certos momentos e circunstâncias são tão especiais quando vividos de maneira rara e devida, que causam um breve deslocamento espacial temporário. como nesse instante, em que me sento diante da minha antiga mesa de escrever. afundado em palavras rasuradas nas páginas amarelas do caderno, sou levado ao remoto ponto quando estive sentado em uma mureta, e o mundo parecia um plano perfeito nesse caos moderno. sei que sou herdeiro de uma sociedade incapaz de lidar com o desapego, com a ausência, com o sentir o não-sentir. e casa ainda além de ser um jovem brasileiro, de língua portuguesa, a qual resume todo esse devaneio em uma palavreta e nela garante a sua profundeza. jovem egresso da particularidade do território delimitado, zeloso por privacidade que agora sufoca. nessa falsa tendência imposta pela convergência, possibilidades múltiplas fazem presença. de certos gozos gostaria de me reservar. dizem para deixar disso, me atualizar. o disco se virtualiza, e essa lista tem seu cheiro, seu sorriso, e a flor do seu cabelo que jamais desbota, mas aflora em mim um sentimento convictamente brasileiro. e assim, as convicções do mundo e das coisas mais antigas, saíam da tua voz em tons vívidos, tão apaixonantes, tão engajados, como tudo se precisasse de renascer na língua aguda de seus sotaques. assim, ias enfileirando livros, manuscritos, as cartas longas que te escrevi, as várias canções do devir. e dos teus gestos se elucidam mais convicções que tais palavras. ouço teu sono distante numa cidade ainda mais distante. não há controle sobre a vida. mas remoto, sim. eis me aqui, tanto quanto aí. removido fui, do curso que me atraquei. posto e disposto, a gosto feito um encosto – e talvez até fosse, talvez até seja -, brinquei com as convicções, com o sentir, com o viver. você tão certa das verdades que acabara de descobrir, enxergava em algo uma fonte que a ti já transbordava. e na calada, quantas perguntas foram alçadas ao vasto infinito? quantas ecoaram seu estribilho? qual a virtude do virtual? qual o sentido do real? qual a razão entre o bem e o mal? aqui estou. estatelado em mim, estrelado nesta noite sem fim. desesperado para convencer-me que estou – e talvez até esteja, talvez até fosse -, e sendo negado a cada segundo por uma impermanência. permanente. acho que foram suas as palavras que mais disse, como essas. não sei mais onde começo e onde terminas. mas enquanto não chega o dia em que os últimos serão os primeiros, eu me pergunto o que acontece com quem luta pra ficar no meio. em meio à penúria e à penumbra. ao pé do abismo, olhar para baixo é difícil. é olhar para si. para seu próprio pé. e, então, ver o abismo olhar de volta. os meus pés, troquei pelas mãos que agora escrevem tais confusas confissões. e ao passo em que faço o compasso das letras, vou percebendo o árduo labor ao qual atribuí meus calos. é o que ainda nem existe. é o sol em plena noite. é o perjúrio que persiste. o perdão antes da culpa. o ponto fora da curva. desejo que no final de junho o vento cortante traga-me meu sudário para perto do mar, onde os pequenos barcos fazem ondas que chegam em vibrações. e que ondas, vibrantes, ou não, particularmente se conformem em inquietação. e que a saudade, seja só uma palavra perdida no mar de outras tantas portuguesas.
sérgio loureiro
esse registro é meu, somente meu. único e inviolável. como o tempo e a consciência eudemônica presente em seu nome na minha agenda telefônica.