é manhã neste exato momento em algum lugar. Então bom-dia!

Sérgio Loureiro

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certeza sensível

era cedo quando uma certeza sensível invadiu meu coração e fez dele sofá em manhã de domingo. um furtivo zumbido adentrando pela janela, trazendo aquele som ao definho. tão afiado, tão ligeiro, que eu nada pude fazer. categórico de si, carregava consigo a convicção da dúvida de sua própria natureza. afinal, assumira muitas formas até aqui, não sabia exatamente como me vir. talvez neblina nebulosa, talvez raio de sol e passarinho. talvez duvidando de si, ou de que a Terra dá voltas ao sol. talvez brincando de achar, encontrou-se só. nenhuma surpresa, a sua chegada me fez, quando ouvi seus passos aos esbarros na cozinha, arrastando os imóveis pela sala. vejo que seus tropeços medraram o sentir, agora que sinto seu amadurecimento frutificar – não em um vazo exposto na janela, mas pelo campo, ornando com outros carvalhos, barbosas e jasmins. soube de tua vinda desde o princípio do saber e estive com ele até o fim. comparo a sua chegada a uma ilha que fugiu do continente. pois agora que vieste e que teus pés descansam sobre a mesa, sinta a vontade. tire o pesar no que passou, nem o tempo aguenta mais o peso desse relógio. aconchega-te nessa concha de fora que escolheu te cobrir, e, talvez, repousa. ama esse insólito desejo de se fundir ao estranho corpo outro, ama o inóspito e o descobrir as novas terras em pedaços de suculência em carne em osso. percorre cada centímetro sentido meu. pois o meu corpo é solo, e como toda superfície, esconde seu ouro. o meu corpo é poesia que você jura ler com a língua. e então, sente-se salva quando se despede ao despir-se de toda insegurança e medo. se converte no que já era por essência e beleza inata. assim, fraca, reergue-se venusta exuberante, lenta e sadio, forma e conteúdo. tal qual regente cabal destemida ao esmo. ciente que a constância das incertezas é a volta de todo partir, tem na essência a negação do existir. descobre que lar é o “a” de abrigo que há no aqui. e aqui, por fim, encontra moradia, me preenchendo – não de promessas vazias, mas de perfeitas incertezas sobre o amanhã. chega e me diz coisas que não diria para si mesma. com calma, depressa, sem agonia. eu tenho todo o tempo do mundo, mas eu te quero agora.

sérgio loureiro

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placebolia doentio

os dias têm nomes, a saudade também. as dores, nem se fala. na quinta-feira 12, esqueceu de esquecer. fora alçado ao bálsamo do saber. do sentimento ensejado pelo nascer eldorado do que não criou asas: a causa. o que não se pôs à lona, surge à tona. da lama ao rio. do mantra ao frio. nocauteado, assim mesmo, tonto e febril. perfeitamente sadio para suportar as demandas evitadas. vício algum o levará daqui. remorsos remotos, antes distantes, a um palmo do curto pavio davam nos brios. antes biológico que antibiótico. rádio testando, rivo uno, duno, trio. nota: não confundir a terapia acidentada aos espasmos seculares. a célula da questão encontra-se dividida em traumas ilegíveis. hereditariedade prontamente negada pelos familiares. a receita garranchada generaliza: trate de ser homem com tratamento homeopático. “você tentou sorrir?”. na fila do abate, o que ousas dizer o réu ferido ao referido caso abatido? fala o que se cala no re-verso do universo abrangente do ser. pirata da prata de quem fora. não mais. doses sociopatas. duas a cada dia. uma de manhã. outra de noite – se ela chegar.

Dr. Sergio Loureiro
CRM 123451000

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rua Campos Salles, 137

As coisas pareciam acontecer como ocasionalmente acontecem de maneira regrada, todo santo dia. O mesmo vagão do mesmo metrô lotado das 10:20, na estação Afonso Pena. “Como pode, uma hora destas, o metrô estar lotado?”, me pergunto. “Que tipo de gente enfadonha é essa que pega metrô às 10:20? Que tipo de horário insosso, chocho, pífio, é este?” Tarde demais ou demasiado cedo. Nunca no seu próprio tempo certo. Um horário que tem seu valor atribuído mediante outros horários. Me pergunto, então, se não é algo pessoal. Uma perseguição cosmológica, astral. As coisas realmente têm dado muito errado ultimamente, de certo que ofendi alguma divindade orgulhosa demais de si. No sanduíche humano metalizado, eu era a carne espremida por um homem e uma mulher. Eles se davam costas e me esmagavam, extraindo de mim o sulco da ojeriza matinal. Naquele momento, meus pensamentos já remetiam minha adolescência. Procurava descobrir em que momento da vida encaminhei meus passos para o escritório da Av. Nilo Peçanha. Para a dor de coluna, a dor de cabeça, para o estresse, o sobrepeso, a calvície. Para o ibuprofeno, a piridoxina a nimesulida, a ocitocina. Para o vício em café, os almoços no fast food, os fins de semana dormindo. De repente, algo tão trivial quanto coçar o nariz me chamou a atenção. Os dois pães, o homem e a mulher, sequer notavam a vida escorrer por meus olhos. Cabisbaixos, empunhavam seus celulares com o vigor que mais tarde causaria inveja aos seus filhos. Ambos no aplicativo de relacionamentos. Incapazes de se esbarrarem com intenção. Tropeçam no limite do virtual. A “sensação de” se torna a coisa em si. “O que nos trouxe até aqui?” A esse metrô lotado. A esse profuso movimento de pessoas caminhando para lugar algum, ofuscados pelas luzes digitais. Telas não são placas. Esse metrô está vazio. Há muito espaço aqui. Há muito espaço em mim. Pois agora meus pensamentos me levam ao teu sorriso. Venho me locomovendo comoventemente aos esmo, ao abismo, ao abraço. Há muito espaço para o sentir. Há muito espaço sem ti. Espero que esse metrô lotado um dia me leve de volta para teus trilhos. E que nos guie na trilha do destino, que lá fora nos parecia desafio, mas aqui dentro, somente nós podemos sentir o seu vento frio. Nesse caminho de migalhas, estou colhendo os farelos para te encontrar inteiro. Como espero que os pães que me cercam procurem encontrar sua própria proteína. Subitamente, passei a me afeiçoar a cada corpo vivo, desafiantes da física, nesse vagão. As cabeças podem estar perdidas, mas estão todos com o coração no lugar certo. Apesar de toda a limitação (do) real que redescobri ao ter intenção afetiva com carboidratos, percebi que o mundo era mais que minha casa na rua Campos Sales, 137, Tijuca. Foi um dia bom.

