Destaque

o céu cai e eu tento fazer sentido

Destaque

Sopro de pássaro

houve uma brisa
ou suspiro
não importa, tudo é vento
e esse que pode ser o meu último sopro
é, no mínimo, um bom intento
‘um trem locomovendo esfumaçante
desgoverna o seu destino
mas não cabe na estante
de brinquedo de menino’
tudo é livre, não obstante
isso é só um pensamento,
que me levará distante
e retornarei mais atento
suspira ao vento o seu caminho
ser criança é importante
mas quando cresce, passarinho
Voa, sopra o vento, asas
bica ao norte o horizonte
encontrai o firmamento
quando não souber mais onde
voa de volta pra casa
pra de perto do teu ninho
pois só fará morada
onde venta teu caminho.

Sérgio Loureiro

Destaque

Forte e Verdadeiro

Foi um amor vivido por inteiro.
Até o seu tenro fim
Forte e Verdadeiro.
Proferido pelo começo
Mãos pelos pés ao avesso
Era tudo que queria, menos ligeiro.
Vagou um espaço em cada peito
Cresceu prum lado que não conheço.
Se antes fosse tudo do meu jeito
Se ao menos eu fosse aquilo que prometo
Se tudo fosse de direito
O mundo a ti soaria até perfeito.
Eu levo um vazo com flor e um conselho
De cuidar do broto e amar o espelho
Porque lindo é aquilo que com afeto é feito.

Destaque

tempo entre linhas

o tempo e as tuas mãos enrugadas
acostumaram-me aos carinhos
em pelo pele encravada
mãos que me deram de comer
das dores e delícias
e apontaram o caminho

Para o tempo
e o amarelo que fica
a concretude física
carnal divina
pois tudo que move é sagrado
no toque
de uma mulher que recusou morrer

o tempo
e o sopro do vento nos meus cabelos
encaracolados ao destino e o porvir
virá
calvo galopante sem rédeas ou frenagens
solto grisalho na loucura fina da paisagem
sorriso distante que se aproxima
no ritmo rouco da rima

o tempo e o ventre expansivo
dentro sorri o destino
menina ou menino
certo sensível
de que tempo há de prover e tirar
o que nem as enrugadas mãos conseguem evitar

o tempo preso numa foto
junto a uma fonte

que não seca
cega e mata a sede
do viajante e da dúvida
desatina, onde nem fui ainda
esse meu paradeiro sem fim

o tempo e um relógio no pulso
de quem acha que tem o tempo
nas rugas linhas da palma da mão
ou no curso do rio
caudalosa abstração
de um menino vazio
caçando borboletas renovando o mundo
num relativo pueril

o tempo
uma máquina incessante
dispara e aperta o peito
silenciosa
sacrificada em poesia pura e pontual
sem pontuação
tempo para quê?

Sérgio Loureiro

Destaque

Carta tardia aos ávidos olhos apressados

eu cheguei, eram quase duas para as seis. tu sequer notares. com esse seu jeito de quem possui toda beleza e mistério do existir, nada podias ser mais que ti. no centro da sala, onde todos cantavam o refrão ‘oh, meu amor, não desistas de mim’, eu me lembrei de um sonho que tive no fundo do trem. por um instante até pude crer – por outro juro quase gritar.

quantas vezes quis evitar a dor fugindo para cantos de salas, cantos de fala (tantas foram as derrotas), e agora as malas arrumadas lá fora e aquele olhar que me diz “meu bem, eu te amo só por hoje, amanhã vou-me embora para Paris”. nesse deserto frio e escuro de cegueira e solidão, espero uma luz vir me buscar e seu brilho solar me levar daqui.

“o amor morre. só a arte, não.”

enquanto tu ias enfileirando copos e brindes, a festa seguia ao fim. se parrasse o mundo, olharia para mim. já longe de minha órbita natural. criando casco e o cansaço. tentando apenas ser pequenos passos, engatinhando numa gravidade que pela primeira vez não me empurra para baixo: me deixa solto no vazio de um espaço ao qual jamais pertenci.

nós compartilhamos as lágrimas que caíram ao anoitecer. meu coração chorava e eu só queria esquecer. engoli os goles secos das palavras que nunca ousei. descabidas no peito, as duras pontas agudas – a torto direito – constipavam-me aos mínimos pigarros. desprovidas de artefato para ouvir o murmúrio, provei sozinho a minha tristeza sabor cigarro.

eu sigo escondendo sentimentos em versos juvenis.

do alto de mim, o mundo inteiro parecia partido, dobrado ao avesso e então cuspido – e, escarrado, não bastava achar graça nos motivos pelos quais um dia havia rido sozinho. corte os laços com a lâmina fria de um punhal, dê para seu adeus uma oferenda final. esquente as lágrimas na colher e respire. alimente a boca do ego, a boca do estômago, a boca desdentada do afeto, e ouça o oco do teu eco.

ouves bem o que te digo, para que o que ficou calado comigo não fique para sempre em sigilo. e leve este meu choro aos braços do amparo. com uma flecha que disparo sem destino, te escrevo esta carta com um verso perdido: “não te esqueças, meu amor, que quem mais te amou fui eu. neste sonho para dois foste tu quem me fodeu.

por onde vá, encontre a beleza.

Sérgio Loureiro

Destaque

Quando vieres

Guardo estas palavras para quando vieres.
Este é o relato de alguém ofegante que respira entre as linhas escritas e o fim do pavio.

