Naquela noite, não escrevi. Afinal, o que me adianta ser, enfim? No vazio do espaço que habita em mim, sou astronauta navegante em órbita sem fim. No peito apertado parte-se um coração. Sofrendo de solidão, só se ansiava ser seu, estar na palma da mão.
Naquela noite, não tracejei uma linha sequer. Na ponta do lápis, o risco – não o corri. Na ponta dos cascos, o perigo – não o permiti. Nos lábios, a ponta do cigarro contracena com a ponta do nariz. Na mesa, vasos vazios relembram meu estado doentio. Os frascos mais fracos sempre apontam para alguém que está por um triz.
Só peço que, por descuido, no escuro em que tropeço caia nos teus braços. Selem os nossos laços: suas rotas, palavras, desejos. Sonhos de coletivo manejo. Seja a borracha na mão que afaga. Mas não apaga os meus erros.
Sou o oposto da impavidez colossal. Temo, não teimo e se falho me desfaço. Não me satisfaço com bugalhos. E nem disfarço: sou um homem fraco, não lavo nem passo. Mas o meu caminhar é descalço. O meu caminhar é descalço.
Sérgio Loureiro