Sérgio Loureiro

Destaque

ode aos instantes breves que perduram

certos momentos e circunstâncias são tão especiais quando vividos de maneira rara e devida, que causam um breve deslocamento espacial temporário. como nesse instante, em que me sento diante da minha antiga mesa de escrever. afundado em palavras rasuradas nas páginas amarelas do caderno, sou levado ao remoto ponto quando estive sentado em uma mureta, e o mundo parecia um plano perfeito nesse caos moderno. sei que sou herdeiro de uma sociedade incapaz de lidar com o desapego, com a ausência, com o sentir o não-sentir. e casa ainda além de ser um jovem brasileiro, de língua portuguesa, a qual resume todo esse devaneio em uma palavreta e nela garante a sua profundeza. jovem egresso da particularidade do território delimitado, zeloso por privacidade que agora sufoca. nessa falsa tendência imposta pela convergência, possibilidades múltiplas fazem presença. de certos gozos gostaria de me reservar. dizem para deixar disso, me atualizar. o disco se virtualiza, e essa lista tem seu cheiro, seu sorriso, e a flor do seu cabelo que jamais desbota, mas aflora em mim um sentimento convictamente brasileiro. e assim, as convicções do mundo e das coisas mais antigas, saíam da tua voz em tons vívidos, tão apaixonantes, tão engajados, como tudo se precisasse de renascer na língua aguda de seus sotaques. assim, ias enfileirando livros, manuscritos, as cartas longas que te escrevi, as várias canções do devir. e dos teus gestos se elucidam mais convicções que tais palavras. ouço teu sono distante numa cidade ainda mais distante. não há controle sobre a vida. mas remoto, sim. eis me aqui, tanto quanto aí. removido fui, do curso que me atraquei. posto e disposto, a gosto feito um encosto – e talvez até fosse, talvez até seja -, brinquei com as convicções, com o sentir, com o viver. você tão certa das verdades que acabara de descobrir, enxergava em algo uma fonte que a ti já transbordava. e na calada, quantas perguntas foram alçadas ao vasto infinito? quantas ecoaram seu estribilho? qual a virtude do virtual? qual o sentido do real? qual a razão entre o bem e o mal? aqui estou. estatelado em mim, estrelado nesta noite sem fim. desesperado para convencer-me que estou – e talvez até esteja, talvez até fosse -, e sendo negado a cada segundo por uma impermanência. permanente. acho que foram suas as palavras que mais disse, como essas. não sei mais onde começo e onde terminas. mas enquanto não chega o dia em que os últimos serão os primeiros, eu me pergunto o que acontece com quem luta pra ficar no meio. em meio à penúria e à penumbra. ao pé do abismo, olhar para baixo é difícil. é olhar para si. para seu próprio pé. e, então, ver o abismo olhar de volta. os meus pés, troquei pelas mãos que agora escrevem tais confusas confissões. e ao passo em que faço o compasso das letras, vou percebendo o árduo labor ao qual atribuí meus calos. é o que ainda nem existe. é o sol em plena noite. é o perjúrio que persiste. o perdão antes da culpa. o ponto fora da curva. desejo que no final de junho o vento cortante traga-me meu sudário para perto do mar, onde os pequenos barcos fazem ondas que chegam em vibrações. e que ondas, vibrantes, ou não, particularmente se conformem em inquietação. e que a saudade, seja só uma palavra perdida no mar de outras tantas portuguesas.

sérgio loureiro

esse registro é meu, somente meu. único e inviolável. como o tempo e a consciência eudemônica presente em seu nome na minha agenda telefônica.

Destaque

notas do outro lado da rua

o não-sentir. que fardo imenso, o de carregar em si o dom de racionalizar. e, então, atribuí-lo ao sentimento. poder, assim, de uma vez por todas, distanciar esse sofrimento que agora me assola. é louvável o nosso desenvolvimento enquanto espécie. mas é fato que de algo se carece, ao que tange à carne humana. durante toda semana é a mesma circunstância: a minha mente padece, a solidão cresce, nada acontece que me tire do movimento retrógrado. retroativo. reticente. parado, todo movimento é bizarro. por que correm os carros? para onde correm as crianças? no que pensa o açougueiro quando corta a carne? no que pensam as crianças, pela janela dos carros, vendo o sangue escorrer pelas mãos? pensam na mulher mais próxima? nos filhos que são? nas flores do mar? no mar de flores? penso que tão cedo não ouvirei o riacho que corria logo abaixo da minha janela. penso no morro, e se muito penso, morro. penso na vista, e para que não muito insista, sejamos breves: continua sendo impactante estar distante do que fui, do que sou, do que serei. orbitante no oco e no inócuo. no inoperante ser negativo do sentir.

eu sou o açougueiro e seu pensar. eu sou o animal abatido e sua carne dilacerada. já não me recordo as palavras. estavam à mercê do sentimentalismo. foram todas trocadas pelo chumbo que agora carrego comigo. precisa-se de pele. precisa-se de sentir.

talvez eu volte. um dia em que eu não esteja tão cansado.

sérgio loureiro

Destaque

porque existem as fronteiras

Perdemos muito tempo em pensar no depois

esta é a confissão de um coração que estava deserto. vagueando cintilante entre meandros e melismas uníssonos que sigilosamente evocaram a alternância dos fatores do acaso. não pude notar eles vindo, mas os fatos invertidos remeteram ao eu lírico o protagonismo antes negado. o “deixa a vida me levar” trouxe ao abismo e um abraço. a vida escapa. agora, abismado, o solitário trovador, cético, põe-se a refletir em pensamento aritmético. o mundo parece distinto. melindroso, dramático, drástico. de repente, pássaros gorjeiam quânticos cânticos românticos. discretos tônicos de deslocamento atômico, quase imperceptíveis, quase inofensivos, mas de efeito sônico dentro do sentimental peito do poeta, que agora margeia o oceano profundo. não são meros prantos em pratos limpos. um alço ao bálsamo, uma porta para o passado, um céu estrelado. a vida escapa. leva e traz, como um caminhoneiro sempre na estrada, quase sempre de madrugada. movido pela pressa, inquieto, coração disparado, mas guiando com cuidado pela via aberta, mãos no volante, olhos no retrovisor, cabeça em torque e o nome dela gravado no para-choque. as paisagens são um horizonte trêmulo aos olhos úmidos, as faixas passam, as placas cortam, tudo fica para trás e nada pela frente parece aparecer. não há espaços para planos. a vida escapa. amanhã já é outro lugar. os planos são mundanos. os amores são reais, fantásticos, divinos. e por assim serem resistem ao traço do destino, às linhas da vida, às interrupções do acaso, ao fim da estrada. mantenha-se inquieto. estamos vivos e isto é tudo.

sérgio loureiro

 

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odisseia baiana

em meio à neblina
no fosco, na rima
tu viesse
devagarinho
me chamando de moço
menino
tão lindo
seu jeito, fascínio
que me jogou no Rio
da Bahia, do norte
que sorte a minha
estar em teu caminho
que sobe –
só sabe quem viu
quem está em tua companhia –
e no meu assovio
eu canto, menina
que bom tua sina
de ser o farol
limpando a neblina
as nuvens acima
de minha cabeça farta
de tanta falta que sobra
diante do armário
que veste as roupas sagradas
do meu Santo Amaro
Cachoeira, recôncavo
pelo amor do amor
em nome de quem for
juro fazer tudo que você quiser
se me deixar ver o sol de manhã
sob teus pés
entre teus braços
refletindo em teus olhos
é fácil a vida ser boa
obrigado!

