Dia desses, tive uma visão. Podia ver populares aglutinados esbravejando palavras que, daqui, não pude compreender. Suados, amontoados, abarrotados, sujos. Da sacada, mais parecia uma marola vermelha. Vermelha, como a onda de pânico que pintamos às ruas; mas distante da grandeza de nosso sangrio mar. Não obstante à calamitosa situação, convoquei, novamente às pressas, os executores oficiais a fim de resolver esta questão.
Para pôr fim à balbúrdia, segui os conselhos do Bobo. Cortem tudo! Cortem as bolsas! As amnióticas, os embriões prodígios! Ceifem os caules, os troncos, as copas. Tirem o mal pela raiz! Um corte seco e certeiro, como de uma foice. Não, foice nunca! Balbuciei. Um lapso, equívoco. Isso nunca existiu. Onde vocês viram? Não se pode acreditar mais em tudo.
Voltemos ao que interessa, a cissura. Por toda parte, dizem que é abusivo, ilegal. Ora, quem nunca podou uns galhos podres não entende nada de vernissage. Jardinagem! Esse negócio de ecologia nunca foi a minha, prefiro a pecuária. Adoro um gado.
Esse barulho todo perto do Palácio não me incomoda, mas é chato. Meu sono já não está lá muita coisa. Parece que eu carrego 39 kg em minhas costas. Amanhã mesmo vou baixar um decreto contra alguma coisa aí que tire essa gente que não me deixa em paz. Talvez um muro. Me parece original.
Sérgio Loureiro