Inspirado em O dia que Júpiter encontrou Saturno (CFA).
Um toque do destino. É o que costumava esperar, toda vez que levantava-se da cama, cedo pela manhã. Sedento pelo gole de vida que não fosse fraco como o seu café. Ele, um moço branco dos sentimentos vazios, perdidos nos passos que dera sem saber onde chegar, com a gola da camisa amassada e sem saber se era loura ou ruiva a sua barba. Odiava cafés, mas os achava necessário. Aquela manhã, especialmente. Era o ‘Dia D’. Tinha previsto mudanças, faria tudo diferente. Só não entendia o quê.
Impelido pela coragem que não possuía, trocando as chaves toda vez que tentava sair de casa, certo de que ouvira o rádio falar: “abra a porta, saia correndo. Compre flores, um chocolate, ou escreva uma bela canção!”. Não entendia nem mesmo porquê sentiu um avalanche no peito. Nunca fora chegado a chocolates. Também havia deixado de querer entender, fazia tempo.
Ao entrar no ônibus, envelope debaixo dos braços segurados com o afinco de quem carrega a vida em um pedaço branco de papel, sentiu um toque em seu ombro. Talvez por estar com a cabeça baixa não pôde ver a moça de vestido florido, sandália rasteira e um olhar que invadia o espaço caminhando em sua direção. Levantou a cabeça subitamente e, contra a luz do sol, apertou os olhos se esforçando para ouvir as palavras que saíam da boca da moça, lhe pedindo licença para se sentar.
Sem esboçar algum entendimento, ele rapidamente virou-se deslizando sobre o assento, permitindo a passagem. Os olhos incrédulos vidrados, ridiculamente parecia uma estátua. Voltou à sua posição original, mas algo nele não havia voltado. Nervoso, tudo que desvendava era com disfarçados movimentos de canto de olho, que julgava sutil demais para serem notados. Talvez por estar sem a cabeça no lugar, não viu, mas amassara o envelope com suas mãos.
– Espero que não seja importante.
– Quê?
– O envelope.
– É só a minha vida.
– Então eu espero mesmo que seja importante. Fica melhor assim.
[silêncio]
– Você gosta de chocolate?
– Que pessoa eu seria se não gostasse de chocolate?
– Uma pessoa única, é fato.
– Isso é bom?
– Eu não sei, deve ser.
– É sim. Bom encontrar você.
– Também acho.
[silêncio]
– Está muito calor. Todos os meus chocolates estão derretendo.
– O dia está lindo para a praia.
– Mas você está de jeans.
– Eu não faria disso um problema.
– Então vamos à praia.
Um toque do destino. Na sua cabeça, não entendia. Quantas vezes pegou o mesmo ônibus, sentou-se no mesmo lugar, vestiu a mesma calça? Tinha feito a mesma coisa nos últimos meses, queria fazer diferente. Trocou a expressão surpresa por um sorriso confiante.
Desceram em uma rua que ele não reconhecia, mas podia apostar já ter estado ali. Seguindo seus passos, logo atrás, ia acompanhando a moça contar histórias sobre como tinha conseguido uma condecoração da Cruz Vermelha, aos quinze anos, publicado um livro aos dezesseis, e o porquê de não comer carne e só comprar roupas usadas.
Não sabiam mais se haviam se passado duas horas ou dois anos, mas haviam mergulhado nas histórias um do outro. Sentados nas pedras do Arpoador, parado, ele ria sozinho. Ria sozinho quase todo o tempo, sem entender nada. Enquanto ria, ela admirava o seu sorriso, sempre com um olhar compenetrado. Com os pés balançando uma coreografia ensaiada, eles se olhavam. Vistos do mar, os dois pintados em melodia singela, sob a névoa salina e a espuma nos pés. Quem sabe, talvez, porque não evidenciavam nenhum perigo, os dois pareciam tranquilos, e até estavam, só não entendiam nada. De repente, o primeiro beijo, o primeiro toque de mãos, o primeiro olhar acolhedor. Nele, um medo de estar vivendo um sonho. Nela, um medo de ser outra roda-gigante. Ele não queria acordar. Ela queria parar o tempo na parte mais alta, apreciar a vista.
– Eu gosto de sua barba. Ruiva.
– Tem certeza que gosta? Estou certo que é loura.
– Ruiva. Guardando muitos raios de sol entre os fios.
– Você fuma?
– O quê?
– Maconha.
– Não gosto de pensar que estou financiando um sistema que traz dor e sofrimento para muita gente.
– É da Bahia…
[silêncio]
Ele nunca soube ao certo se era um homem brincando de menino, ou se um menino bancando ser homem, mas entendia que pensar aquilo fazia muito sentido na hora – por mais que pensar qualquer coisa além de como aquele sorriso havia lhe prendido era desperdício de tempo.
