Coração selvagem

Essa tarde eu fiz o meu ritual de felicidade. Me sentei no gramado, diante da baía de Guanabara. Contemplei, como sempre, o fato que ali se dava. Gaivotas, aviões e Cristo de braços abertos. Rasgando as densas nuvens coloridas de sempre. Pensei em uma teoria diferente sobre o mesmo assunto. O que se liga de um lado ao outro da ponte? O que se perde no caminho? O que se ganha? E se essa ponte falasse, que tipo de banda de forró ela gostaria? Que história ela tem para me contar? Mas não teve jeito. Havia em mim um sentimento de revolta. Consternado, tal um garoto mimado. Àquela altura, já me questionava absurdos. Teria valido a pena ter olhos e te enxergado? Falando em ver, me senti invisível. Imune à presença dos risos, das conversas altas, da fumaça dos cigarros ao meu redor. Foi vergonhoso quando dei conta que não estava só. E então dei conta de que, agora, só me basta estar com você. E de novo me sinto um garoto mimado. Todos me olham. Sou o único olhando para um pedaço de papel enquanto todos fruem do espetáculo do pôr do sol. E então levanto a cabeça. Os findos raios do dia queimam as maçãs do meu rosto, me ofuscam às vistas. Mas é lindo. E de repente percebo. É cedo para ter revolta. Ou lamúrias. Ou derrota. Ou qualquer outro sentimento e pensamento senão o denso e delicado amor que sinto por você. Tenro sentimento. Semeado, regado, enraizado nessa fértil terra que escorre entre meus dedos. E finalmente estou em paz. No lugar de sempre. Sozinho. Com você. Eu me reconheço. Confesso que mais cedo, no almoço, na pressa de escolher um copo para o mate, escolhi um menor. Percebi que foi uma escolha estratégica. Eu sempre vou encher os copos que me forem dado. Não sei ir só até o meio. És um copo dos mais lindos. E grande, sim! Mas já não estavas vazio. Eu fui descomedido, descompassado. Erro honesto. Sinto, então, novamente o ar da esperança entrando por minhas narinas, filtrando meus pulmões. E todo remorso, rancor estúpido, é perdoado. Só assim, leve, eu consigo voar. É bom te amar. É disso que eu preciso. Mais que tudo, mais que você. Eu sempre fui independente, mas não auto-suficiente. Você me deu energia. Eu te darei os dias, a confiança, os beijos, e o que mais quiseres. Porque te amo, e não posso nada além disso. Ser justo e te amar.

Sérgio Loureiro

#7

Sete anos os vivemos
No encontro em que até o destino espera
Foste a doçura, o açúcar no café da manhã
Foste as crianças sonhadas em papéis amassados.
Sete vezes nos perdemos
Na tênue linha do medo e da entrega
Foste o abraço desamparado, a tentativa vã
Foste a mão fechada, o punho cerrado.
Sete palavras dissemos
Tudo isto um dia vai acabar
“Não quero estar aqui, nesse lugar”
A sétima sempre era amor.
Mas pela sétima vez
Foste a última.
A mais amarga.
Infértil.
Abrindo as mãos
Para o amor assassinar.

Sérgio Loureiro

Locomotiva Comovente

Locomotiva comovente
leva comoção à toda gente
segue locomovente
locomovendo-se rapidamente
comovendo de repente.

Olha que reluzente
seu locomover diferente
acorda o povo, vem ver de frente
a loucura comotiva de sempre.

Locomotiva comovente
vai passando rente
meio locomotiva, meio gente
e, como gente, vem do ventre.

A comitiva vem quente
a locução contou os presentes
efervescência comovente
toda gente locomovida loucamente.

E nessa loucura, minha gente
somente locomotiva comovente
acha um jeito diferente
de mexer com a gente profundamente.

O seu chiado estridente
anuncia o futuro iminente
quem correu, ficou na frente
quem não, locomovido se sente
por não ser um vivente
da locomoção comovente.

A locomotiva comovente
segue seu rumo movente
resiliente, há de voltar novamente
quem sabe esporadicamente
enquanto a gente se reinvente
um motivo diligente
para mais uma paixão latente
vir com a locomotiva comovente.

