foi você quem disse, às doze e meia da tarde, que o amor verdadeiro reside nos pequenos detalhes. as suas mãos, se esfregando na barra da saia de tricô que sua mãe fizera, enxugavam o labor matriarcal do desjejum vespertino. as suas pálpebras, levemente avolumadas, ressaltavam a fadiga maternal que despertara seu sono, matinalmente às cinco para seis. o desgrenhar do seu cabelo evidenciava os estresses femininos, antes hormonalmente explicados. os seus lábios tremiam no gaguejar de sua imposição. seus olhos miravam a ancestralidade de sua fala. a tua pele reluzia a dor. o teu seio, farto de dolor. o teu dedo enrustido apontava os nossos dejetos. os defeitos, os jeitos maledicentes. mal feitos. haviam tantos detalhes – e já não eram pequenos entre a gente -, que a sua frase não fazia mais sentido. o amor verdadeiro reside na comunhão. no comum não a tudo. no comum sim. na unção do meu com o teu. no entender de onde viestes e para onde vais. e qual meu lugar em teu caminho. chore. mas chore como um dia chuvoso. escreva uma carta: de uma mulher para um homem. lembre-se do que esses braços já seguraram. e os faça de asas. em um dia chuvoso. onde pássaros ficam em casa. se dê a chance de ser: além da chuva.
sérgio loureiro