Sou algo, até mesmo o resto. Sou o que evidencia, evoca a si, e se esconde para debaixo do tapete. Às vezes sou a gota intransigente de refrigerante, tensionada entre os dentes. Às vezes sou onda que quebra corrente e te traz para o meu meio-mar. Em outras, até sou gente.

Trago este perfume que exalo e me entala a garganta. Cheiro ao doce suor nos amargos da boca que me estranha. Bom ver o tanto que já caminhei para cheirar aqui.

Sento meus olhos ao repouso dominical, aconchego meus anseios em poltronas de veludo. Pois agora que sei que vens, peço sossegado. Quase mudo.

Os dias, por aqui, são mais do que páginas desesperadas – dependuradas pelas pontas – que caem detidamente, como as folhas de jornais e os outonos ainda sazonais insistem em cair no meu quintal. Foi quando passei a despender o tempo necessário para que nada escapasse que soube pela primeira vez do teu sinal.

Enquanto te escrevo, ouço rumores e notícias de política na tevê. Um chá, quase pronto, assobia e o movimento migratório dos pássaros bate asas pela cozinha. O Flamengo perdeu de novo, o dólar subiu e o presidente é um otário.

Tanta coisa acontece em tanto lugar.

Vais descobrir que adoro o barulho de chá pronto às seis. Entre essas e outras ninharias, um ninho de Bem-te-vi no assoalho do telhado me faz companhia.

Lido com a terra entre os dedos e me pergunto: “quando estive sozinho?”.

Tanta coisa acontece em tanto lugar.

Às vezes penso se a terra é o tapete de Deus. Tenho escondido coisas bonitas pelo simples prazer de reencontrar.

Dos meus dilemas, os que te esperam volta e meia vêm me perguntar de ti. Tua chegada é mais que resposta divina, é resolutivo prover.

Dos meus dilemas, és o derradeiro.

Afinal, o que é que há? O que será de tão inevitável que eu tanto torço para que aconteça? Que verdade existe nesta dúvida para que me reivindique a natureza primária do ser? Que potência se manifesta neste desejo, que me ocupa os espaços vazios?

Já não há mais tapetes.

Quando vieres, vais me encontrar nativo de mim e da terra.

Sérgio Loureiro

Destaque

fogo fogueira

fogo fogueira. vida e morte. luz que encandeia e cega tudo ao redor. belo é o que se vê. e só. a representação da morte que, se esvaindo, definha-se em estalos. queima. aquece. acalenta. não quero pensar em fim como um processo físico/químico que se desenrola independente de forças próprias de vontade, planos ou mero desespero. quero pensar em fim como um caminho. como quem dá boas vindas pelo espelho. como quem se despede o tempo inteiro. ou simplesmente como quem se confunde entre começos e recomeços intermináveis de única certeza eterna: o fim. quero viver como a música que, em mim, agora ressoa sonora e tranquila. quero ser galho, tronco e graveto. há vida em viver assim. a vida, que ávida em ver de perto, avisa que verde é a cor da chama que arde e não queima. há verdades vívidas em quem pula fogueiras cotidianamente, pois estes têm brasa nos pés e calma na mente.

Sérgio Loureiro

Destaque

LUA EM TOURO

Vida que cai em mim, aquariana divina com lua em touro. Não lembro exatamente quando passei a me valer de leituras do destino. Sinto que sempre fui aguçada nos meus sentidos. Hoje o olhar de fora de uma lágrima vertente me visitou, e ele me trazia lembranças de uma estrela cadente – como pode a beleza que tange o tensionamento do acaso e rompe todas as certezas mais incríveis ser tão semelhante?

Esta tarde, não pedalei. O cansaço da disposição só não me tira o juízo. Este se põe em labuta operária de construção moral e civil. Por sorte, venho andando em muitas conduções coletivas e transportes públicos. Tenho lido muitos jornais e minha visão está cada vez melhor. Agora alcanço o horóscopo, e a charge de hoje é uma criança usando a folha do dia como fralda. “Você acha que eu nasci ontem?”. Ri.

Durmo melhor à noite quando debruço nas culpas e o sono transmuta-me para o ideal ilusório, onde os valores e o real dividem prateleira com o sentir ortodoxo. Desperto ao que os olhos fechados são capazes de ver. Encontro a paz quando me esforço a entender as minhas culpas, e em meus sonhos há o perdão habitando um mundo onde todos se preocupam com as dores do devir. 

E se eu olhar pela janela e perceber que respiro o mesmo ar que o resto do mundo? Será que eu percebo? Nunca sei se me desespero ou me tranquilizo. Atormenta(dor) querer entender demais. Nos sonhos costumo ter respostas para as dualidades. De olhos fechados enxergo mais.

Me sinto uma folha em branco mas que foi carimbada pelas pautas da sociedade. Agora quero apagar as pautas, voltar ao vazio. Dizem que do vazio tudo nasce, e eu estou afim de nascer de novo.

Em uma nova página. De um diário que chamo calendário.