Sérgio Loureiro

Amarelo e Vermelho

eu sou camelo
tu, passarinho
eu caminho pelo deserto seco
tudo que vejo é o amarelo do pó dos dias que deixei para trás
tu voas pelo céu
rasgando o vento até o vermelho do pôr do sol
eu vejo as múmias do que ficou
tu sentes o sopro da vida beijando as maçãs de seu rosto
eu provo do árido desejo
tu tens o frescor dos novos ares
mas quem atravessa o deserto,
quem caminha quilômetros,
consciente de sua natureza camela,
sou eu
enquanto tu temes voar para o desconhecido
temes perder o galho que chamou de abrigo
esquece que, como passarinho, seu destino é voar
e meu amor, passarinheiro
encontrou em ti, camelo
e de repente, amarelo e vermelho
combinam
basta ver
no vento uivante, no deserto escaldante
no nosso lugar.

Sérgio Loureiro

La Partida (As Cartas Jamais Escritas)

Gracias, Che!

Minha Querida,

O que se perde ao cruzar a fronteira?

Cada momento parece dividido em dois, vivido em dobro. De um lado da placa, a melancolia do que ficou. Do outro, o entusiasmo pelo que virá.

Parece que me sinto assim agora. Consternado pela junção de sensações que invadem o meu peito. Meu coração não bate, só apanha. E assim prefere, do que sujar suas mãos. São tapas de amor, os que a vida tem me dado.  É bom estar aqui, como é bom ter, em outros cantos, estado.

Como posso sentir nostalgia pelo que ainda não vivi? É assim que me sinto estando aqui. Somente esse pensamento e o barulho da sola desgastada do meu sapato sobre os cascalhos da beira da pista pairam sobre minha cabeça. Ainda não floresceu a sua primavera. Apenas aponta à distância na reta da minha estrada. É, novamente, a única luz que eu vejo quando acho que já passara da hora de me acostumar com o escuro. Não que meus pés estejam cansados de caminhar, mas aceito a sua carona.

“Ese vagar sin rumbo por nuestra Mayúscula América me ha cambiado más de lo que creí. Yo ya no soy yo, por lo menos no soy el mismo yo anterior.”

– Che Guevara

Passando pelos Alpes, vi um rio. O branco da neve nas montanhas margeava o límpido azul das águas. Paisagem que nenhum cartão postal poderia capturar. Decidi acampar à beira do leito. A fogueira queimava mas não esquentava o que sentia por dentro. Talvez pelo vazio, não sei exatamente qual, não esmoreci ao animal abatido que agora cerro entre meus dentes. Mas guardarei seus últimos segundos. Havia em seus olhos moribundos uma desesperada súplica de consolo, que se perdeu no vazio, como se perdera o seu corpo na magnitude do mistério que nos rodeia. Lembro de não comer animais mortos. Não me lembro de antes conhecer a necessidade.

paisagem

Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás.

Me despeço, Amada Querida, com a certeza de ter partido. Mas sem saber como ou quando voltarei. Sei que para ti – que também me acompanha, a cada passo. A cada tentativa vã dos meus olhos de te enxergar em cada esquina desconhecida de um novo lugar no caminho. Sinto-te e também sinto a sua falta. Ou sinto a sua falta por te sentir no ar que respiro – cada vez mais raro, é verdade, mas és sempre um bom exercício para meus pulmões.

Tudo o que me resta é a euforia do próximo passo e a certeza de seu amor. Eles me guiam, em caminhadas de pés abertos e mãos serradas.

do seu amado,

Sérgio Loureiro

 

noite azul

Na luz dos teus olhos
Piscou um sorriso
De sutil silhueta
Cintilante em teus cílios
Semelhante aos seus risos
Seus riscos em papéis amassados
Semelhante também aos livros
Que me têm escrito
Em tuas rígidas linhas
Ríspidas linhas
Em que me vejo marcado
Assentam sua boca
Acentuam o teor das palavras
Ressaltam tuas lágrimas
Seria um Rio? Seria baía
Seria a profundeza revolta pronta para o mergulho
E calmaria?
Seria o meu fim?
O findo elemento do afogar
No afundamento do ser
Na maré do amar
E nos últimos sopros
Gritar o seu nome
Acusando a autoria
De quem pôs fim ao dia
Trouxe a lua cheia
A única a brilhar
Nessa noite azul
Distinta das vermelhas
Amor se faz maior
Maior que as estrelas
A maior que há
Está no brilho da luz do teu olhar.

