Eu posso ouvir o silêncio vir me dar o beijo de boa noite. Posso sentir a poeira apagar as luzes do abajur. O vento que entra pela vasculhante, sorrateiro, me abraça. Embala comigo antigas cantigas de ninar. Às lágrimas: em seus braços, o desconsolo. Eu, mudo, um ser de palavras – perdidas no universal amar.
As lembranças pela sala são fragrâncias expelidas pelo ar. Aspiro do seu perfume o que ainda resta até a última esperança. Por um sopro estás prestes a partir. Teu sorriso não mais canta, emoldura-se em um retalho na parede. Ainda passo por ele, toda vez que não me deixas dormir. No meio do caminho, como sempre ousou estar. Mira te: um retrato de cetim, já por descosturar. Às vezes, as tais lembranças são tormentas caladas à noite. Outras, são crianças correndo pelos corredores, invadindo a sala de estar. Em vão, bravejo. Quando foi que me tornei ranzinza como seu pai? Eu, surdo, um ser de palavras – perdidas na memória do meu lar.
De fato. Não sei reagir, e o que poderias esperar de mim? Tu me deixaste, e o que sobrou aqui? Um céu de nuvens que se perderam. Um mar que se divide por inteiro – parte esteve aqui, ouviram falar; outra presa ali, em seu olhar. As estrelas não mais constelam, não mais cintilam, nem sequer combinam umas com outras. Todas decadentes de brilho, como a madeira da sua estante, abandonada, sem verniz. Não me olhe assim, mal cuido de mim. Eu, cego, um ser de palavras – perdidas no vão do pensar.
Eu me sinto só e o girassol gira devagar. O teu violão guardado, de quem tanto senti ciúme, toca notas de dó. Parado, assim, posso presumir que sou daqui para o pó. Vou me juntar a outros grãos de vida, mortos pela casa. Um punhado de sentimentos que, juntos, não dão um só. “Purezas e impurezas fundidas”, dizias. Vou morar na sua estante empoeirada. Ou veranear no seu céu, junto das estrelas sem graça. Sendo ponto de luz no céu, vou gritar. “Luna, luna, luna, llena menguante”, sei que estás me observando, mas não sei o que me vês. Como não vi seu amor e assim não pude ver teus passos pelo mundo. E se existo em você, foi por louco engano.
Contigo, à distância, sei que podes me ouvir. Percebes – assim, desafinado, sou só rumores do que outrora pude vangloriar – o tom do meu desespero. Mas canto. Canto, pois não há bela melodia em que não exista tu. Canto, pois assim espero a minha hora chegar. Lapidei-me e eis que aqui escrevo minha lápide: o amor que tu me deste era muito e em mim transbordou. Eu, diante de sua profundidade, um ser de palavras – encontrei-te ao me afogar.
Sérgio Loureiro