sérgio loureiro

Destaque

colírio colorido

deixa ver
o que reluz antes do raiar
o que o desgrenhar do meu cabelo aponta
duplas pontas, triplas intenções

perceba
o movimento migratório dos pássaros
o translado torto dos barcos
o transitório desenfreado dos carros

olhe para os lados
uma sutileza cintilante
sua silhueta aconchegante
nem todas as palavras poderiam dizer
o teu cabelo no meu peito

na areia da praia deitei em seu colo
pus-me a amar o mar que não me banha
a língua que me estranha
os malamares e maleditos

era tão simples viver
quando as coisas não continham você
mas eu não me lembro bem
ainda não tinha, para o amor, nascido

eu era sutil até te encontrar
depois, então, exuberância extravagante
notório manifesto público
bandeiras e cartazes

sobe pelo cerne
sobressai  a derme
arrepia a pele
até o dia em que der-me na cabeça
a súbita ideia de ser teu
para todo dia que vier

hoje eu dormi de lente
mal posso ver um palmo
mas estou calmo
pois no colírio dos teus braços
até o escuro é colorido.

sérgio loureiro

Destaque

talvez Drummond me entenda

em mim, agora, tudo falta. você sobra. nesse meu vácuo em que você transborda, abri as janelas e portas para sorte entrar. no meu vaso vazio de terra, tu és a flor de plástico que orna perfeitamente com os meus sentimentos. reais. imortais. recicláveis. deixei a porta aberta e por ela entraram vespas que, em meus ouvidos, zumbem fragmentos de memórias, trechos de histórias em que um narrador ao fundo diz “esses foram os dias mais felizes de sua vida”. e absolutamente todas as músicas que você colocou naquele domingo de sol agora têm seu rosto, seu cheiro, o barulho da sua risada. e eu não tenho a mínima ideia de como resolver essa situação. tampouco tenho interesse em resolvê-la. tirar você de mim é tirar a única parte que, nesse instante, se manifesta. entenda, você é tudo que interessa. necessariamente a razão de tudo: desse canto absurdo, esse grito no escuro, desse indagar vazio, esse meu viver arredio. coitadas das vespas que vagam ao léu em busca do néctar e se deparam com flores de plástico. todo mel fora levado em seus olhos, junto com um punhado de coisas que não tive tempo de entender ou dar nome. coitado do homem que vai atrás de mandinga de amor. coitado do homem que nunca te amou. este, é um infeliz de desafortunado fadário. pois não há cousa mais inevitável, força mais imponderável, do que te amar. ao súbito tocante dos olhos, o destino traçado. nada pode um ser, se não, diante de ti, amar. há mais perigo em teus olhos do que em vinte punhais.  há mais certeza da morte em homens vivendo paixões fatais. e agora que estou lendo nossas conversas, as cartas que nunca recebi, as que nunca assinei, as mensagens que fiz você rir, as que, para isso, chorei, me pergunto: quando foi que virei tão melodramático? cardíaco. enfático. o que é fato, é que o amor só é bom se doer. eu, que sequer tive tempo de conhecer meu Orixá, passei o últimos meses em adoração expectante, amando o inóspito, o áspero, um vaso vazio de terra com uma flor de plástico. e a casa vazia orna com meu peito, com o vazo, com a flor. nesse momento de farelos, retorno ao pó. meu necrológio pendurado no tempo estampa a seção fuzilaria dos jornais. a minha autópsia revela minhas tripas sentimentais. aço frio de um punhal, foi o teu adeus para mim. e as memórias são retratos velhos em retalhos de cetim. mas se queres ir, pois que vá! vá de uma vez por todas. fuja do Brasil, para longe de mim. e não me ouves. pois este é só mais um lamento tardio. se não sou inteiro, sou apenas a metade sua que partiu. e que nosso amor seja como o mar, que supera a calmaria em ânsias de tormentas e que hoje nos separa. diante de seu raso esplendor, contemplo a sua imensidão, me torno perplexo por natureza. me afogo, pois nunca soube te nadar. O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

sérgio loureiro

Destaque

a minha loucura só é entendida quando provada em copo americano

eu tô com tanta saudade que nem sei direito se tenho peito o suficiente para isso. existe um severo ataque ao buraco da minha camada de neurônios e meus pensamentos se tornam cada vez mais escassos. raros exemplares de sinapses perdidas em uma vastidão espacial de nada. uma escuridão absoluta que suspeito ser a razão de minha recente preferência por ambientes escuros. sou uma galáxia carente de vida em pontos brilhantes. às vezes acho que o céu é um teto de quarto apagado e o tempo anda devagar quando sonho acordado. cada passo demanda uma força colossal para romper a gravidade que não me leva e nem me tira de você. daqui é diferente, olhar o mundo e ver o que ainda existe. e quem vê de longe acha lindo meu balé flutuante rumo à ociosidade infinita eterna do espaço. eu não sei para onde vou daqui. estaria mentindo se dissesse que tenho um plano – depois de tudo que fiz ter dado errado. mas eu juro que vou, além das emoções. guiado pela lua, a qual eu canto enquanto conto os dias da semana – assim, distante lá fora, ela brilha, como seus olhos perto de mim um dia reluziram. eu me perdi no mel das tuas retinas e fiz do desoriente a minha rotina. eu escrevo teu nome implícito em linhas que nem existem. você se esconde em palavras, as quais eu já não tenho. são pensamentos fugazes, fúlgidos, fugitivos. nada fica em minha cabeça quando estou contigo. às vezes sinto que quando ando com tuas mãos entrelaçadas o mundo está parado. disfarço a saudade e nem lembro porquê. esqueço quase tudo: listas, agendas, telefones. você, não. esquecer você é impossível, porque eu gosto é da fantasia. seu gosto é fantástica fantasia. é assim a cada oito anos. em tempos de terra plana, eu sou o testemunho astrológico do ciclo da vida: um fenômeno raro de natureza cosmológica habita em mim. e lá se vai mais uma semana, e eu tentando lembrar quando me dei perdido. trafegando em sua órbita, como um satélite atraído por algo que não consegue ver. tentando fugir, tentando te tocar. preso ao meio termo. hoje eu preciso de terapia, uma cartomante, cortar o cabelo, virar vegano. e seguir em frente, rir de mim pra não chorar.