Cami & Sérgio Loureiro

Destaque

rio nascente

estou nu
e todos pensamentos me parecem bem-vindos
aberto como um ventre
filtro da vida
linha de cerol que passa rente
ao fio que passa ruivo
ao diferente
amigo canino
que rasga-me ao dente
ao pelo, ao couro, ao risco tangente
à noite, ao coito, a semente
ao que me torna gente
ao outro, ao ego, ao ente
ao passo que faço comum, de repente
o laço, o abraço, o flato descrente
da intimidade criada inocente
ao choro da lágrima
palhaço novamente
a tu, ao teu
afago imponente
que me renova de força
pede-me que tente
tirar
as roupas
as armas
os medos
os sonhos
os outros
e ser
tão somente.

sérgio loureiro

Destaque

qualquer coisa

eu posso falar sobre o perdão. posso falar sobre os sabores e sobre o vento. posso contar os acasos oportunos regentes desse fantochismo porvirá, dos descuidados distraídos marionetes que se esbarram por mera implicância ao caminhar em trens ou plataformas de encontro casual. ou efeito causal consequente. sobre esse cotidiano consciente (ou não), em que todos cientes do rumo dormem no caminho. / posso falar sozinho sobre a ancestralidade evocada, esse tropeço no destino inclinado ao fino passo em que se dá em uma corda-viva onde todas histórias parecem amarradas. dessa linha-agulha que me guia ao espetáculo, desse palco e dessa luz que me cerca. dessa vida, que é circo. desse equilíbrio celebrado em fases que marcam a pele. cicatrizes. felizes são as novas como bem são as velhas formas de se encontrar. / posso falar sobre nós. nessa coincidência em que se resgata o ponto de encontro e partida. a incidência do sol é a marca da vida de um novo dia e voltar para casa é fugitivo se o melhor lugar é agora e aqui. / posso te falar dos sonhos cheio de medos e dos receios em que me despi ao seu dispor. ou de como a cidade mudou, e no trajeto você mudou, a vida mudou e tudo agora é um deserto. posso falar, mas prefiro que seja de perto.

queira. escute essa canção. ou qualquer bobagem.

eu posso falar das luzes azuis da sirene, e de seus olhos. e desse acaso entregue somente aos encontros que nunca tiveram fim. e então falar dessa sorte a nossa e a vontade que eu tenho de sair por aí. ir por aí, por aí afora. numa estrada que só me leva, nunca me traz. uma estrada de terra que não me pergunta onde foi que me perdi. sentir o barro, beijar a pedra, ser o pó. eu e você, no banco de trás de uma carona. me encontrar longe, mas na tua cama. viajante com você perto a mim. e você é luz da manhã, é de lua, de fases e frases cantadas ao verso que se escreve e encerra sempre com um final feliz.

eu realmente poderia falar. para quando você pudesse ler. e quando você me perguntasse, saberia dizer. diria algo mais do que viria à boca. diria, exatamente, qualquer coisa.

sergio loureiro


Destaque

relatos

ouvi dizer que esteves por aqui
vesti as botinas
fui caçar rastros atrás de ti
segui passos em vão
pois tuas pegadas foram vistas em outra dimensão, longe daqui.

por lá, surgirão boatos
jurarão que estivestes ali
“saiu nestante, eu quase vi”.
“dançava e pulava sem jeito, me acabei de rir”
“tinha um sorriso que quase fico louco, quase desfaleço, quase que quis”.

só podia ser você
ouço relatos próximos aos olhos
espalho seu nome por onde passo
foi por pouco, mas não desisti.

na busca incessante
incenso de jasmim
esteves por estes lados, posso sentir
na fragrância que sopra
no rio que dobra
na viúva e na grávida que choram a dor do partir

meu navio sem rota dispara ao sabor do vento
eu até nem sei se tenho tempo que não te vejo
mas velejo nesse corpo desconhecido
passeio sem jeito
pelo teu semblante perfeito à luz da sombra, oblíquo.

nesse ‘disse me disse’, bate o vento e quase me perdi
corro como se quisesse existir
a dor me pregando peças pelo chão
que delícia é ser e sentir!

era só migué, mas foi divertido
era verdade
e eu acreditei desde o princípio.

sérgio loureiro

Destaque

letras do desassossego

essa é para você contar aos outros na rua.
essa poesia pura, nua e crua. tua como teus dentes que se atrevem a atravessar a minha carne quente a um mero instante do contato aos meus ócios, meus ossos, meus órgãos, meu âmago, para, quem sabe então, meu corpo literal, meu antieu, minha essência antes posta em prática pelo meu ser vivente.

quem sabe o meu desmoronar demonstre mais que as palavras sentidas – não ditas – tentaram falar. quem sabe em nome de algo eu possa dar, à vida ou ao desamor, o infortúnio ato de despejar – e quem despeja um dia não tem mais água para dar.

essa vem de longe. fui procurar no dicionário a direção exata, o ponto ordinário ao que eu possa, enfim, me perder. outrora vaguejante vaqueiro na vastidão do palavrear, agora nada mais a ser ante o que há. sou desculpas e teimosia, sou demora e a agonia recém-nascida do primeiro ar.

você sempre quis estar neste papel de folha branca e curvas desalinhadas, ornando o rasuro ao desenho de trato infantil. agora esse canino que se mostra ao liso sorriso arredio está no verso subversivo punhado à mão do descaso, e se escreve tal qual o apunhalado peito do teu aço frio.

tu és a morte e a vida. é o mundo inteiro se acabando. é sentir a célula-prima da natureza de todas as coisas se partindo em um espetáculo piromático, e depois se apagando. é o fogo-rei que contrai as entranhas num rebolado de devastação e magia. é brasa que não queima, mas arrepia. é, e é isso todo dia. um fenômeno raro e obtuso, diferente como cada qual há de ser. és a beleza na noite trancado numa cela. a fúria e a alma de uma pobre donzela. és o resgate do náufrago atendido em oração, és a colheita divina quando estendo as mãos.

me leve contigo. amassado, no bolso de sua calça. ou mesmo perdido entre tuas coisas na mochila. agora nada mais me importa se nada me acalma. podes me mostrar aos teus amigos desconhecidos no meio da rua. a gente é esse grão, indo de mão em mão, caindo em tentação.

