talvez Drummond me entenda

em mim, agora, tudo falta. você sobra. nesse meu vácuo em que você transborda, abri as janelas e portas para sorte entrar. no meu vaso vazio de terra, tu és a flor de plástico que orna perfeitamente com os meus sentimentos. reais. imortais. recicláveis. deixei a porta aberta e por ela entraram vespas que, em meus ouvidos, zumbem fragmentos de memórias, trechos de histórias em que um narrador ao fundo diz “esses foram os dias mais felizes de sua vida”. e absolutamente todas as músicas que você colocou naquele domingo de sol agora têm seu rosto, seu cheiro, o barulho da sua risada. e eu não tenho a mínima ideia de como resolver essa situação. tampouco tenho interesse em resolvê-la. tirar você de mim é tirar a única parte que, nesse instante, se manifesta. entenda, você é tudo que interessa. necessariamente a razão de tudo: desse canto absurdo, esse grito no escuro, desse indagar vazio, esse meu viver arredio. coitadas das vespas que vagam ao léu em busca do néctar e se deparam com flores de plástico. todo mel fora levado em seus olhos, junto com um punhado de coisas que não tive tempo de entender ou dar nome. coitado do homem que vai atrás de mandinga de amor. coitado do homem que nunca te amou. este, é um infeliz de desafortunado fadário. pois não há cousa mais inevitável, força mais imponderável, do que te amar. ao súbito tocante dos olhos, o destino traçado. nada pode um ser, se não, diante de ti, amar. há mais perigo em teus olhos do que em vinte punhais.  há mais certeza da morte em homens vivendo paixões fatais. e agora que estou lendo nossas conversas, as cartas que nunca recebi, as que nunca assinei, as mensagens que fiz você rir, as que, para isso, chorei, me pergunto: quando foi que virei tão melodramático? cardíaco. enfático. o que é fato, é que o amor só é bom se doer. eu, que sequer tive tempo de conhecer meu Orixá, passei o últimos meses em adoração expectante, amando o inóspito, o áspero, um vaso vazio de terra com uma flor de plástico. e a casa vazia orna com meu peito, com o vazo, com a flor. nesse momento de farelos, retorno ao pó. meu necrológio pendurado no tempo estampa a seção fuzilaria dos jornais. a minha autópsia revela minhas tripas sentimentais. aço frio de um punhal, foi o teu adeus para mim. e as memórias são retratos velhos em retalhos de cetim. mas se queres ir, pois que vá! vá de uma vez por todas. fuja do Brasil, para longe de mim. e não me ouves. pois este é só mais um lamento tardio. se não sou inteiro, sou apenas a metade sua que partiu. e que nosso amor seja como o mar, que supera a calmaria em ânsias de tormentas e que hoje nos separa. diante de seu raso esplendor, contemplo a sua imensidão, me torno perplexo por natureza. me afogo, pois nunca soube te nadar. O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

sérgio loureiro

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