Sérgio Loureiro

Pouco mais que três palavras

Inspirado em O dia que Júpiter encontrou Saturno (CFA).

Um toque do destino. É o que costumava esperar, toda vez que levantava-se da cama, cedo pela manhã. Sedento pelo gole de vida que não fosse fraco como o seu café. Ele, um moço branco dos sentimentos vazios, perdidos nos passos que dera sem saber onde chegar, com a gola da camisa amassada e sem saber se era loura ou ruiva a sua barba. Odiava cafés, mas os achava necessário. Aquela manhã, especialmente. Era o ‘Dia D’. Tinha previsto mudanças, faria tudo diferente. Só não entendia o quê.

Impelido pela coragem que não possuía, trocando as chaves toda vez que tentava sair de casa, certo de que ouvira o rádio falar: “abra a porta, saia correndo. Compre flores, um chocolate, ou escreva uma bela canção!”. Não entendia nem mesmo porquê sentiu um avalanche no peito. Nunca fora chegado a chocolates. Também havia deixado de querer entender, fazia tempo.

Ao entrar no ônibus, envelope debaixo dos braços segurados com o afinco de quem carrega a vida em um pedaço branco de papel, sentiu um toque em seu ombro. Talvez por estar com a cabeça baixa não pôde ver a moça de vestido florido, sandália rasteira e um olhar que invadia o espaço caminhando em sua direção. Levantou a cabeça subitamente e, contra a luz do sol, apertou os olhos se esforçando para ouvir as palavras que saíam da boca da moça, lhe pedindo licença para se sentar.

Sem esboçar algum entendimento, ele rapidamente virou-se deslizando sobre o assento, permitindo a passagem. Os olhos incrédulos vidrados, ridiculamente parecia uma estátua. Voltou à sua posição original, mas algo nele não havia voltado. Nervoso, tudo que desvendava era com disfarçados movimentos de canto de olho, que julgava sutil demais para serem notados. Talvez por estar sem a cabeça no lugar, não viu, mas amassara o envelope com suas mãos.

– Espero que não seja importante.

– Quê?

– O envelope.

– É só a minha vida.

– Então eu espero mesmo que seja importante. Fica melhor assim.

[silêncio]

– Você gosta de chocolate?

– Que pessoa eu seria se não gostasse de chocolate?

– Uma pessoa única, é fato.

– Isso é bom?

– Eu não sei, deve ser.

– É sim. Bom encontrar você.

– Também acho.

[silêncio]

– Está muito calor.  Todos os meus chocolates estão derretendo.

– O dia está lindo para a praia.

– Mas você está de jeans.

– Eu não faria disso um problema.

– Então vamos à praia.

Um toque do destino. Na sua cabeça, não entendia. Quantas vezes pegou o mesmo ônibus, sentou-se no mesmo lugar, vestiu a mesma calça? Tinha feito a mesma coisa nos últimos meses, queria fazer diferente. Trocou a expressão surpresa por um sorriso confiante.

Desceram em uma rua que ele não reconhecia, mas podia apostar já ter estado ali. Seguindo seus passos, logo atrás, ia acompanhando a moça contar histórias sobre como tinha conseguido uma condecoração da Cruz Vermelha, aos quinze anos, publicado um livro aos dezesseis, e o porquê de não comer carne e só comprar roupas usadas.

Não sabiam mais se haviam se passado duas horas ou dois anos, mas haviam mergulhado nas histórias um do outro. Sentados nas pedras do Arpoador, parado, ele ria sozinho. Ria sozinho quase todo o tempo, sem entender nada. Enquanto ria, ela admirava o seu sorriso, sempre com um olhar compenetrado. Com os pés balançando uma coreografia ensaiada, eles se olhavam. Vistos do mar, os dois pintados em melodia singela, sob a névoa salina e a espuma nos pés. Quem sabe, talvez, porque não evidenciavam nenhum perigo, os dois pareciam tranquilos, e até estavam, só não entendiam nada. De repente, o primeiro beijo, o primeiro toque de mãos, o primeiro olhar acolhedor. Nele, um medo de estar vivendo um sonho. Nela, um medo de ser outra roda-gigante. Ele não queria acordar. Ela queria parar o tempo na parte mais alta, apreciar a vista.

– Eu gosto de sua barba. Ruiva.