só não esqueces de mim. esta poesia que é uma recordação, um segredo entreaberto, é também uma tentativa. mas, antes de tudo, uma confissão.

sérgio loureiro

Destaque

delírio escatológico

essa noite, Laura era astronauta
voava e batia as asas
como se fossem esforços válidos.

penas e taças se arremessavam pelos lados
pelos e lábios em contato equidistante
laços dados em linha de cetim.

sobe de longe, a lua vai
o clarão vertical
anuncia em tambor o seu nome alvorecer.

num dadaísmo reverso
golpe de pragmatismo à revelia
um faz-de-conta que faz sentido
passaria em minha TV.

nesse delírio escatológico
de comportamento óbvio
sacramentado o inócuo
sangue tinto, clorofórmio
utopia, sonda espacial e unicórnio.

sabes, de longe, onde flutuar
tendes as firulas das manhãs
dentes nas frutas – o sabor da maçã
o que seria da sereia que rega corais no fundo do mar?

preenchida pela alegria do profano
arremetia-se em sonhos tão mundanos
caindo de cabeça no universal amar.

“é tão bom não ser divina”
e, serelepe, saciar a sede
do carnal desejo
do peito, o leite quente.

já rodou o mundo
fez a volta errada
deu lugar a tudo
fez muita sacanagem
arrependeu-se, muda
já sentiu saudade.

mas retornando ao discernimento
copular astral
melantonina em dissenso contratual
rompe a barreira do sono inabitual.

afã do afago ao lado
me acordou com olhos esbugalhados
me dizendo no espelho:

“sou forte.
meio doce e meio ácida.
em alguns dias acho que sou fraca.
e boba.
sou gente.
mais tarde, hei de ser.
me acorde às seis.”

sérgio loureiro

Destaque

Carta para Flora

Essa é a história de Flora. Uma garota, que antes mesmo de ser garota, era um projeto – como você e eu, mas não exatamente todos nós. Planejada na mais bela das intenções, teve seu destino escolhido e acolhido como se fosse realmente seu. Nome batizado a dedo, escrito no enxoval oito meses antes do primeiro beijo. Envolta no berço de zelo e proteção que a apresentara ao amor e à compaixão, acreditou no perfeito. Criou e foi criada na casa, e coragem para quê? Sabia exatamente onde ir pelas migalhas que ouvira falar. Não te preocupavam os labirintos, os labores e as lábias malditas, desde que houvesse e ouvisse os cantos do rio. Ornava perfeitamente com os adornos encontrados pelo caminho. Adorava seus cachorros, mas de borboletas tinha um temor umbilical que lhe levava ao definho.

Preferia acreditar na dureza da vida e nas pedras da estrada, mesmo isso lhe sendo um mero burburinho. A certeza de pisar os pés em solo firme lhe garantia a segurança de poder voar. E voar era distante: queria mesmo ser girafa, sentir o céu com os pés colados ao chão. Como toda certeza da vida, os primeiros passos tropeçados a jogaram para frente, depois para cima, até, por fim, cair abraçada ao seu amado chão. A felicidade estampava. Os passos maiores que as pernas, os passos tortos na linha, os passos e os sapatos apertados nos pés.

Signo de virgem com personalidade em libra. Vítima das escolhas difíceis da vida. Regida pela força que só a beleza pode ver. E via. Via em cada ser o lado puro e bom que cintilava em meio ao cinza duro do corpo físico. Tinha, como ninguém, o dom magnífico de amar os estranhos às entranhas escondidas. Com a exata precisão da tenra ternura da terra molhada pronta para o semear. Nada, absolutamente nada, poderia uma criatura como eu, senão, amá-la.

Era admirável ser adorador expectante dos seus passos, vê-la caminhar cautelosamente com a certeza de quem corre livre pelos campos de flores vermelhas. Flora tinha medos que ninguém podia ajudar, mas isso jamais lhe fora problema. Quantas vezes corri desesperadamente, crente do presente que só o futuro poderia me dar? Como se pudesse prever – ou, ao menos, ousar. Quantas vezes tive que voltar? E no retorno, encontrar Flora ainda indo, colhendo os frutos das árvores que eu nem sequer pude notar..

Flora valia o seu nome. Fazia germinar em cada peito infértil, cada coração árido a pureza e a bondade de ser o melhor que há. Gostava de casais americanos, copos americanos, jogos de mesa americanos e até sua cozinha era tal. Colecionava revistas e jornais, cartazes e jogos de talheres e tabuleiros. Muito pude aprender, mas o pouco que soube ensinar ainda me visita os pensamentos. Os passeios no parque, as primeiras pedaladas. Os livros trocados e os filmes adormecidos na madrugada. Sua partida fora um devastador desmate dentro de mim.

Como toda flor desabrocha, a menina cresceu. Cresceu e se tornou mais que seu armário pôde aguentar. Cresceu e foi para longe, onde ninguém, nem mesmo ela, soube imaginar. No chão cinza duro da cidade, jurou-me ter encontrado o amor. Jurou uma, jurou duas, jurou três e mais vezes possíveis de contar. Amou o sorvete gelatto, o cinema indie, a moda Belle Époque. Amou o estrangeiro com os olhos hospedeiros, amou o novo e a novidade. Amou disco na vitrola e o samba na alvorada. Amou o orvalho e a neblina, a garoa, os garotos e as meninas.

