Eu tenho para mim que a vida não passa de uma eterna estação de trem. Vazia, solitária, inspirando ansiedades e saudades. A gente nunca sabe ao certo se devemos entrar no trem. Até entrarmos. E descermos em uma nova estação. Vazia, solitária, completamente diferente da outra, mas… tão idênticas. A graça talvez esteja na viagem. No olhar a paisagem passando rápido. Nos esforçarmos, em vão, para olhar a vegetação, o trilho que vem e já foi. A gente é passageiro. Nem mesmo maquinista da nossa própria embarcação. Sem direito a comes e bebes. No vagão popular, sonhando em um dia estar no vagão deluxe. A troco de quê? Estamos sempre tentando provar algo a alguém.
Num desses vagões, dei de parar nessa estação. Os morros daqui são iguais ao do cartão postal que agora tiro do bolso do meu casaco. Talvez eu tenha chegado aonde sempre quis estar. Uma completa idealização burguesa, sem fundo racional, sem explicação lógica, sem juízo, nem valores. Dei de parar aqui, onde sempre quis estar. E não nego, é tudo diferente. Exceto pelo vazio e pela solidão. Pela euforia e pela saudade que me acometem. Mas agora que o postal é apenas um pedaço de papel e me ponho diante do real, inevitavelmente me pergunto: a troco de quê estou aqui? Estou tentando provar o quê à quem, mesmo?
Não sei, sabe… É que lá eu já conhecia, já era conhecido. Naquela estação todos me cumprimentavam. Falavam o meu dialeto, me entendiam. Nem riam de mim, porque assim teriam que rir de si. E riam, se preciso fosse. E se não fosse, riam também. Ô povinho alegre. Era vazio, mas tão cheio de gente. Tão cheio de mim. Aqui, nessa solidão, me esbarro em correrias, em xises chiados, em gritaria gratuita.
Não estou querendo dizer que vou pegar o trem de volta. Mas quero dizer que sair foi o pior erro que já cometi. E nada no mundo, nem mesmo a melhor paisagem, há de apagar ou compensar esse erro. Mas saí. E nunca saí. Vou carregar o peso de uma terra e seu povo por todas as estações que der de parar. Vou andar curvado, cabisbaixo. Vão esbarrar em mim. Vou olhar os cartões postais no bolso. Vou desejar parar de desejar. Esse negócio não é para mim.
Sérgio Loureiro