Sempre existirá: contas a se pagar e um velho sozinho no bar.
MESMO, Eu
Vai chover. Posso concluir ao levantar a cabeça para o céu. Estava tudo limpo até poucos minutos atrás, e agora, tão de repente, essas nuvens cinzas e pesadas pairando nos ares. Distantes o suficiente para não nos atrapalharem, mas inegavelmente se fazendo presente, ali no cantinho. Às vezes é assim. Dentro e fora de mim. Talvez só mais uma cerveja.
No descer dos olhos, o apartamento apagado. O homem fumando um cigarro, escorado na janela. O que se vê de lá? Onde esse homem queria estar? Longe da chuva que ameaça cair, ou será que chove primeiro lá? Eu sempre tive um fascínio sobre homens solitários tomando sua cerveja em botecos. Principalmente velhos. Geralmente são. Seus olhares vazios. Sua parcimônia. Sua tranquilidade ao analisar cada detalhe com o máximo de desimportância. Talvez essa chuva seja só para amanhã, tanto faz.
Hoje eu sou o velho. Sentado em uma mesa, sozinho, em um desses bares da Voluntários da Pátria. Todos ao meu redor são jovens. Têm, basicamente, a minha faixa etária. Eu sou jovem. Não, não hoje. Hoje, sou um velho vazio tomando sua cerveja sozinho. Mas a falta de prática me chama a atenção rapidamente. Não tenho o olhar vazio: sou curioso, ávido para viver o meu próprio fascínio. Tampouco estou calmo. Olha essas nuvens! Claramente é tempestade e minha cabeça trovoa.
Será que sequer perceberam que estou sozinho? Um jovem, como eles, sozinho!? Ou para eles também sou um velho bebendo sua cerveja sozinho no bar? Imperceptível. Normalizado. Não, com certeza não. Percebo isso quando me vejo atento ao assunto da mesa ao lado. Uma menina de cabelo azul conta do dia em que, por algum motivo jovem, acabou tendo umas dessas peripécias de jovem no banheiro de uma boate jovem de Búzios. Têm boates em Búzios? Esse é o estopim para que todos na sua mesa contem experiências semelhantes. O jovem é tão jovem. Talvez levar um ou dois cascos e terminar de beber em casa. Aquele filme do Spike Lee vai passar no canal fechado que só exibe filmes dublados. Filme com chuva é infalível. Tomara que chova.
Já pela segunda garrafa, o susto. Na mesa ao meu lado – que até então havia sido tão somente um breve mistério instigado pelos meus olhos curiosos ao avistar uma mochila sozinha sobre a mesa – senta-se um velho. Trajando um belo bigode, ele abre o botão da calça e pega o maço de cigarro dentro da mochila sobre a mesa que despertara brevemente a minha curiosidade. Agora que não chove mesmo.
Pela primeira vez a tal parcimônia me incomoda. Eu sou o olhar desimportante e analítico do velho ao meu lado. Será que ele vê em mim um rival? Não. Talvez vê a si mesmo. Com quanto anos se passa a beber sozinho em bares? Bom, comigo foi aos 25. Mas não me lembro bem. O garçom não é simpático. Enche meu copo toda vez que passa pela minha mesa. A mesa ao lado, a do velho, é intocável. O velho tem o seu próprio tempo. Respeita. Mas eu, jovem, como não beber freneticamente? Ah, velho! Quando talvez nem tu quisera estar em teu couro, eu quis. Quis a sua parcimônia. Quis o seu desinteresse. Quis o seu cigarro. Quis até o seu bigode. Quis te perguntar qual o segredo de beber sozinho. Quando vou acalmar e deleitar os goles da vida? Ou mesmo da cerveja. Eu sei que tu me vê, mas será que te vejo? Quando te ver, me verei?
O velho, talvez cansado do meu olhar penetrante, completamente se importando com os fenômenos arredores, se levantou. Pagou a conta e saiu. Da forma que veio, foi. E eu fiquei. Talvez herdado o seu trono. Talvez agora estejamos todos carentes de um velho a nos analisar desimportantemente. Queria ter falado com o velho. Queria ter escrito um texto à altura do momento. Mas quis ser fenomenologia. Sou um velho, não tenho mais tempo. Tenho meu próprio tempo. E vai chover.
Sérgio Loureiro