sérgio loureiro

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as réguas do desejo

declarar-me-ei a ti. sob o véu que encobre o certo e o perigo. a manta, que nos ombros dos homens, os torna meninos. no meu detalhar perfeito indutivo, que teu olhar, intuitivo, capta, no jeito, sentido. montado em minhas palavras, cruzarei as encruzilhadas da gramática, os desafios da semântica, para ser mais do que errático romântico: exótico, exato, preciso. conciso em minhas terminações radicais, precavido em minhas orações quase diretas. não mais. enfrentarei os monstros do apagar, a borracha da memória, para nunca esquecer de nossas primeiras estórias. foram os teus dentes, sorriso, acompanhados das tuas pálpebras fechadas, pétalas índigo. castigo. era mais que um pedido, um mendigo. perdido, tal fosse o meu destino, suplicando por teu abrigo, estava errado desde o princípio. era mais fácil enfrentar as lanças dos fariseus e a fúria dos soldados de roma ferindo-me sobre a cabeça de espinhos do que dotar-te. seria mais leve carregar as cruzes do desamar, do que desafiar o sentido do sentimento, pô-lo em métrica, rítmica e poesia. mas quem não o faria, depois de tamanho testamento? agora crucificado, pregos nos pés, pregos nas mãos, rogo por ti. filho de quem sou, desta Mãe Língua Portuguesa, tão rica de terra e tão carente de manejo, invoco a tua clemência. nessa súplica severina, o meu cordel é minha sina. o teu destino é meu desatino: te caçar uma rima. logo tu, menina, matéria prima nordestina, acaso de ser uma figura divina que em teu nome já ensina: não há nada mais encima. não há nada nesse meu vaguejar entre as veredas da linguística, ao grande sertão do palavrear, que possa, minimamente, me expressar. por ser tão, em tão pouco, me faz admirar. por ser de lá, dói em mim um sol maior. sol que sopra e assobia. secura de quase tudo, menos de saliva. desculpe o estribilho, quase não tenho amigo, quase não consigo. solitário, fui transeunte vagante pelo navegar, pois esse é mais que o viver. vi, ouvi e provei que coisa mais difícil não há, do que dizer tais palavras à você. pois assim, letra por letra seguido, estarei sempre comedido. com medidas precisas de uma régua invisível. traçando no infinito o ponto definitivo. o acento circunflexo. é grave a crase. mas resiste o que existe. e ainda há em mim desejo pelo ensejo do beijo derradeiro. vem ser meu canto, meu verso, meu soneto. vem ser poema no árido deserto, vem ver de perto o que te vejo. pois essa é uma carta de amor que não acaba e não tem fim. como teu sorriso, que se foi, mas ainda está em mim.
sérgio loureiro
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sobre vírgulas

você me disse, certa feita, que tudo é real e que as coisas pertencem a si. jamais ao “se”. elas são. instantes categóricos onde o aqui e agora se faz presente. onde se escreve o fio da vida em uma linha tão direta quanto paralela que corre pela avenida do destino com pressa pois sabe o que se encontra na linha do horizonte em seu infinito particular e já não há mais tempo sequer para respirar afinal de contas vírgulas para quê? não lembro para onde estou indo, ou voltando. de certo que me perdi nesse encontro (e existe uma sutileza despretensiosa nesses encontros de rostos desconhecidos perambulantes nas ruas de um cotidiano que não me pertence mais). estamos na vírgula da vida. entre o porvir e o devir. o entre atos, o momento oportuno. que grande peso, o de ter o pulso do tempo em mãos. apenas o teu sorriso – aquele, tão espontâneo quanto arrebatador, de vida própria e certezas profundas – tornou leve o instante em que agora escorre a areia da ampulheta por meus dedos. e de mãos abanando eu te vi se aproximar, flores nos olhos e o sol no peito. teus adornos ganhavam jeito, os teus contornos (divinos!) e tua presença era um fenômeno tão perfeito quanto a água, a noite e o paraíso. e eu era um menino com medo do escuro, apaixonado pela lua. tenho-me questionado: quanto é preciso saber – ou, principalmente, não saber! – de alguém para se apaixonar? não depende de nós. nós, inclusive, somos os laços desatinados, desatados por natureza, em encontro casual e perene. não importa de onde veio, ou para onde vais. apenas onde te faço companhia em seu caminhar. no seu instante: a minha vírgula preferida. precisa-se de pele. precisa-se de sentir. menos de dúvidas. as minhas estavam à venda. à vista. mas foram larapiadas pela certeza súbita que agora me assola. em meio à toda incerteza e ao desconhecido, você era. simples e real. uma deusa-mulher que me dilacera. uma miscelânea celestial reunindo tudo de lindo que a meus ouvidos já foram visitados. era também a saudade, o testemunho, a alteridade. a lembrança de uma cidade, cuja energia é única e astral. cósmica e cosmopolita. ô terra, que me tem e de quem me levaram distante. ô terra por quem estou apaixonado por uma menina também terra, signo de elemento terra, para os meus pés, firmeza, para as minhas mãos, carícia. e sem sequer saber se aqui ou lá (mas certo que com você estava em qualquer lugar), me foi tirado também o suspiro. o último suspirar, pois não há mais tempo, não há mais pausas, não há mais vírgulas. as vírgulas são. tudo é real,

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de Selma, lobo e Rousseau, todxs temos um pouco

eu tive um sonho. estava em uma dessa feiras livres. comia um delicioso sanduíche vegano. com ele em mãos, passeava pelas barracas, tranquilamente. quando chego no limite entre a feira e a vida, me deparo com o caos. olho para trás, novamente vendo a feira. existe ordem naquela bagunça. mais que isso. existe harmonia. e paz. e indiferença diante da morte da vida. mas eu preciso viver a vida, preciso voltar para casa. então, vejo dois meninos comprando um pastel extremamente oleoso com um velho de bigode. recheio de bicho morto. a morte me circunda. mas sob o seu teto de lona, me sinto protegido. o velho, muito amigável, percebe a minha presença e prontamente me atende. “o que vai querer, amigo?”. o que eu quero? financiar a morte ou morrer de graça? antes que eu consiga manifestar qualquer esboço de reação, somos interrompidos pelo espírito jovem do filho do velho. se prontificando a ajudá-lo. ele assume a hereditariedade da carnificina. vejo nos seus olhos o orgulho de sua ancestralidade. vejo também a inconsciência normalizada de seus atos. me aproveito de sua juventude. coço o bolso e retiro duas moedas de cinquenta centavos. quando ele estica seus dedos para mim, erguendo as sobrancelhas no mesmo gestual do “posso ajudar?” do seu pai, já vou lhe dando o par de níquéis. ele nem conta. nem se questiona. eu sim. “é dois, né?”. ele balança a cabeça positivamente. ludibriei a morte ao mesmo tempo em que me enganei dizendo ter saído de mãos limpas. me ponho novamente diante da vida. e como uma forte chuva, ela já chegou àquele ponto em que a gente se envolve em um diálogo interno. “acho que já dá para ir”. vou. tento me esquecer do velho e do jovem. do pastel gorduroso. das mãos oleosas dos meninos. já perto de casa, o bar da esquina está lotado. do lado de fora, uma velha churrasqueira chia com o seu vagaroso apagar. a brasa queima. a água esfria. ela enferruja aos poucos os seus princípios. caminha na direção certa para o seu fim. dentro do bar, ainda se bebem e comem. um canibalismo cultural. diversos exemplares de uma espécie estranha. peluda. rude. primitiva. fazem sons grotescos com a boca a cada líquido ingerido. copulam com seus próprios egos. exalam o cheiro da morte de suas mulheres. apresso o passo. de repente, ouço um curioso diálogo. “você tem certeza que é seguro?”. “COE, COT, CORE, GPI, RONDESP, BOPE… é tudo nosso”. “mas você acha isso…certo?”. “e vou achar errado, porra?”. “eu me referia à certeza”. “é sim, é sim”. os próximos passos foram acompanhados de uma escuridão fetal. me sentia no útero materno da natureza humana. pequeno e indefeso, mas envolto em uma proteção que não sabia de fato o que era, ou se realmente existia, mas não custava nada acreditar e era tudo o que eu tinha. eu sou um feto, porra! os acontecimentos seguintes eram fruídos em sombras. nada era tão real quanto aquele diálogo. me lembrei instantaneamente de Hobbes. aquela alcateia de homens comungando vísceras do destino. eram seus próprios lobos. vorazes. canibais. mas estavam certos. nunca existiu a paz. o que sempre houve foi uma ideia de busca por ela. não necessariamente a busca, propriamente dita. a falsa sensação de segurança é o suficiente. para quem? a certeza posta em contratos sociais: suborno. a liderança forte e centralizadora do alfa.  Hobbes dizia que o excesso de opiniões divergentes atrapalharia a sociedade, pois sempre haveria quem tentasse provocar conflitos para tomar o poder para si. depois me veio Rousseau. nascemos realmente bons? se já nascemos em guerra, como isso seria possível? ninguém nasce com as mãos limpas e vai sujando-as com a vivência. aquele diálogo, a churrasqueira, o pastel gorduroso, o velho e o jovem, as mãos oleosas dos meninos… nascemos com as mãos sujas, oleosas, ensanguentadas, gordurosas, e limpá-las pelo caminho é o caminho. mas isso não se vende na feira.

