Processo obstétrico

A dor ardia adulando o peito determinante à procura do dolo. A culpa cristã, catequizada em candelárias de cristais quebrados, não contemplava o consolo. Nada se cria. A criatividade é posta à prova. A poesia, sempre subserviente, é alçada à sua única sobrevivência. Reverberar as vértebras do intestino, regurgitando verbos, pronomes e palavras perdidas em vazão arterial. Pulsam proliferações prolixas. Bate! Bate! Apanha. Ferimentos que fedem mas já não mais sangram.

Assim, sofria a pobre poesia. Escorada à calçada, prostrada em desgraça. Sempre à postos do acaso, próxima demais de mais uma porta fechada. Sem fé, sem rei, sem leiSem amor em demasia. Apenas ninharias niqueladas arremessadas em seu chapéu. Sem olhos, sem sorrisos. Sem bom-dias. Nem mesmo sob o véu. Rosto? Apenas metalizado, de algum imperador romano.

Seu entulho entalado nos dedos lapidava o espólio de sua sanidade mental vigorosamente larapiada pela tesoura do destino. Tesoura que rasga as sedas do desejo e do viver. Corta as entranhas dos sonhos inócuos. Ceifa os risonhos. Extirpa o amanhecer a ferro, fogo e carne viva e o faz viver em constante escura solidão. Uma prisão particular, a mais cruel. Tesoura incapaz de evitar o tesouro parido.

Do nada, se cria. Do ventre, o véu se dissipa. Celebra, povo, a vida! Nascimento eldorado de mais um destino fadado. Alegria, alegria! Bate! Bate um novo coração que sangra. A retumbante tristeza afundada em cacos, afogadas em trapos, testemunhava sua redenção.  Mais uma poesia que é escrita. Jamais será lida.

Sérgio Loureiro

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