Foi o primeiro barulho ouvido na manhã daquela quarta-feira, doze de maio. Um estridente e assustador ruído. Semelhante aos rugidos das tartarugas-brancas-das-águas-do-norte, que vira pela primeira vez na noite anterior, assistindo a um documentário no canal de variedades ecológicas. Um caso raro da espécie, que ruge seu bramido apenas em situações de extrema ameaça – o que, aparentemente, tinha se tornado mais comum depois de “algo-envolvendo-garrafas-PETs”. Somente depois de coçar os seus ouvidos pôde abrir os olhos e verificar o tamanho da desgraça. Era abissal. Colocou os óculos para ter certeza do que a remela dos seus olhos lhe tentava impedir ver. Não enxergava nada sem a lupa de grau 3.8 de astigmatismo, ainda mais pela manhã. Mas era aquilo. Não havia como negar. Estava diante da mais esplendorosa manifestação divina da vida. Sua mísera insignificância jamais sequer idealizou um dia ter tal desfrute. Seu pensamento inicial foi imaginar a cena estampada nas capas dos jornais locais. Seria estrondoso. Renderia boas histórias no cafézinho do intervalo vespertino, na sala da Xerox. Finalmente os holofotes, Carlos. Seria o assunto da semana, sem sombras de dúvidas. Todos do departamento iriam querer sentar ao seu lado no ônibus, no fim do turno. Deveria comprar uma camisa polo nova, dar à rosa-salmão um descanso. Talvez azul-turquesa? Mas antes precisava certificar de fazer tudo certo. Não poderia perder ali a chance de sua existência. Eram sete e trinta e sete e já se via tendo duras decisões a serem feitas. Nada de pão mofado ou bolacha farofenta. Tivera o maior dos dejejuns. Sentia seu estômago nutrindo-se de partes inúteis de seu organismo em claro manifesto de apoio. Como se dissesse “vai lá, Carlos, eu seguro as pontas aqui”. Servido de uma xícara de coragem, o modesto homem a princípio estranhou o gosto amargurado da vida adulta. Após fingir costume, partiu, meio cambaleante, rumo à sua guinada. Já próximo ao fenômeno esferal, conseguia refletir sua imagem. Era lindo. Não a sua beleza física, disso já estava convencido há tempo, tinha aceitado sua condição esguia. Mas o fato o fez se sentir parte do fenômeno. Dois eram um. A inesperada afeição surtiu um momento de crise. Se via cogitando derrubar suas convicções de extermínio, já admitia poder viver com aquele ser ao seu lado. Deliberadamente, esperou uma mensagem do acaso lhe propiciar sabedoria magnânima. Nunca foi seu forte essa coisa de extermínio. Ou de tomada de decisões. Ou mesmo de documentários sobre as tartarugas-brancas-das-águas-do-norte, em canais de variedades ecológicas. Tinha perdido o controle, fazia tempo. Talvez por isso nunca trocara o canal da TV depois que ela partiu. Deus, como ela conseguia gostar dessas coisas? Foco. O problema ainda estava ali, debaixo do seu nariz, e nenhuma intervenção do além para ajudar. Tinha que resolver por conta própria. Ao se pôr novamente em posição de bote predatório, viu as imagens do seu sucesso se esvaindo. Despediu-se de sua glória jamais vivida.
Daí em diante vocês podem deduzir por conta própria. Não vou me ater aos detalhes sórdidos. Me poupem do nojo de narrar uma cena de uma espinha sendo espremida.
A história em questão ganha em profundidade quando se admite um universo onde a plasticidade tomou conta das pessoas. Seres plásticos. Perfeitos, esticados, emoldurados. Sem sinais de humanidade imperfeita, incorrigível. Seres plásticos, e por assim serem, adequados perfeitamente para o uso e o desuso. Descartáveis. Recicláveis – mas quem vai perder esse tempo? Carlos queria chegar no trabalho e ostentar sua espinha no rosto. Ia ser a sensação. Como as garrafas, as pessoas já se questionavam a real necessidade da essência plástica. Enquanto outros decidiam se gostariam de serem vassouras, conduítes, ou artesanatos hippies. Mas nessa distopia, não havia espaço para heroísmo. Carlos, que decidira ser uma linda mangueira para jardim após sua reciclagem, optou por ser mais um. Normal. Imperceptível. Inofensivo. Aparentemente. Como as garrafas PETs no oceano.
Sérgio Loureiro