sérgio loureiro

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além da chuva

foi você quem disse, às doze e meia da tarde, que o amor verdadeiro reside nos pequenos detalhes. as suas mãos, se esfregando na barra da saia de tricô que sua mãe fizera, enxugavam o labor matriarcal do desjejum vespertino. as suas pálpebras, levemente avolumadas, ressaltavam a fadiga maternal que despertara seu sono, matinalmente às cinco para seis. o desgrenhar do seu cabelo evidenciava os estresses femininos, antes hormonalmente explicados. os seus lábios tremiam no gaguejar de sua imposição. seus olhos miravam a ancestralidade de sua fala. a tua pele reluzia a dor. o teu seio, farto de dolor. o teu dedo enrustido apontava os nossos dejetos. os defeitos, os jeitos maledicentes. mal feitos. haviam tantos detalhes – e já não eram pequenos entre a gente -, que a sua frase não fazia mais sentido. o amor verdadeiro reside na comunhão. no comum não a tudo. no comum sim. na unção do meu com o teu. no entender de onde viestes e para onde vais. e qual meu lugar em teu caminho. chore. mas chore como um dia chuvoso. escreva uma carta: de uma mulher para um homem. lembre-se do que esses braços já seguraram. e os faça de asas. em um dia chuvoso. onde pássaros ficam em casa. se dê a chance de ser: além da chuva.

sérgio loureiro

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carta branca

e então eu estava bêbado. e o gim no copo combinava com o seu vestido. a ambos eu queria dar um fim. e então, no fundo da sala, B.B. King começa a tocar. aquela música dedicada à sua guitarra. uma guitarra. e o que eu já fiz por você? digo, o gim ainda está no copo e você desfila graciosamente com seu vestido azul cristal. se você fosse um pouco mais bonita, seria fatal. e morrer seria normal. mas isso tem que acabar. você pode me manter em suas mãos, pois assim é mais fácil me provocar. mas olhe ao redor. o fim ainda está no copo. e o gim está próximo. e não adianta de orgulho se trajar. cristais não vão durar às doze badaladas. diga-me se você quer que eu minta. mas a canção continua a tocar. eu poderia fazer tudo por você. mas não é o copo que você tem em mãos. talvez eu volte para casa sozinho. mas eu também tenho a minha guitarra. às vezes acho que ela chora quando a toco. mas são os seus lamentos, não a sufoco. isso tem que acabar. mais uma, Lucille! porque ainda tem gim no copo. e você pode dançar.

sérgio loureiro

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uma senhora terra

eu precisei cruzar os limites do desconhecido e chegar ao fim do mundo para ver que a ti sempre pertenci. nenhum chão apalpou meus pés como suas terras tenras e férteis abraçaram meus passos. terras antigas cujos pés ancestrais fundaram minha atual compreensão de existência e desígnio. quis querer, quis ser, quando já tinha o que se era necessário para ser. cresci os galhos para onde não devia e sentir me consumiria. e por vir de lá ainda sementino, piso nesse chão devagarinho. meus pés, aqui, têm a súbita certeza de saberem o caminho. caminho no qual ergo o olhar ao redor e contemplo sua forma de se afirmar uma senhora de costumes sempre modernos e impor respeito ao progressismo renitente. jamais ostracismo, mas arredia em seus arredores resplandecidos pelos sagrados mares africanos. ninguém se conhece tanto. abençoada por todos os santos, banhada por todos os cantos. suas raízes me foram a força emanando coragem durante toda a viagem. goza de profunda loucura desvairada, aquela que não é orgulho nenhum admitir – pois até mesmo essas existem e são deleites em mesas de bares -, aquele que ao olhar para ti não se viu. sou tu antes mesmo de ser eu. tudo, tudo, em ti faz a gente querer bem. a bahia tem um jeito.

sérgio loureiro

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tricô de laços eternos

Ainda que possa, enfim, ser minha
ainda assim, toda todinha
sendo bala na agulha, agulha na linha
letra na mão, pele clarinha
mãos que costuram nosso destino concreto
tricô de laços eternos
em teu manejo, nem mesmo o futuro é totalmente incerto
e toda profecia é auto cumprida
chamei a ti de vida
me pus diante da morte
fiz de ti a minha sorte
chamaste a mim, então, menino
e ainda assim, deste-me o destino
impôs uma clareza fria que não assustava
mas tampouco me consolava
e numa noite arredia serena
amarraste-me à minha vida pequena
me fizeste de verbo e eu, sujeito sem jeito
no reflexo do pretérito perfeito
vi o porvir
virá, ainda assim, no vento
tempo, tempo, tempo.

Sérgio Loureiro

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Processo obstétrico

A dor ardia adulando o peito determinante à procura do dolo. A culpa cristã, catequizada em candelárias de cristais quebrados, não contemplava o consolo. Nada se cria. A criatividade é posta à prova. A poesia, sempre subserviente, é alçada à sua única sobrevivência. Reverberar as vértebras do intestino, regurgitando verbos, pronomes e palavras perdidas em vazão arterial. Pulsam proliferações prolixas. Bate! Bate! Apanha. Ferimentos que fedem mas já não mais sangram.

Assim, sofria a pobre poesia. Escorada à calçada, prostrada em desgraça. Sempre à postos do acaso, próxima demais de mais uma porta fechada. Sem fé, sem rei, sem leiSem amor em demasia. Apenas ninharias niqueladas arremessadas em seu chapéu. Sem olhos, sem sorrisos. Sem bom-dias. Nem mesmo sob o véu. Rosto? Apenas metalizado, de algum imperador romano.

