colírio colorido

deixa ver
o que reluz antes do raiar
o que o desgrenhar do meu cabelo aponta
duplas pontas, triplas intenções

perceba
o movimento migratório dos pássaros
o translado torto dos barcos
o transitório desenfreado dos carros

olhe para os lados
uma sutileza cintilante
sua silhueta aconchegante
nem todas as palavras poderiam dizer
o teu cabelo no meu peito

na areia da praia deitei em seu colo
pus-me a amar o mar que não me banha
a língua que me estranha
os malamares e maleditos

era tão simples viver
quando as coisas não continham você
mas eu não me lembro bem
ainda não tinha, para o amor, nascido

eu era sutil até te encontrar
depois, então, exuberância extravagante
notório manifesto público
bandeiras e cartazes

sobe pelo cerne
sobressai  a derme
arrepia a pele
até o dia em que der-me na cabeça
a súbita ideia de ser teu
para todo dia que vier

hoje eu dormi de lente
mal posso ver um palmo
mas estou calmo
pois no colírio dos teus braços
até o escuro é colorido.

sérgio loureiro

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