memória fantasia

Hoje eu vi uma moça caminhando pela calçada. Meio perdida entre os vários passos, absoluta de sua incerteza, sem saber o que fazer da vida ou o que comer no almoço. Vi sua sandália rasteira de bordado rústico cintilar pelas pedras portuguesas, entre os sociais sapatos de engraxado noturno, os saltos altos para o abismo, as apertadas alpercatas reluzentes do menino e os coturnos. Sempre os coturnos. Todos afiados, relando a canela da moça que, não sei ao certo se com maestria e elegância ou se apenas por não perceber o que se passava ao redor, desviava sutilmente. Quis cutucá-la no ombro, chamar a sua atenção, protegê-la de todo mal circundante. Mas ao fazê-lo, a tiraria de seu universo mágico, de seu caminhar sereno, por mera intenção de chamar a sua atenção para mim. De dizer “estou aqui, vim te proteger”. Por mais que seja instintivo preservar a doçura de seus passos, era necessário vê-la seguir por si só, mesmo que caminhasse para longe, e longe, e longe de mim. Sabia que por mais companhia que fosse, era hora de ser admirador de seu caminho. Contive o heroísmo masculino egoísta e o que isso me permitiu? Um outro olhar sobre aqueles pés – que não sei como não se tocavam, diante dos olhos que sequer olhavam um palmo à frente. Olham para si. Não posso concluir se gozavam de profundidade filosófica ou se debatiam sobre o panfleto que acabaram de ver. Tudo naquela moça era intensidade. Seus cachos, ainda prematuros, lutando contra a natureza instável do “ser moça”, conquistavam arduamente cada centímetros no rosto doce da jovem mulher. Ornavam, e como ornavam, perfeitamente com o sorriso singelo, quase angelical, que quando brotava… Ah, florescia a luz em cada esquina. E fui seguindo, já também absoluto de minha incerteza, sem saber onde estava ou o que iria comer no almoço. Segui, pois, de repente, não havia nada melhor nada vida a se fazer, nem lugar no mundo para ir. Segui, pois algo latente em mim gritava “é aqui!”. Sem esperar nada, como sempre fiz, frui o seu caminhar vagaroso, suas pausas em cada flor de cor mais extravagante, seu observar diligente aos detalhes do gradil. Guiado pelo seu olhar perdido e seu sorriso luminoso, pude ter a certeza de estar no caminho certo de um lugar que nem sequer sabia existir. Estava imerso nesse peixismo que era nadar errante pelos mares da calçada. Sensível aos acasos rotineiros, os quais jamais havia percebido. Por falta de hábito, pensei. E como me veio, perdi. Não tinha mais moça. Não se viam mais seus passos. Nenhum sinal de seu sorriso. Nem mesmo notícias de seus cachos. E como essa poesia se destinava à memória de ti seguiu os passos próprios, a moça partiu. E eu, acordado, fiquei aqui com mais mais uma memória fantasia. Esperando o dia em que passe outra moça pela calçada que me faça levemente lembrar você e eu possa fantasiar sua memória, matar minha saudade. Até o dia em que as esquinas brilhantes me levem, enfim, até você.

Sérgio Loureiro

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