Romances foram todos. Romance ao pé da cama, regado de beijos escondidos. Romance tipicamente vermelho, outrora laranja, espremidos. Romances de ritmo rápido e viril intenso: beijo com cigarro, beijo de armadilha, beijo com gosto de incenso. beijo de criança, beijo enquanto dança, beijo e silêncio. Beijo, te amo, beijo escondido, beijo ‘te encontro na saída’. Beijo de cinema, beijo apressado. “beijo, me liga”. Romances, poucos, com nomes e rostos penduradas em um ladrilho. Com Paulo foi feliz, nunca soube o porquê. Lucas te fazia dormir no colo ao mais tardar das seis. Aldo era triste – e triste fora até morrer, quando cansado de ir lar em lar decidiu ceder. Joana era evangélica, muito não pôde fazer. Ana, carente, essa custava para crer.

Aos 24, com pé quebrado, Flora me mandou mensagem às 2 da madrugada do sábado para o domingo, 23.

“Descobri que encontro nos pés muito da minha disposição em ir. E ir nem sempre é um lugar físico, um endereço. Ir, ás vezes, é um lugar de escolha, um destino que não conheço. E nesse caminho, a gente para sempre numa encruzilhada, e encruzilhada não é lugar de dúvida, é lugar de decisão. Me pergunto: ‘quem sabe agora, repousando forçadamente, eu escolha com calma aonde ir, então?’

Quero voltar a patinar quando tudo isso passar. Gosto de sentir o vento no cabelo. É o máximo de velocidade que a vida me reservou. Porém, por desconhecer o rápido, nunca aprendi a frear. Na bicicleta, tinha controle. Patinar é confiar no universo. Crer que ele saiba quando parar”.

Flora vivia como quem houvesse sempre o que perder. Sem ver que aquele projeto embrionário se tornara uma grande mulher. Como se pudesse – e até podia -, evitava ser. Essa pessoa comedida, sempre com a medida exata do exagerado ser. Negando a si e as migalhas, queria o inteiro. Em meio ao sonho e ao destino derradeiro, carros, roupas, móveis e samambaias. Compras do mercado e um violão empoeirado parado no canto do quarto. Um quadro torto de um vazo quebrado e um retrato seu com um broto no cabelo. Um barulho no corredor e uma batida forte em minha porta. E essa cara que só eu sei.

Now it’s too late.

Sérgio Loureiro

Destaque

poemas que leria olhando em seus olhos

Corri tanto atrás de viver, que caí e quebrei o pé. mas que fique claro: não me arrependo do caminho trilhado apressado, pisando com pés em falso. Não fosse por isso não saberia, sequer, em qual esquina do viver escrevem-se às linhas o tempo do amor, sem ter que sofrer, sem ter que chorar.

Hoje no colo, nos seios, nos sexos, do secos na boca, no traço em que faço meu destino. Acendo meu cigarro, não preciso mais correr. Pois agora sei o caminho de casa. Pois agora tenho você.

Confesso, não sinto mais aquela paixão arrebatadora, não me sinto mais jovem ansiando viver, sonhadora. Estou de cara lavada. Aprendi a ligar os pontos. Agora me sinto preparada.

Portanto, não te apresses. Queira-me como quiseres, como queres, como bem me queiras o querer. Só não queira me agradar. Tenho categoria para amar. Tenho calma e a poesia para me acompanhar.

E amar é um pedacinho do céu.
E amor é onde eu queria estar com você.

sérgio loureiro

Destaque

preto & branco

em preto e branco, mais um dia se vai. lá fora um frio lindo, com a garoa paulistana cobrindo sonhos e telhados, cercas e cercados. a noite cai. os olhos cinzas como a cidade e os pensamentos inocentes voando no alto dos prédios, cortando luzes, antenas e fios. as estrelas se escondem entre as nuvens de fumaça, nuvens de algodão, nuvens de sonhos cobertos pela garoa. o céu era uma noite normal em sampa. concreta contra a parede fria, sentada vendo carros correrem pelas ruas, ruas correrem pelo asfalto molhado da avenida Afonso Pena. não houve o que duvidar.

em preto em branco ela se veste. a Terra, cinza, da cor do seu vestido. a Terra gira, como a flor no seu cabelo. a Terra atenta ao primeiro sinal de vida em seu sorriso no espelho. fora de órbita, outros braços estendem-se a si. entocada em seu quarto, uma só constelação estelar. intocável, a Terra gira no eixo de seu dedo. a Terra, vista assim, até faz sentido ser e estar.

duvidou. talvez por saber que o armado atira até por medo de que um outro atire primeiro. teve medo. o rádio da vitrola tocava uma canção que dizia “minha tristeza tem sabor de cigarro, mas dentro de mim você pode me ouvir cantar”. cansada, atirava pedras em vidraças e as vezes achava que não haviam pedras suficientes.

em preto e branco, uma foto junto ao junco. um conjunto de flores mortas no vazo feito de cinzeiro. cinzas regendo um enterro. não houve sentimento presente. ouve um silêncio que se rompe, sorrateiro. subitamente deseja sentir o tato do tácito, o implícito à flor da pele.

em preto e branco, ela tem algo a dizer. antes mesmo de ter as palavras. palavras sufocadas já não cabem nas páginas rasgadas do caderno amarelo. ouve promessas de felicidade. dentro de si, não se sente neste lugar. desejaria viver em Júpiter onde as almas são puras e a transa é outra. não que seja a mais virginal de todos os tempos, mas seu perfume tristeza contrasta com o cheiro e com a dúvida que acaricia na ponta de seus dedos.

em preto e branco hoje vai se rebelar a maior de todas, estrela lunar. no apartamento, oitavo andar, um deserto perfeito. num país sem nome, outros homens mantém-se satisfeitos. como se pudessem prever o vento. como se pudesse duvidar. em preto e branco, um cartão postal de Paris. um casal ensaia-se feliz. um soco em cheio no peito. este amor em seus olhos já se fecharam. não abra a porta se você não pretende entrar.