Seu entulho entalado nos dedos lapidava o espólio de sua sanidade mental vigorosamente larapiada pela tesoura do destino. Tesoura que rasga as sedas do desejo e do viver. Corta as entranhas dos sonhos inócuos. Ceifa os risonhos. Extirpa o amanhecer a ferro, fogo e carne viva e o faz viver em constante escura solidão. Uma prisão particular, a mais cruel. Tesoura incapaz de evitar o tesouro parido.

Do nada, se cria. Do ventre, o véu se dissipa. Celebra, povo, a vida! Nascimento eldorado de mais um destino fadado. Alegria, alegria! Bate! Bate um novo coração que sangra. A retumbante tristeza afundada em cacos, afogadas em trapos, testemunhava sua redenção.  Mais uma poesia que é escrita. Jamais será lida.

Sérgio Loureiro

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A estapafúrdia história de Afrânio Demério, o ‘homem-bomba’ brasileiro

“TIC TAC… TIC TAC… TIC TAC…”

Breitling, o relógio de pulso perdido

A vida de Afrânio Demério não era lá um mar de aventuras. Sujeito pacato, ligeiramente enfadonho demais, vivia sua rotina insossa e débil com extremo afinco. Para ser franco, a essa altura da vida já odiava aventuras e o balanço do mar lhe causava graves enjoos. Suspeitava que o ápice dos seus dias havia fincado moradia às seis e quarenta e cinco da manhã – momento em que, após o habitual desjejum à base de cereais e duas torradas com geleia de cebola, desembaraçava, meticulosamente, os pelos do simétrico bigode. Havia nele um temor de que jamais restabelecesse outro ápice, e a total ausência de sinais de mudança legitimava todo temor.

Aos quarenta e dois anos, tudo se encaminhava para que a sua existência não fosse uma das emocionantes histórias dos livros que costumava ler na juventude. Na sua escala de preocupações (atualizada semanalmente no quadro branco e depois passada para as tabelas do Excel e depois impressa e depois finalmente colada ao lado do mesmo quadro branco), esta ocupava a terceira colocação, atrás apenas do momento “ápice do dia”e dos boatos de um prematuro fim de seu seriado médico dinamarquês. No entanto, eis-me aqui contando a sua história e eis-te aqui, lendo-a.

Neste momento, amigo leitor, você deve estar se perguntando a razão disso tudo. Ou estou enganado e seus questionamentos giram em torno da sua mísera existência, ou “a que ponto chegamos?”, ou mesmo “será que pegamos o ônibus certo?”. E se o pegamos, quem está dirigindo? Somos, então, meros passageiros de nosso destino, literal e figurativamente? Ainda por cima, pagamos o abuso de quatro tostões e alguns trocados para sermos levados ao confins da existência? Pior! Passará, essa imaginária condução pública, pela Av. Brasil em pleno horário do rush? Como um dos insignificantes seres viventes deste planeta, marionete dos astros, também não possuo respostas para estes desesperos coletivos. Mas olhe para mim agora, trazendo-vos a razão disso tudo.

Acontece, caro leitor, que nosso parco protagonista sofre de uma anomalia fisiológica extremamente rara, que medicina nenhuma conseguiu desvendar – e neste momento torna-se importante ressaltar que agendamento de consultas é um dos hobbies favoritos de Afrânio, o fazendo, inclusive, mandar seguidas cartas para o Comitê Olímpico Internacional dos Tabeliães, sugerindo a criação de tal modalidade nos próximos  Jogos, em Chisinau, capital da Moldávia. Nota: outros passatempos de Afrânio são: xadrez, sua coleção de figurinhas de famílias reais ao longo da história e o arquivamento alfabético de processos jurídicos.

A tal anomalia surgiu por volta de sete meses atrás e é de complexo entendimento e explicação. Afrânio possui, digamos… um coração metafórico-literal (por mais contraditório que isso aparente ser). Em um belo dia (apenas força de expressão, era um daqueles dias horríveis em que você deseja nunca ter saído da cama e até a companhia de sua tia chata, cuspindo no seu pedaço de bolo enquanto encontra simbolismo bíblico para sua maledicência,  é mais aprazível), durante sua caminhada matinal ao trabalho, Afrânio ouviu alguém dizer que corria contra o tempo. Acontece que, por incrível coincidência, neste exato momento havia um lindo balé astrológico, no qual Júpiter e Saturno se alinhavam com Canopus, a segunda estrela mais reluzente da galáxia – feito que ficou conhecido nas assembleias entre os mais brilhantes astrônomos e pessoas que falam de signos ordinariamente com qualquer estranho, como Plié das Estrelas.

Dessa forma, desde o acontecido, o coração de Afrânio passara a bater, literalmente, como um relógio, o tornando inimigo deste que tem como alcunha “o senhor do destino”. Para aqueles que ainda estão aqui e não se impressionam, ou mesmo veem como dádiva divina tal estrondoso fenômeno, permitam-me deixar claro: dentro do peito do pobre homem batia, incessantemente, um relógio velho de madeira. Tic tacs exasperadores no lugar de românticos tum tuns. E assim, Afrânio, o homem que não hesita em submeter-se, se tornou o primeiro homem-bomba de Piracicaba. O que certamente, por sua vez, também o fez celebridade na “Terra da Pamonha”.

Apossado desta metáfora tão trivial em seu músculo cardiovascular, Afrânio decidiu fazer o que todo homem de brio faria: programou o despertador em seu coração para tocar pontualmente às seis da manhã. Deu inúmeras funções e utilidades à sua patologia: cronometrava seu banho de sete minutos, ajustava o timer para os exatos noventa segundos que deixam as torradas crocantes, porém levemente molhadas, marcava passo a passo o seu caminho até o tabelionato. Não era de todo ruim.

Mas era uma desgraça! Aquele tique em seu peito ditando seu ritmo. Acordar sabendo, não só ideologicamente, como literalmente na pele, que a sua existência escorre como uma areia nesta enorme ampulheta chamada vida. E ver que a vida está por um fio, e que este fio dissipa-se inevitavelmente, perenemente, imparavelmente e eternamente. Mais e mais, meu Deus! E que, ao mesmo tempo (trocadilho), relatórios precisam ser entregues, faxes precisam ser mandados, arquivos precisam ser organizados alfabeticamente,  o mercado do mês precisa ser feito, a roupa precisa ser estendida… Muitas satisfações a dar, poucas a receber. Mas mesmo estas se tornam um fardo. E tudo que se ocupa em sua cabeça é “Oh, céus! Estou tentando provar o quê e à quem, mesmo?”. E agora mais essa, Afrânio: precisa atualizar o quadro de preocupações.

