Foi quando vi seu sorriso, lá pelas duas da madrugada. Eu, cinzas de um homem amargurado com as pontas que me trouxeram até aqui; sempre costurando novas cicatrizes no peito; vivendo de farelos de mim. Foi também o teu olhar, levemente inclinado sob a luz negra que percorria seu rosto.
É esse seu jeito levemente inconsciente de domar meus sentidos, conduzir meu ar, drenar minhas emoções. Foi naquele instante, tive a súbita certeza de que iria alvorecer. Não sabia exatamente o quê.
Uma baleia, peregrinando pela vastidão líquida do ser. Solitária por magnitude. Ameaça inofensiva. Vivendo pelo absoluto dom de existir. Agora encalhada em seus arenosos carinhos. Sabes-me tão bem.
Na entrega permissiva, o desapego cria vínculo. A ponta dos meus dedos conhece cada centímetro sentido-percorrido pelo seu corpo nu. E nus estamos, entranhas abertas, visceral desejo de se dar. E dar, é dar aquilo que já não temos mais.
“Olha minhas pegadas, veja minhas marcas. O que faz de mim ser afim: êxtase momentâneo ou propulsão eterna?”. Acostumado com portas fechadas, de repente, um rombo. Logo eu, você bem sabe, temeroso pelo despreparo.
Agora são suas pernas – o modelo mais perfeito da anatomia humana. E são duas. Esses seus pés sempre tão fincados ao chão, brotando sementes por onde passas, criando raízes em meus dias. Já me questiono se há outro lugar para ir. Mas seus passos querem o além.
Eu reconheço esse seu olhar, conheço esse seu sorriso. Nadei até aqui. Vi o mar se deitar nesse seu lugar. São duas da manhã e seus pés estão massageados nas minhas mãos. Fugirás com o cair do luar, posso sentir. Devo colher as flores ao seu redor? Te faço um lanche para a viagem ou se alimentarás de sonhos do devir?
Eu pensei em tantas coisas para te dizer. Tantos porquês de não poder ir. Tantos medos que senti. E tantos sentimentos que não entendi. Entre todas, algumas são estas. Engarrafadas e jogadas naquilo que um dia foi mar. E talvez meu erro tenha sido admirar tudo enquanto poderia viver.
Talvez novamente, quando minha maré encher.
Sérgio Loureiro