– Tem certeza que gosta? Estou certo que é loura.

– Ruiva. Guardando muitos raios de sol entre os fios.

– Você fuma?

– O quê?

– Maconha.

– Não gosto de pensar que estou financiando um sistema que traz dor e sofrimento para muita gente.

– É da Bahia…

[silêncio]

Ele nunca soube ao certo se era um homem brincando de menino, ou se um menino bancando ser homem, mas entendia que pensar aquilo fazia muito sentido na hora – por mais que pensar qualquer coisa além de como aquele sorriso havia lhe prendido era desperdício de tempo.

O mundo gira. A vida gira. O ponteiro do relógio gira. A roda-gigante gira. O girassol, sentado na janela, gira. O sol se punha sobre o duro concreto dos prédios. Um gato subia na estante de um apartamento. Se olharam.

– Você pode ir, eu não sou bom de despedidas.

– Eu não tenho para onde ir.

– Se formos juntos, não haverá despedidas.

– Vamos para a Bahia. Depois, Paris.

– Eu vou para Paris.

– Eu vou para a Bahia.

– Me leva contigo.

– Me leva contigo.

[silêncio]

– Eu sempre quis conhecer o verde dos gramados campos de lá.

– Eu te mando um cartão de lá.

– Eu te mando um cartão de lá.

– No meu cartão vai ter um parque e uma cafeteria atrás.

– No meu cartão não vai ter parque, só o mar.

[silêncio]

– Vou te escrever uma poesia e não mandar.

– À noite, quando o frio bater e eu for dormir, vou me lembrar de você. Tentarei me lembrar do seu rosto. Sem conseguir, porque terei esquecido.

– Vou procurar seu sorriso em outro lugar. Pensarei se eu o encontrei ou o perdi.

– E que cada palavra e gesto, seu ou meu, cumpriu nosso roteiro.

– E que os livros que lia, eram sobre você. As coisas que escrevia, sem te conhecer.

– E se isso tudo for um cliché?

[silêncio]

– Tinha medo de nunca mais amar. Acho que eu acredito fundo demais no amor. Mas tenho um medo que vai mais fundo ainda na solidão. Mas te encontro aqui e parece que faz sentido. Que a gente se preenche de sentimento. Que as palavras mais clichês são uma bênção. Que nos abraçam. Arrancam sorrisos. Quero compartilhar a minha vida. Quero que você faça parte dela.

– Quero te dar a mão e nunca mais soltar.

– Quero olhar para elas enrugadas e lembrar de como eram jovens e delicadas. Como empunharam-se para chegarmos até aqui.

– Como tínhamos medo e abandonamos ele no meio do caminho, porque não fazia sentido levar conosco.

– Quero rir lembrando dos tropeços que demos, das histórias que vivemos, das loucuras que fizemos.

– Quero te olhar nos olhos até que essa seja a última coisa que farei na minha vida.

– A gente se cuida, se ergue. Cai junto. Luta. Muita luta! E que lutemos pelo futuro mais doce. Palatável.

– Eu menti. Não gosto de doce.

– Você é o único.

– Mas não estou só.

[silêncio]

– E as crianças. Nascidas de poesia. Não perfeitas, como a palavras de um poema apresentado. Crianças de poemas em papéis confusos e rabiscados.

– Como meu envelope.

– Como a vida.

[silêncio]

– Penso se um dia irei me acostumar com as coisas que hoje eu ponho a mão na cabeça. E nesse costume, continuar me surpreendendo, me apaixonando. Me entregando.

– Vai. Porque vamos juntos.

Voltando pra casa, ele não sentiu a saudade absurda que imaginou sentir. Não veio a gargalhada e nem o choro compulsivo que esperou ter. Não se sentia voltando, mas tinha certeza ter ido. Ter chegado em algum lugar. E esse lugar, imagina, é o lugar que todo ser vivo busca um dia encontrar. E lá estava o moço branco de sentimentos plenos, trazidos pelos seus passos, com a gola da camisa amassada, mas certo de ter uma bela barba ruiva. Sentado, estava diante do esplendor de sua existência.

Novamente no ônibus, agora sozinho, sem envelopes nas mãos. A madrugada cortando a a Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Luzes de festas pelas janelas, luzes às pressas. Foi invadindo a noite e a cidade em uma viagem só. Mil e um pensamentos. Os olhos vidrados, sem entender onde estava.

