rua Campos Salles, 137

As coisas pareciam acontecer como ocasionalmente acontecem de maneira regrada, todo santo dia. O mesmo vagão do mesmo metrô lotado das 10:20, na estação Afonso Pena. “Como pode, uma hora destas, o metrô estar lotado?”, me pergunto. “Que tipo de gente enfadonha é essa que pega metrô às 10:20? Que tipo de horário insosso, chocho, pífio, é este?” Tarde demais ou demasiado cedo. Nunca no seu próprio tempo certo. Um horário que tem seu valor atribuído mediante outros horários. Me pergunto, então, se não é algo pessoal. Uma perseguição cosmológica, astral. As coisas realmente têm dado muito errado ultimamente, de certo que ofendi alguma divindade orgulhosa demais de si. No sanduíche humano metalizado, eu era a carne espremida por um homem e uma mulher. Eles se davam costas e me esmagavam, extraindo de mim o sulco da ojeriza matinal. Naquele momento, meus pensamentos já remetiam minha adolescência. Procurava descobrir em que momento da vida encaminhei meus passos para o escritório da Av. Nilo Peçanha. Para a dor de coluna, a dor de cabeça, para o estresse, o sobrepeso, a calvície. Para o ibuprofeno, a piridoxina a nimesulida, a ocitocina. Para o vício em café, os almoços no fast food, os fins de semana dormindo. De repente, algo tão trivial quanto coçar o nariz me chamou a atenção. Os dois pães, o homem e a mulher, sequer notavam a vida escorrer por meus olhos. Cabisbaixos, empunhavam seus celulares com o vigor que mais tarde causaria inveja aos seus filhos. Ambos no aplicativo de relacionamentos. Incapazes de se esbarrarem com intenção. Tropeçam no limite do virtual. A “sensação de” se torna a coisa em si. “O que nos trouxe até aqui?” A esse metrô lotado. A esse profuso movimento de pessoas caminhando para lugar algum, ofuscados pelas luzes digitais. Telas não são placas. Esse metrô está vazio. Há muito espaço aqui. Há muito espaço em mim. Pois agora meus pensamentos me levam ao teu sorriso. Venho me locomovendo comoventemente aos esmo, ao abismo, ao abraço. Há muito espaço para o sentir. Há muito espaço sem ti. Espero que esse metrô lotado um dia me leve de volta para teus trilhos. E que nos guie na trilha do destino, que lá fora nos parecia desafio, mas aqui dentro, somente nós podemos sentir o seu vento frio. Nesse caminho de migalhas, estou colhendo os farelos para te encontrar inteiro. Como espero que os pães que me cercam procurem encontrar sua própria proteína. Subitamente, passei a me afeiçoar a cada corpo vivo, desafiantes da física, nesse vagão. As cabeças podem estar perdidas, mas estão todos com o coração no lugar certo. Apesar de toda a limitação (do) real que redescobri ao ter intenção afetiva com carboidratos, percebi que o mundo era mais que minha casa na rua Campos Sales, 137, Tijuca. Foi um dia bom.

Sérgio Loureiro

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