Afrânio era uma bomba-relógio, ready to explode (diria, se ao menos tivesse tempo para ouvir o Queen). Como somos e estamos todos nós – só que de uma maneira metafórica e muito mais segura. O passar do tempo, tão mais vivido por ele que, literalmente, marcava os segundos, era desesperador. Já não mais trabalhava. Não se alimentava de torradas crocantes mas levemente molhadas, e substituíra a geleia de cebola pela margarina. Seus banhos duravam horas. Metaforicamente. Nem mesmo o quadro era atualizado ou arquivos quaisquer eram organizados alfabeticamente. O homem, sentado na janela do ônibus, admirava a paisagem caótica de sua vida, sem se preocupar em que ponto chegamos ou com o troco da passagem. Esse era o destino de quem conhecia o condutor da viação vida: o tempo.

Em uma literal e não-metafórica viagem de ônibus em direção ao Rei da Pamonha, no centro de Piracicaba, Afrânio teve um daqueles pensamentos que, assim que nasce, deve imediatamente ser minado, expelido, jogado em uma sala de quinta série cheia de meninos espinhentos e posto diante de toda humilhação infantil que apenas exemplares masculinos da espécie humana conseguem reproduzir com maestria por toda a vida (para azar do mundo). Afrânio decidira assumir a rédea de sua própria vida. Desafiando sua patologia com um rascunho de discurso que dizia basicamente “se sou metafórico-literal, por quê não viver literalmente todas as saborosas metáforas da vida?”. Por isso, dirigia-se decididamente ao Rei da Pamonha para saber se “em terra de cego, quem tem olho é rei”. Tenho quase certeza que Afrânio não entendia de metáforas, ou ao menos sabia diferenciá-las de trocadilhos.

Mas vivendo literalmente o sentido de que, no meio da ignorância, quem sabe pouco, domina, Afrânio caminhava tictacmente ao seu destino, quando subitamente seu alarme disparou, assustando uma senhora que também sofria de problemas cardiácos e caiu dura ao chão, sendo imediatamente socorrida por um rapaz jovem, loiro, de bigode  simetricamente também loiro, trajando uma linda camisa quadriculada por dentro da calça jeans e um casaco de couro com o rosto e a assinatura de Garry Kasparov – o maior enxadrista de todos os tempos (trocadilho). Em suas mãos, as pastas organizadas pelas ordem de cores do arco-íris se espatifaram pela calçada, criando o caos estético para ambos. Sem pestanejar, Afrânio coletou e reorganizou-as, devolvendo-as para o seu proprietário, que prontamente disse, com uma voz garbosa e um olhar meigo e ligeiramente vesgo: “tak”.

Por um instante, o coração de Afrânio parou (metaforicamente), como um relógio velho em que os ponteiros são por demasia desobedientes. A conjunção de fatores em um só homem era demais para seu pobre relógio. Estava desarmado.  Não sentia mais o risco de explodir. Os dois se levantaram paulatinamente. Testemunhas podiam jurar que no fundo tocava Lionel Richie, mas era demais acreditar em tamanha pieguice. Segurando as mãos, via pastas, eles se entreolharam. Foi então que Afrânio proferiu as palavras que o Tempo, até hoje, afirma serem as mais linda que um passageiro pode dizer ao motorista quando ignora o aviso em letras garrafais de “fale apenas o necessário”.

– Kærlighed er den bedste af sygdomme.*

Pouco se sabe o que foi dito, apenas que Afrânio aprendera tal sentença assistindo seu seriado médico dinamarquês.

Hoje, Afrânio mora em Copenhague. Casado com Sven, ele cuida da relojoaria da família do marido, onde prova que “em casa de ferreiro, espeto é de pau”. Seguindo sua rotina, toda terça-feira pratica yoga e costuma fazer a posição sirsasana, em que fica com a cabeça para baixo, girando a areia de sua ampulheta e lhe garantindo não a eternidade, mas segundos extra de esplendor. Além do mais, descobriram que a doença é contagiosa e agora Sven tem um cérebro de elefante (o que o tornou o ser humano mais inteligente da atualidade, porém reduziu seu paladar a folhas de árvores, ervas, raízes, frutos e, especialmente, gramas do jardim do vizinho).

* O amor é a melhor das doenças

Sérgio Loureiro

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Alberto tem algo importante a dizer

Eu tenho para mim que a vida não passa de uma eterna estação de trem. Vazia, solitária, inspirando ansiedades e saudades. A gente nunca sabe ao certo se devemos entrar no trem. Até entrarmos. E descermos em uma nova estação. Vazia, solitária, completamente diferente da outra, mas… tão idênticas. A graça talvez esteja na viagem. No olhar a paisagem passando rápido. Nos esforçarmos, em vão, para olhar a vegetação, o trilho que vem e já foi. A gente é passageiro. Nem mesmo maquinista da nossa própria embarcação. Sem direito a comes e bebes. No vagão popular, sonhando em um dia estar no vagão deluxe. A troco de quê? Estamos sempre tentando provar algo a alguém.

Num desses vagões, dei de parar nessa estação. Os morros daqui são iguais ao do cartão postal que agora tiro do bolso do meu casaco. Talvez eu tenha chegado aonde sempre quis estar. Uma completa idealização burguesa, sem fundo racional, sem explicação lógica, sem juízo, nem valores. Dei de parar aqui, onde sempre quis estar. E não nego, é tudo diferente. Exceto pelo vazio e pela solidão. Pela euforia e pela saudade que me acometem. Mas agora que o postal é apenas um pedaço de papel e me ponho diante do real, inevitavelmente me pergunto: a troco de quê estou aqui? Estou tentando provar o quê à quem, mesmo?

Não sei, sabe… É que lá eu já conhecia, já era conhecido. Naquela estação todos me cumprimentavam. Falavam o meu dialeto, me entendiam. Nem riam de mim, porque assim teriam que rir de si. E riam, se preciso fosse. E se não fosse, riam também. Ô povinho alegre. Era vazio, mas tão cheio de gente. Tão cheio de mim. Aqui, nessa solidão, me esbarro em correrias, em xises chiados, em gritaria gratuita.

Não estou querendo dizer que vou pegar o trem de volta. Mas quero dizer que sair foi o pior erro que já cometi. E nada no mundo, nem mesmo a melhor paisagem, há de apagar ou compensar esse erro. Mas saí. E nunca saí. Vou carregar o peso de uma terra e seu povo por todas as estações que der de parar. Vou andar curvado, cabisbaixo. Vão esbarrar em mim. Vou olhar os cartões postais no bolso. Vou desejar parar de desejar. Esse negócio não é para mim.

Sérgio Loureiro

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F*da-se: a arte de ligar a sutileza

– Você precisa acreditar mais em seu potencial; recomendava a tia autointitulada terapeuta que um dia sonhara ser juíza federal.

– Nunca desista dos seus sonhos; disse o guru da zona sul que tinha insônia pelo uso exagerado de entorpecentes ilícitos.

– Você é dono do seu próprio destino; disse o filho do empresário, recusando o currículo.

– A vida é uma só! Temos que viver intensamente cada segundo e agradecer; aconselhava a motorista ao seu filho, enquanto justificava seu atraso ao engarrafamento, pelo telefone.

– Todos os seres vivos merecem ser amados; disse o influenciador aos seus seguidores, em uma churrascaria.