Fechou os olhos. E via os azuis dos mares. Os traços fortes, as marcas da vivência. Via os pássaros, os peixes, as árvores, tudo que era vívido naquele lugar, terem um temor de novos visitantes. E pela primeira vez entendia. Entendia porque tinha feito a mesma coisa todo dia, entendia porque alguém tão ávido ao seu pertencimento escolheu viver em um ambiente hostil à sua origem. Entendia que havia caminhado com passos certos, feito o que deveria para estar naquele lugar. Havia vivido para aquilo. Havia sido camelo, atravessado o deserto, para esse oásis. E não lhe passava na cabeça uma possibilidade imaginável de querer estar sozinho agora. E não era necessário a coragem. Já tinha a certeza.

brinquedo de herói

Foi o primeiro barulho ouvido na manhã daquela quarta-feira, doze de maio. Um estridente e assustador ruído. Semelhante aos rugidos das tartarugas-brancas-das-águas-do-norte, que vira pela primeira vez na noite anterior, assistindo a um documentário no canal de variedades ecológicas. Um caso raro da espécie, que ruge seu bramido apenas em situações de extrema ameaça – o que, aparentemente, tinha se tornado mais comum depois de “algo-envolvendo-garrafas-PETs”. Somente depois de coçar os seus ouvidos pôde abrir os olhos e verificar o tamanho da desgraça. Era abissal. Colocou os óculos para ter certeza do que a remela dos seus olhos lhe tentava impedir ver. Não enxergava nada sem a lupa de grau 3.8 de astigmatismo, ainda mais pela manhã. Mas era aquilo. Não havia como negar. Estava diante da mais esplendorosa manifestação divina da vida. Sua mísera insignificância jamais sequer idealizou um dia ter tal desfrute. Seu pensamento inicial foi imaginar a cena estampada nas capas dos jornais locais. Seria estrondoso. Renderia boas histórias no cafézinho do intervalo vespertino, na sala da Xerox. Finalmente os holofotes, Carlos. Seria o assunto da semana, sem sombras de dúvidas. Todos do departamento iriam querer sentar ao seu lado no ônibus, no fim do turno. Deveria comprar uma camisa polo nova, dar à rosa-salmão um descanso. Talvez azul-turquesa? Mas antes precisava certificar de fazer tudo certo. Não poderia perder ali a chance de sua existência. Eram sete e trinta e sete e já se via tendo duras decisões a serem feitas. Nada de pão mofado ou bolacha farofenta. Tivera o maior dos dejejuns. Sentia seu estômago nutrindo-se de partes inúteis de seu organismo em claro manifesto de apoio. Como se dissesse “vai lá, Carlos, eu seguro as pontas aqui”. Servido de uma xícara de coragem, o modesto homem a princípio estranhou o gosto amargurado da vida adulta. Após fingir costume, partiu, meio cambaleante, rumo à sua guinada. Já próximo ao fenômeno esferal, conseguia refletir sua imagem. Era lindo. Não a sua beleza física, disso já estava convencido há tempo, tinha aceitado sua condição esguia. Mas o fato o fez se sentir parte do fenômeno. Dois eram um. A inesperada afeição surtiu um momento de crise. Se via cogitando derrubar suas convicções de extermínio, já admitia poder viver com aquele ser ao seu lado. Deliberadamente, esperou uma mensagem do acaso lhe propiciar sabedoria magnânima. Nunca foi seu forte essa coisa de extermínio. Ou de tomada de decisões. Ou mesmo de documentários sobre as tartarugas-brancas-das-águas-do-norte, em canais de variedades ecológicas. Tinha perdido o controle, fazia tempo. Talvez por isso nunca trocara o canal da TV depois que ela partiu. Deus, como ela conseguia gostar dessas coisas?  Foco. O problema ainda estava ali, debaixo do seu nariz, e nenhuma intervenção do além para ajudar. Tinha que resolver por conta própria. Ao se pôr novamente em posição de bote predatório, viu as imagens do seu sucesso se esvaindo. Despediu-se de sua glória jamais vivida.

Daí em diante vocês podem deduzir por conta própria. Não vou me ater aos detalhes sórdidos. Me poupem do nojo de narrar uma cena de uma espinha sendo espremida.