em preto e branco hoje vai se revelar. batom vermelho para quê? a noite é sua, a dança sua. aos corpos quentes, pedras de gelo. em preto e branco, é hora do adeus. cigarros, gato, cartas espalhadas pela sala, cartão postal e uma mensagem no espelho. o disco torto na vitrola contracena perfeito com o que há la fora. as vivas cores do destino desbotam na palidez do pensar. são tons de sim, são tons de cinza. em preto e branco sabes exatamente o que vai ser.

o seu pensamento tem a cor do seu vestido

sérgio loureiro

 

Destaque

SÉLFICO

essa manhã eu me olhei no espelho
sob o filtro vermelho
que deixa tudo perfeito
minhas olheiras, minhas espinhas
até mesmo minha calvície se tornou simpatia
já fui gato, já fui cachorro
criei personagens para todos os efeitos
feito feitiço para mim mesmo
agora na película do espelho
já não mais me reconheço

sérgio loureiro

Destaque

astro notas austrais

Tenho ido e vindo, de um lado para o outro. Quem vê de longe, acha lindo esse meu balé torto pelas estrelas. Quem vê de perto, jura que estou perdido. Captei sinais remotos de vida lá fora e investi boa parte do meu tempo em novas descobertas. Isolado, tento fazer de minha nave um pouco de mim. Tento lembrar de mim. Este negócio têm os seus dias. Saudade e solidão se entranham na excitação a cada passo mais distante. Tudo é muito pequeno para olhar para trás. Talvez por isso, apontei minha antena para o maior satélite. Ver no que vai dar.

sérgio loureiro

Destaque

o olho é uma bandeira

eu não quero mais fugir. estou cansado de despedidas e de saídas de fininho. percebo que finjo escapar de algo que está preso à mim. me persegue sempre – e tão somente – quando me ponho em disparada. saio catando frases pelo caminho. coleciono sonhos – maioria, vazios. entre tombos e tropeços, vez por outra me esbarro no acaso.

por estar desatento, não lembro como me viesse. se em orelha de livro ou panfleto ao chão. talvez um post aleatório que tenha me iluminado (e, de repente, isso me faz lembrar da metáfora de que Deus é um poste: passa boa parte do seu tempo ali, despercebido enquanto há luz; mas basta um segundo de escuridão para se tornar essencial).

estampada estava tal qual jamais pudera ignorar. sei que durante muito tempo não busquei entendê-la. apenas aceitava-a como fato – e achava lindo, como ainda me vejo encantado pela sua beleza profunda e misteriosa. um preceito bíblico, uma ordenação constitucional. um poema de si. agora, cansado de partir sem levar, eis-me aqui: decidido a descifrar os mistérios que te convém, acordado para o sentido precedido ao além.

“o olho é uma bandeira”.

o que é uma bandeira? uma demarcação, um registro de posse? uma bandeira é um ato de rendição, um pedido de perdão e clemência. uma bandeira é uma ideia vivida em conjunto, a união coletiva de indivíduos em prol de algo único. uma bandeira é um símbolo, uma representatividade.

já o olho…é uma lente. é a representação do mundo a mim. eu vejo aquilo que é, mas aquilo como é? o olho também é rendição. o olhar que cai, despenca, sucumbe ao outro por paixão. o olhar que se desvia, faz vítimas de olhar perdido. o olho entrega. o olho dá bandeira.

por longo tempo estivesses acompanhando-me. em todas as fugas, presa a mim em uma página abarrotada de caderno, ao lado de uma mancha de café, talvez? tantas variantes já foram criadas diante ti. todas fadadas ao mesmo destino massante: páginas rasgadas de uma história que não se conclui.

por fim, nenhuma poesia deu-se, enfim. tampouco há para onde ir daqui. resta esse registro pessoal onde descarrego tudo que há em mim. só não há poste aceso nessa rua escura na qual trafego. agora, também não há ti. que se eterniza nesse conto sem fim.

sergio loureiro

* que se finque olhares em novas descobertas.

Destaque

salmos perdidos

por que todos nós caímos na inocência
em  fantasiar algo tão certo, tão bom
tão vívido daquilo que buscamos, irremediavelmente
repleto dos reflexos de quem somos
algo tão cheio de nós que nosostros?

porque teimas, tão irritadamente
em ver a verdade via o véu das emoções
mesmo estando diante, prostrada
crente deste irreal retrato do absurdo
fenômeno raro e obtuso
um irretrato reto e intransigente
do trato que se dá ao acuso
do curso, sem pulso
mudo, surdo do sentido de gente.

oh, senhor de todos os sonhos não vividos
os do turno da manhã, sonâmbulo adormecido
que no ventre da anciã, proferido. preâmbulo
fez-se a soma divina
fez-se a luz e a cortina
o eco das risadas, ceias matinas
onde parte-se o pão e cede-se a carne
sangue escorre em cálices
fim ao seios maternos.

por que caímos no conto do amor perpétuo
se nada que façamos será eterno?
em que conta contam os corpos que pagaram o preço do divino?
em nome de quem se dará este menino?
filho de vários, irmão de todos
virgem sou eu, bem como outros.

se eu não tivesse nada.
nem perto, nem cortante
nem espécie, nem montante
nem troco e nem choro
diria que te amo, mas isso é um aDeus.

porque te quero e tua presença me leva ao supremo
gosto do teu jeito de me fazer sair da cama
e do teu dom de me desacordar
aos sentidos, uma mensagem na caixa postal
sintam se em casa eu não estiver.

