Não é hora de se espantar com as lágrimas. Que escorram pelos sulcos, leitem-se nos rios, alaguem as cidades. Deixem ressoar os estridentes agonizos. Que ecoem pelas vértebras para que finalmente se sintam humanos, encardidos. Permitam que a ponta das facas queimem-lhes a pele, para que se aqueçam. Os miúdos joguem fora.
O que me interessa esse sangue em ebulição correndo pelo asfalto frio dos que sentem sem parcimônia? Que queimem em suas ardis intenções em irromper nossa salvação. E se arderem em fogo, o que posso fazer se já estão em chamas? São portadores de suas próprias escolhas em se importar demais com o que não lhes é devido.
Não se nasce para abraçar esse mundo por inteiro. Deus salve seu sangue derramado, mas o meu primeiro. Mantenha-se esperançoso e consciente. Espere sempre pelo pior. Por mais que seja uma coisa difícil em momentos tristes do passado, sonhos são como pesadelos, em que aprendemos a lidar com sua recorrência e ignorá-los ao acordar.
Deixe que temam, sofram, lamuriem. No conforto do estar, não perigam. Mas fechem as janelas no fim da tarde, impeçam a entrada de seus zumbidos. Garantam a paz onde reina o incólume escolhido. No fim das contas, as escolhas mais importantes são aquelas que desistiram de fazer.
Sérgio Loureiro