Acalma-te, coração! Para quê essa pressa de viver-sentir aquilo que já se tornou inevitável, sujeito abestado? Viva a constância dos teus sentimentos como um ponteiro de relógio. Aprenda com o tempo, coração! Seja intenso, mas seja eterno. Seja sereno e essa neblina que te rodeia será, também, você.
Vai arrudiar noites de deserto, mas sempre chega o mar, coração. Vistoso, grande, imponente. E tu, sertanejo, há de entrar, visse? Sem perreio, nem estripulia. Dane-se que tu não sabe nadar, que nunca viu pedaço de água tão grande. Vai entrar, sim! E, sem arregar, vai se afogar.
Coragem, coração! Oxente, home, n’era isso que tu queria? Pois viva, cabra. Sinta as trinta e sete borboletas que acasularam-se em suas cavernas e cavidades. As dê nome. Voa com elas, sem medo de cair. Sobe nesse vulcão e se derrete todo. Seja lava e ventania. Não bata, mas apanhe com maestria.
Tu não é jagunço, home? Pois pegue em armas! Atire para todos os lados em legítima defesa de acertar outro coração vazio e preenchê-lo com as mais belas de vossas intenções.
Perdoe-se, coração! É assim mesmo, a gente aprende errando. Pior seria não ter se entregado e vivido aquilo que tu achou que era – e se fosse, seria porreta. Quem perde são eles, coração, de não querer o tanto que tu quis dar.
Levanta essa cabeça, coração. E não leva tuas dores pra próxima vez. Seja eterno aprendiz, pois nenhuma experiência humana o faria pronto para o que está diante de ti. Sim, bicho! Levanta essa cabeça e dá uma olhada nisso aqui.
Palpita, coração! É tudo de novo, sô! É estardalhaço, é euforia. Calor e frio, vira e mexe dá nisso. Sacode, se joga! É carnaval em pleno meio junino. Anarriê! Oxalá! Voltou tudo para o seu lugar.
O sertão foi ao mar! E diante da inevitabilidade deste encontro – que chamo mais de poesia do que de coincidência e que até o destino aguardou -, creio que estaremos usufruindo dos deleites divinos do amar. Haja mar!
Corre, coração! Convoca a tua artilharia, reúne teu exército nos campos de batalha. E proclama sua resistência pacífica. Se entrega. Litoralmente falando. Tu saiu do árido sertão da dor e da culpa para cair em mares de ternura. Chega dessa vida cigana, home. Estende a sua rede, coração. Aqui, vamos ficar.
Sérgio Loureiro