O mundo gira. A vida gira. O ponteiro do relógio gira. A roda-gigante gira. O girassol, sentado na janela, gira. O sol se punha sobre o duro concreto dos prédios. Um gato subia na estante de um apartamento. Se olharam.
– Você pode ir, eu não sou bom de despedidas.
– Eu não tenho para onde ir.
– Se formos juntos, não haverá despedidas.
– Vamos para a Bahia. Depois, Paris.
– Eu vou para Paris.
– Eu vou para a Bahia.
– Me leva contigo.
– Me leva contigo.
[silêncio]
– Eu sempre quis conhecer o verde dos gramados campos de lá.
– Eu te mando um cartão de lá.
– Eu te mando um cartão de lá.
– No meu cartão vai ter um parque e uma cafeteria atrás.
– No meu cartão não vai ter parque, só o mar.
[silêncio]
– Vou te escrever uma poesia e não mandar.
– À noite, quando o frio bater e eu for dormir, vou me lembrar de você. Tentarei me lembrar do seu rosto. Sem conseguir, porque terei esquecido.
– Vou procurar seu sorriso em outro lugar. Pensarei se eu o encontrei ou o perdi.
– E que cada palavra e gesto, seu ou meu, cumpriu nosso roteiro.
– E que os livros que lia, eram sobre você. As coisas que escrevia, sem te conhecer.
– E se isso tudo for um cliché?
[silêncio]
– Tinha medo de nunca mais amar. Acho que eu acredito fundo demais no amor. Mas tenho um medo que vai mais fundo ainda na solidão. Mas te encontro aqui e parece que faz sentido. Que a gente se preenche de sentimento. Que as palavras mais clichês são uma bênção. Que nos abraçam. Arrancam sorrisos. Quero compartilhar a minha vida. Quero que você faça parte dela.
– Quero te dar a mão e nunca mais soltar.
– Quero olhar para elas enrugadas e lembrar de como eram jovens e delicadas. Como empunharam-se para chegarmos até aqui.
– Como tínhamos medo e abandonamos ele no meio do caminho, porque não fazia sentido levar conosco.
– Quero rir lembrando dos tropeços que demos, das histórias que vivemos, das loucuras que fizemos.
– Quero te olhar nos olhos até que essa seja a última coisa que farei na minha vida.
– A gente se cuida, se ergue. Cai junto. Luta. Muita luta! E que lutemos pelo futuro mais doce. Palatável.
– Eu menti. Não gosto de doce.
– Você é o único.
– Mas não estou só.
[silêncio]
– E as crianças. Nascidas de poesia. Não perfeitas, como a palavras de um poema apresentado. Crianças de poemas em papéis confusos e rabiscados.
– Como meu envelope.
– Como a vida.
[silêncio]
– Penso se um dia irei me acostumar com as coisas que hoje eu ponho a mão na cabeça. E nesse costume, continuar me surpreendendo, me apaixonando. Me entregando.
– Vai. Porque vamos juntos.
Voltando pra casa, ele não sentiu a saudade absurda que imaginou sentir. Não veio a gargalhada e nem o choro compulsivo que esperou ter. Não se sentia voltando, mas tinha certeza ter ido. Ter chegado em algum lugar. E esse lugar, imagina, é o lugar que todo ser vivo busca um dia encontrar. E lá estava o moço branco de sentimentos plenos, trazidos pelos seus passos, com a gola da camisa amassada, mas certo de ter uma bela barba ruiva. Sentado, estava diante do esplendor de sua existência.
Novamente no ônibus, agora sozinho, sem envelopes nas mãos. A madrugada cortando a a Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Luzes de festas pelas janelas, luzes às pressas. Foi invadindo a noite e a cidade em uma viagem só. Mil e um pensamentos. Os olhos vidrados, sem entender onde estava.
Fechou os olhos. E via os azuis dos mares. Os traços fortes, as marcas da vivência. Via os pássaros, os peixes, as árvores, tudo que era vívido naquele lugar, terem um temor de novos visitantes. E pela primeira vez entendia. Entendia porque tinha feito a mesma coisa todo dia, entendia porque alguém tão ávido ao seu pertencimento escolheu viver em um ambiente hostil à sua origem. Entendia que havia caminhado com passos certos, feito o que deveria para estar naquele lugar. Havia vivido para aquilo. Havia sido camelo, atravessado o deserto, para esse oásis. E não lhe passava na cabeça uma possibilidade imaginável de querer estar sozinho agora. E não era necessário a coragem. Já tinha a certeza.