Coração selvagem

Essa tarde eu fiz o meu ritual de felicidade. Me sentei no gramado, diante da baía de Guanabara. Contemplei, como sempre, o fato que ali se dava. Gaivotas, aviões e Cristo de braços abertos. Rasgando as densas nuvens coloridas de sempre. Pensei em uma teoria diferente sobre o mesmo assunto. O que se liga de um lado ao outro da ponte? O que se perde no caminho? O que se ganha? E se essa ponte falasse, que tipo de banda de forró ela gostaria? Que história ela tem para me contar? Mas não teve jeito. Havia em mim um sentimento de revolta. Consternado, tal um garoto mimado. Àquela altura, já me questionava absurdos. Teria valido a pena ter olhos e te enxergado? Falando em ver, me senti invisível. Imune à presença dos risos, das conversas altas, da fumaça dos cigarros ao meu redor. Foi vergonhoso quando dei conta que não estava só. E então dei conta de que, agora, só me basta estar com você. E de novo me sinto um garoto mimado. Todos me olham. Sou o único olhando para um pedaço de papel enquanto todos fruem do espetáculo do pôr do sol. E então levanto a cabeça. Os findos raios do dia queimam as maçãs do meu rosto, me ofuscam às vistas. Mas é lindo. E de repente percebo. É cedo para ter revolta. Ou lamúrias. Ou derrota. Ou qualquer outro sentimento e pensamento senão o denso e delicado amor que sinto por você. Tenro sentimento. Semeado, regado, enraizado nessa fértil terra que escorre entre meus dedos. E finalmente estou em paz. No lugar de sempre. Sozinho. Com você. Eu me reconheço. Confesso que mais cedo, no almoço, na pressa de escolher um copo para o mate, escolhi um menor. Percebi que foi uma escolha estratégica. Eu sempre vou encher os copos que me forem dado. Não sei ir só até o meio. És um copo dos mais lindos. E grande, sim! Mas já não estavas vazio. Eu fui descomedido, descompassado. Erro honesto. Sinto, então, novamente o ar da esperança entrando por minhas narinas, filtrando meus pulmões. E todo remorso, rancor estúpido, é perdoado. Só assim, leve, eu consigo voar. É bom te amar. É disso que eu preciso. Mais que tudo, mais que você. Eu sempre fui independente, mas não auto-suficiente. Você me deu energia. Eu te darei os dias, a confiança, os beijos, e o que mais quiseres. Porque te amo, e não posso nada além disso. Ser justo e te amar.

Sérgio Loureiro

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