Sérgio Loureiro

Destaque

afinal de contas

O seu amor eu não sou capaz de entender
mas jamais desejaria não sentir
não me cabe nada além de caber aqui
o seu amor é novo para mim
me faz crescer para te alcançar
estiquei meus braços por onde não cresciam galhos
não sei se você chegou a ver
o seu amor me faz ver o sol
e me beija todas manhãs de um jeito diferente
hoje nasceu uma flor na minha ponta
amanhã ela está no chão, vira semente
seu amor é livre demais para buquê
quem quiser que venha para ver
quem quiser que queira o bem-querer
o seu amor é realmente fora da curva
e que bom que seja
que bom que é
afinal, é amor
e você disse que agora é meu.

sérgio loureiro

Destaque

o cárcere e o exílio

Hoje eu acordei angustiado. Acordar, a início de conversa, é mera formalidade linguística. Desde que esse resfriado começou, eu não tenho uma noite contínua de sono. A saudade ainda assola o rosto desamparado de alguém que não se vê inteiro nos estilhaços de um espelho. Mas a angústia – essa sim -, de longe, é o sintoma mais preocupante. Agravada pelo isolamento e ainda mais pela interação virtual com os outros confinados, ela dilacera a esperança que ainda ilumina esta cela.

Pode parecer ironia àqueles que intimamente me conhecem, os quais agora me destino, mas não sou uma pessoa extrovertida. Todas as minhas vivências e experiências são mais fruídas em processos internos do que externos. Quando estamos rindo juntos, simultaneamente dentro de mim, estou ruminando os sentidos, ocultando os sentimentos, ressignificando a risada. Aquilo que chega à superfície é apenas produto de exportação. Mas nem por isso deixo de lado uma característica essencial nesse fardo de me ser: a espontaneidade. Não me interessa ser nada além de quem sou.

Há uma razão por trás. Fui criado sozinho, sempre mudando de endereço, afastado de qualquer noção de núcleo familiar e constantemente impedido de criar novos vínculos efetivos de amizade. Muitos dos doutores que posteriormente analisaram meu caso, condenam à esta formação parca de afeto as razões de meu comportamento “imprevisível, impulsivo e com fortes tendências ao uso de substâncias psicoativas” (SIC).

Foi na solitude em que criei o hábito (antes de sobrevivência, hoje de pura vivência epicurista) do autoexílio. E isto cria um caráter analítico infinito: sou regido por códigos de conduta que se atualizam a cada experiência simultaneamente vivida em processos internos. Tais condenações sociais – as quais hoje pago o preço com o suor do meu confinamento e o definho físico e mental – não são nada se comparadas aos perjúrios que cometi a mim mesmo durante esta longa trajetória.

Mas nem tudo são espinhos. Minha condição me possibilita estar sempre em dois lugares: o aqui e o meta-aqui. Assim, não há prisão que se limite à solidão sem fim. O exílio é o confinamento no confins que há em mim.

Mas este é apenas um preâmbulo ao que me direciono. Durante esse período em que o mundo se tranca em casa em meio àquela que já é chamada de “crise da geração”, tenho acompanhado de tudo: desde as coberturas combativas, massivas e massantes da mídia, às reações e interações das redes sociais – ambas vistas sempre de relance em pequenos quadrantes permitidos pelos oficiais da ronda. Incrível o que os olhos são capazes em tempos de fadiga mental. Membros mais ávidos do meu organismo, não acomodam-se nem mesmo quando o corpo clama por repouso. Estar em estado constante e perene de vigia, de caça, à procura de algo – e algo é tão absoluto quanto possa parecer. Algo é qualquer coisa. E de qualquer coisa, o mundo está cheio.

Parece óbvio que existe uma certeza universal pairando sobre o coração de cada ser ainda humano neste planeta. Nossa existência necessita uma revisão. E não é alarmismo, é constatação básica de algo que deveria ser inerente. Com ou sem crise. Em um dos artigos capturados pelos olhos ávidos, o autor lembra da situação da tão enaltecida fronteira livre da União Europeia, agora suspendida. Muros se erguem enquanto costas se viram aos, antes, irmãos, que agora se olharão com a desconfiança da contaminação – livres sequer da preocupação de seu  E/estado.

Novas certezas emergirão. Como a de que nada é irreversível. Estamos presenciando o começo da ruína de antigos contratos sociais, como a liberdade, a democracia como a conhecemos, a benevolência, a segurança e a saúde pública – conquistados à sangue e suor pelos que agora constituem o principal grupo de risco. Elas não deixarão de existir, mas certamente estarão sob outra perspectiva.

Quando o contato social for reavido, tudo será como antes, mas antes jamais será como fora um dia. Quando as celas se abrirem, e o sol nascer redondamente esbelto em algum horizonte imponente demais que me mostre a grandeza da insignificância de ser quem sou, lembrarei dos tempos de exílio. Lembrarei do cárcere e do martírio. Lembrarei de tudo que dê tempo, pois há pressa em abraçar um amigo.

Eu não sei como dizer, nesse momento de incertezas, onde tudo é tão duvidoso e todo passo é dado em falso, para onde vamos daqui. De certo que a algum lugar, pois um dia deixaremos as celas, um dia sairemos das virtualidades dos quadrantes, um dia teremos que assumir o papel que nossos pés tem: não o de caminhar sempre em firmeza, mas o de caminhar. Não o de nos dar equilíbrio, mas também, por vezes, nos levar ao ar. Não de nos guiar a algum lugar de paz, mas de, acima de tudo, romper antigas fronteiras.

