Essa é a história de Flora. Uma garota, que antes mesmo de ser garota, era um projeto – como você e eu, mas não exatamente todos nós. Planejada na mais bela das intenções, teve seu destino escolhido e acolhido como se fosse realmente seu. Nome batizado a dedo, escrito no enxoval oito meses antes do primeiro beijo. Envolta no berço de zelo e proteção que a apresentara ao amor e à compaixão, acreditou no perfeito. Criou e foi criada na casa, e coragem para quê? Sabia exatamente onde ir pelas migalhas que ouvira falar. Não te preocupavam os labirintos, os labores e as lábias malditas, desde que houvesse e ouvisse os cantos do rio. Ornava perfeitamente com os adornos encontrados pelo caminho. Adorava seus cachorros, mas de borboletas tinha um temor umbilical que lhe levava ao definho.
Preferia acreditar na dureza da vida e nas pedras da estrada, mesmo isso lhe sendo um mero burburinho. A certeza de pisar os pés em solo firme lhe garantia a segurança de poder voar. E voar era distante: queria mesmo ser girafa, sentir o céu com os pés colados ao chão. Como toda certeza da vida, os primeiros passos tropeçados a jogaram para frente, depois para cima, até, por fim, cair abraçada ao seu amado chão. A felicidade estampava. Os passos maiores que as pernas, os passos tortos na linha, os passos e os sapatos apertados nos pés.
Signo de virgem com personalidade em libra. Vítima das escolhas difíceis da vida. Regida pela força que só a beleza pode ver. E via. Via em cada ser o lado puro e bom que cintilava em meio ao cinza duro do corpo físico. Tinha, como ninguém, o dom magnífico de amar os estranhos às entranhas escondidas. Com a exata precisão da tenra ternura da terra molhada pronta para o semear. Nada, absolutamente nada, poderia uma criatura como eu, senão, amá-la.
Era admirável ser adorador expectante dos seus passos, vê-la caminhar cautelosamente com a certeza de quem corre livre pelos campos de flores vermelhas. Flora tinha medos que ninguém podia ajudar, mas isso jamais lhe fora problema. Quantas vezes corri desesperadamente, crente do presente que só o futuro poderia me dar? Como se pudesse prever – ou, ao menos, ousar. Quantas vezes tive que voltar? E no retorno, encontrar Flora ainda indo, colhendo os frutos das árvores que eu nem sequer pude notar..
Flora valia o seu nome. Fazia germinar em cada peito infértil, cada coração árido a pureza e a bondade de ser o melhor que há. Gostava de casais americanos, copos americanos, jogos de mesa americanos e até sua cozinha era tal. Colecionava revistas e jornais, cartazes e jogos de talheres e tabuleiros. Muito pude aprender, mas o pouco que soube ensinar ainda me visita os pensamentos. Os passeios no parque, as primeiras pedaladas. Os livros trocados e os filmes adormecidos na madrugada. Sua partida fora um devastador desmate dentro de mim.
Como toda flor desabrocha, a menina cresceu. Cresceu e se tornou mais que seu armário pôde aguentar. Cresceu e foi para longe, onde ninguém, nem mesmo ela, soube imaginar. No chão cinza duro da cidade, jurou-me ter encontrado o amor. Jurou uma, jurou duas, jurou três e mais vezes possíveis de contar. Amou o sorvete gelatto, o cinema indie, a moda Belle Époque. Amou o estrangeiro com os olhos hospedeiros, amou o novo e a novidade. Amou disco na vitrola e o samba na alvorada. Amou o orvalho e a neblina, a garoa, os garotos e as meninas.
Romances foram todos. Romance ao pé da cama, regado de beijos escondidos. Romance tipicamente vermelho, outrora laranja, espremidos. Romances de ritmo rápido e viril intenso: beijo com cigarro, beijo de armadilha, beijo com gosto de incenso. beijo de criança, beijo enquanto dança, beijo e silêncio. Beijo, te amo, beijo escondido, beijo ‘te encontro na saída’. Beijo de cinema, beijo apressado. “beijo, me liga”. Romances, poucos, com nomes e rostos penduradas em um ladrilho. Com Paulo foi feliz, nunca soube o porquê. Lucas te fazia dormir no colo ao mais tardar das seis. Aldo era triste – e triste fora até morrer, quando cansado de ir lar em lar decidiu ceder. Joana era evangélica, muito não pôde fazer. Ana, carente, essa custava para crer.
Aos 24, com pé quebrado, Flora me mandou mensagem às 2 da madrugada do sábado para o domingo, 23.
“Descobri que encontro nos pés muito da minha disposição em ir. E ir nem sempre é um lugar físico, um endereço. Ir, ás vezes, é um lugar de escolha, um destino que não conheço. E nesse caminho, a gente para sempre numa encruzilhada, e encruzilhada não é lugar de dúvida, é lugar de decisão. Me pergunto: ‘quem sabe agora, repousando forçadamente, eu escolha com calma aonde ir, então?’
Quero voltar a patinar quando tudo isso passar. Gosto de sentir o vento no cabelo. É o máximo de velocidade que a vida me reservou. Porém, por desconhecer o rápido, nunca aprendi a frear. Na bicicleta, tinha controle. Patinar é confiar no universo. Crer que ele saiba quando parar”.
Flora vivia como quem houvesse sempre o que perder. Sem ver que aquele projeto embrionário se tornara uma grande mulher. Como se pudesse – e até podia -, evitava ser. Essa pessoa comedida, sempre com a medida exata do exagerado ser. Negando a si e as migalhas, queria o inteiro. Em meio ao sonho e ao destino derradeiro, carros, roupas, móveis e samambaias. Compras do mercado e um violão empoeirado parado no canto do quarto. Um quadro torto de um vazo quebrado e um retrato seu com um broto no cabelo. Um barulho no corredor e uma batida forte em minha porta. E essa cara que só eu sei.
Now it’s too late.
Sérgio Loureiro