– Os problemas são oportunidades para se mostrar o que sabe; afirmava uma pichação na parede de uma penitenciária.

– Você está evoluindo, acredite em si mesma! Apesar dos dias parecerem uma tempestade sem fim, você é forte. Você conseguirá!; cantava o vocalista que se suicidou de overdose.

– O que você chama de fim, pode ser um novo começo; anunciava um outdoor de funerária.

– Não fique olhando o relógio, faça como ele: mexa-se; proclamava o Presidente da República.

– Palavras têm poder; disse o escritor de blog com três visualizações semanais.

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manifesto presidencial #2

Dia desses, tive uma visão. Podia ver populares aglutinados esbravejando palavras que, daqui, não pude compreender. Suados, amontoados, abarrotados, sujos. Da sacada, mais parecia uma marola vermelha. Vermelha, como a onda de pânico que pintamos às ruas; mas distante da grandeza de nosso sangrio mar. Não obstante à calamitosa situação, convoquei, novamente às pressas, os executores oficiais a fim de resolver esta questão.

Para pôr fim à balbúrdia, segui os conselhos do Bobo. Cortem tudo! Cortem as bolsas! As amnióticas, os embriões prodígios! Ceifem os caules, os troncos, as copas. Tirem o mal pela raiz! Um corte seco e certeiro, como de uma foice. Não, foice nunca! Balbuciei. Um lapso, equívoco. Isso nunca existiu. Onde vocês viram? Não se pode acreditar mais em tudo.

Voltemos ao que interessa, a cissura. Por toda parte, dizem que é abusivo, ilegal. Ora, quem nunca podou uns galhos podres não entende nada de vernissage. Jardinagem! Esse negócio de ecologia nunca foi a minha, prefiro a pecuária. Adoro um gado.

Esse barulho todo perto do Palácio não me incomoda, mas é chato. Meu sono já não está lá muita coisa. Parece que eu carrego 39 kg em minhas costas. Amanhã mesmo vou baixar um decreto contra alguma coisa aí que tire essa gente que não me deixa em paz. Talvez um muro. Me parece original.

Sérgio Loureiro

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Luz com ch

E se, vez ou outra, eu duvidar? Do cosmos, dos nexos, dos códigos, dos céticos. Duvidar de Deus e tudo mais. Vão dizer “que loucura, esse ser em cheque”. Em tempos que ninguém mais aceita, eu sigo sendo, à sensação do sentir e não mais sentir. Ser? Não ser? De que me importa, se negando me afirmo e assumindo, sou, de qualquer forma, até tentando evitá-la?

Vou duvidar de tudo, menos de ti. Dessa retumbante força espontânea que tu emana e desperta em mim. Dessa loucura, que é incontestável. Está aqui e reverbera em cada vértebra. Ecoa, assovia, partilha e penetra meu âmago infinito. Raso, de tão infinito. Tu foste a luz que me fez enxergar meus olhos. Foste o escuro quando tudo doía. Sabias exatamente o que ser, sem duvidar ou mesmo temer.

Esse encontro, esse acaso. Prefiro chamá-lo de poesia, do que de coincidência. Essa não. Insustentável aos meus questionamentos. Já a poesia que se escreve em nossas entrelinhas, essa sim permanece perene ao caudaloso rio da vida.

É tu, sou eu, somos nós. E se “existe alguém em nós, em muito, dentre nós, esse alguém brilha mais do que milhões de sóis. E a escuridão conhece também”.

Sérgio Loureiro

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Coração sertanejo

Acalma-te, coração! Para quê essa pressa de viver-sentir aquilo que já se tornou inevitável, sujeito abestado? Viva a constância dos teus sentimentos como um ponteiro de relógio. Aprenda com o tempo, coração! Seja intenso, mas seja eterno. Seja sereno e essa neblina que te rodeia será, também, você.

Vai arrudiar noites de deserto, mas sempre chega o mar, coração. Vistoso, grande, imponente. E tu, sertanejo, há de entrar, visse? Sem perreio, nem estripulia. Dane-se que tu não sabe nadar, que nunca viu pedaço de água tão grande. Vai entrar, sim! E, sem arregar, vai se afogar.

Coragem, coração! Oxente, home, n’era isso que tu queria? Pois viva, cabra. Sinta as trinta e sete borboletas que acasularam-se em suas cavernas e cavidades. As dê nome. Voa com elas, sem medo de cair. Sobe nesse vulcão e se derrete todo. Seja lava e ventania. Não bata, mas apanhe com maestria.

Tu não é jagunço, home? Pois pegue em armas! Atire para todos os lados em legítima defesa de acertar outro coração vazio e preenchê-lo com as mais belas de vossas intenções.

Perdoe-se, coração! É assim mesmo, a gente aprende errando. Pior seria não ter se entregado e vivido aquilo que tu achou que era – e se fosse, seria porreta. Quem perde são eles, coração, de não querer o tanto que tu quis dar.

Levanta essa cabeça, coração. E não leva tuas dores pra próxima vez. Seja eterno aprendiz, pois nenhuma experiência humana o faria pronto para o que está diante de ti. Sim, bicho! Levanta essa cabeça e dá uma olhada nisso aqui.

Palpita, coração! É tudo de novo, sô! É estardalhaço, é euforia. Calor e frio, vira e mexe dá nisso. Sacode, se joga! É carnaval em pleno meio junino. Anarriê! Oxalá! Voltou tudo para o seu lugar.

O sertão foi ao mar! E diante da inevitabilidade deste encontro – que chamo mais de poesia do que de coincidência e que até o destino aguardou -, creio que estaremos usufruindo dos deleites divinos do amar. Haja mar!

Corre, coração! Convoca a tua artilharia, reúne teu exército nos campos de batalha. E proclama sua resistência pacífica. Se entrega. Litoralmente falando. Tu saiu do árido sertão da dor e da culpa para cair em mares de ternura. Chega dessa vida cigana, home. Estende a sua rede, coração. Aqui, vamos ficar.

Sérgio Loureiro

Destaque

lições

O eterno retorno do mesmo. Quero dizer tudo de novo. Falar muito mais do que sou capaz de falar. Com muita vivacidade. Com a tenra ternura de ter a terra novamente nos meus pés descalços. Reconhecendo as pedras e o caminho. Quero viver tudo de novo. Viver, reviver, reaver, reverberar. Rever a relva densa de pastos que me nutriram. Quero fazer tudo de novo. Fazer mais do que sou capaz de fazer. Fazer no afã, no afogar, na farra, no fruir. Tenho as ferramentas mas não tenho a matéria-prima. Quero sentir tudo de novo. Sentir nem em demasia e nem em economia. Não viver uma vida na ponta do lápis, nem ser comedido em me racionar e racionalizar. Ser Bahia, ser baiano. Ser normal, ser estranho. Ser carne, ser alma. Ser o oposto contraditório conivente com a concordância universal do ser. Ou não. Eis a questão. E ser de novo. Não sendo novamente. O eterno retorno do mesmo. Como são todas as coisas.

Ser Sérgio Loureiro