Sérgio Loureiro

Destaque

anarquia do talvez

há de haver algum sentido nisso tudo, ou então o que virá depois? falo sobre a vida, sobre mim e sobre tu e sobre esse passarinho que acabou de passar e tudo mais que é e reivindica para si a sua existência corpórea, material, física e tangível. reclamo ao concreto o sabor de sua rebeldia, a fantástica fábrica de operários felizes e revolucionários. cansados de serem o que são, não almejam patrão. eu particularmente não quero dinheiro, não quero paz, não quero sequer querer. querer o ser e talvez nem mesmo isso. quero ser legado do meu destino e infortúnio do meu fracasso. essa noite nada me basta, sentido ou mesmo depois. talvez o dia não amanheça e a lua é o que me resta. quero o que restou e o que não chegou a ser – ficou restrito à sensibilidade dos olhos que não veem, sentem. talvez vou virar foguete, meu destino é partir. no fim não há nada. talvez, uma arte.

sérgio loureiro

essa é uma obra inacabada dedicada a todxs que não se enganaram o suficiente para estarem prontos.

Destaque

notas da calçada

Eram quase uma e meia da madrugada da quinta e eu estava parado na calçada do lado de fora da festa. No oitavo andar do apartamento do outro lado da rua um homem abre a vidraça, cigarro pendulando na ponta dos lábios. Espreguiça-se abrindo os braços ao que se passa: carros, motos, vira-latas. Dentro do bar entre todas metáforas mal entendidas repetidas incessantemente ao som das batidas, você suava. Suava e não eram minhas mãos a te secar. Suava e o samba já não suportava o tamanho desse calor. Em meio às fumaças cigarros cinzas, silhuetas se entrelaçavam do lado de dentro para fora. Sentado sem saber ao certo o que fazer da vida, ciente de que o que me restam são apenas as suas sílabas, solucei. Solução nenhuma surgia. Logo eu que nunca soube fazer somas entre vírgulas nem tampouco ousei aprender – talvez por isso contraí tantas dívidas. E no fim da conta no bar onde está você? Espero que escute essa canção que não se dança mas se baila. A estrada é longa a vida é curta e entre todas as curvas e bebidas espero que se encontre a paz. Que seja, nesse caminho que te leva para o outro lado da festa, passiva e possante. Passageira e volante. Um passo errado e o outro errante. A vida não é mais vida quando vivida dessa forma e geralmente passa despercebida, como o casal que se entreolha na minha frente. À sombra das silhuetas que acompanhava quase que cinematograficamente, à moda que não volta, ao descaso próprio com a sanidade. São uma e meia e eu não sei se já se diz bom-dia. São uma e meia e a sua insistência em sumir satisfez a minha perseverança. São uma e meia e não se passa mais nada, não se ouve mais nada, não se dança mais nada. Não há janela e nem estrada. Mas se for dirigir essa noite fique comigo só mais uma vez. No rádio as notícias mais tristes são as mais repetidas. Por aqui o que me restam são goles de sensatez.

É difícil acreditar o que o sol é capaz de fazer nestes dias desde que é manhã neste exato momento em algum lugar. Então bom-dia!

Sérgio Loureiro

Destaque

certeza sensível

era cedo quando uma certeza sensível invadiu meu coração e fez dele sofá em manhã de domingo. um furtivo zumbido adentrando pela janela, trazendo aquele som ao definho. tão afiado, tão ligeiro, que eu nada pude fazer. categórico de si, carregava consigo a convicção da dúvida de sua própria natureza. afinal, assumira muitas formas até aqui, não sabia exatamente como me vir. talvez neblina nebulosa, talvez raio de sol e passarinho. talvez duvidando de si, ou de que a Terra dá voltas ao sol. talvez brincando de achar, encontrou-se só. nenhuma surpresa, a sua chegada me fez, quando ouvi seus passos aos esbarros na cozinha, arrastando os imóveis pela sala. vejo que seus tropeços medraram o sentir, agora que sinto seu amadurecimento frutificar – não em um vazo exposto na janela, mas pelo campo, ornando com outros carvalhos, barbosas e jasmins. soube de tua vinda desde o princípio do saber e estive com ele até o fim. comparo a sua chegada a uma ilha que fugiu do continente. pois agora que vieste e que teus pés descansam sobre a mesa, sinta a vontade. tire o pesar no que passou, nem o tempo aguenta mais o peso desse relógio. aconchega-te nessa concha de fora que escolheu te cobrir, e, talvez, repousa. ama esse insólito desejo de se fundir ao estranho corpo outro, ama o inóspito e o descobrir as novas terras em pedaços de suculência em carne em osso. percorre cada centímetro sentido meu. pois o meu corpo é solo, e como toda superfície, esconde seu ouro. o meu corpo é poesia que você jura ler com a língua. e então, sente-se salva quando se despede ao despir-se de toda insegurança e medo. se converte no que já era por essência e beleza inata. assim, fraca, reergue-se venusta exuberante, lenta e sadio, forma e conteúdo. tal qual regente cabal destemida ao esmo. ciente que a constância das incertezas é a volta de todo partir, tem na essência a negação do existir. descobre que lar é o “a” de abrigo que há no aqui. e aqui, por fim, encontra moradia, me preenchendo – não de promessas vazias, mas de perfeitas incertezas sobre o amanhã. chega e me diz coisas que não diria para si mesma. com calma, depressa, sem agonia. eu tenho todo o tempo do mundo, mas eu te quero agora.

sérgio loureiro