A história em questão ganha em profundidade quando se admite um universo onde a plasticidade tomou conta das pessoas. Seres plásticos. Perfeitos, esticados, emoldurados. Sem sinais de humanidade imperfeita, incorrigível. Seres plásticos, e por assim serem, adequados perfeitamente para o uso e o desuso. Descartáveis. Recicláveis – mas quem vai perder esse tempo? Carlos queria chegar no trabalho e ostentar sua espinha no rosto. Ia ser a sensação. Como as garrafas, as pessoas já se questionavam a real necessidade da essência plástica. Enquanto outros decidiam se gostariam de serem vassouras, conduítes, ou artesanatos hippies. Mas nessa distopia, não havia espaço para heroísmo. Carlos, que decidira ser uma linda mangueira para jardim após sua reciclagem, optou por ser mais um. Normal. Imperceptível. Inofensivo. Aparentemente. Como as garrafas PETs no oceano.

Sérgio Loureiro

uma menina terra

A quinta estrela que brilhava ofuscou o olhar perdido dos meus lábios ao seu queixo. A aprazível sensação de disfarce me pôs à espreita do meu incólume vestígio de conduta juvenil. À sua sombra, circundei o que para mim era a mais entusiasmante jornada heroica já vivida: as suas curvas. Um pássaro, voando em rasante a contemplar a primazia dos seus traços, avisara de sua natureza fértil que agora escorre entre meus dedos. Empossado de seu emanado pertencimento próprio, não ousei colonizador, mas desbravei cada terreno a mim permitido. Suas linhas imaginárias delineavam o prazer e determinavam teor ao libidinoso ato de assentamento. Demarcavam a tênue divisão entre o desejo implacável e a loucura inconstante. (Que são ser se perde em queixos, afinal? Mesmo os seus, assemelhados ao eixo orbital). Fascinado, era um besta às vistas. Quando dei por mim, ainda estava em sua penumbra. Velejando sem os teus sopros. Impelido pelos meus sentimentos à flor da sua pele, naveguei-me à impulsão. Guiado pelos seus horizontes, estava certo de que não foram ventos errantes que me trouxeram até suas especiarias. Trilhando-te com os olhos, tracei um mapa para o descobrimento. Afim de que notasses-me, sucumbi. Era farol, em ostracismo, margeado de sua vastidão, sinalizando-me por atenção. Ávido, roguei: decifra meus intuitos gentis, faz de mim senhor de tua senhoria. Todas ilhas têm um fim.

Sérgio Loureiro

memória fantasia

Hoje eu vi uma moça caminhando pela calçada. Meio perdida entre os vários passos, absoluta de sua incerteza, sem saber o que fazer da vida ou o que comer no almoço. Vi sua sandália rasteira de bordado rústico cintilar pelas pedras portuguesas, entre os sociais sapatos de engraxado noturno, os saltos altos para o abismo, as apertadas alpercatas reluzentes do menino e os coturnos. Sempre os coturnos. Todos afiados, relando a canela da moça que, não sei ao certo se com maestria e elegância ou se apenas por não perceber o que se passava ao redor, desviava sutilmente. Quis cutucá-la no ombro, chamar a sua atenção, protegê-la de todo mal circundante. Mas ao fazê-lo, a tiraria de seu universo mágico, de seu caminhar sereno, por mera intenção de chamar a sua atenção para mim. De dizer “estou aqui, vim te proteger”. Por mais que seja instintivo preservar a doçura de seus passos, era necessário vê-la seguir por si só, mesmo que caminhasse para longe, e longe, e longe de mim. Sabia que por mais companhia que fosse, era hora de ser admirador de seu caminho. Contive o heroísmo masculino egoísta e o que isso me permitiu? Um outro olhar sobre aqueles pés – que não sei como não se tocavam, diante dos olhos que sequer olhavam um palmo à frente. Olham para si. Não posso concluir se gozavam de profundidade filosófica ou se debatiam sobre o panfleto que acabaram de ver. Tudo naquela moça era intensidade. Seus cachos, ainda prematuros, lutando contra a natureza instável do “ser moça”, conquistavam arduamente cada centímetros no rosto doce da jovem mulher. Ornavam, e como ornavam, perfeitamente com o sorriso singelo, quase angelical, que quando brotava… Ah, florescia a luz em cada esquina. E fui seguindo, já também absoluto de minha incerteza, sem saber onde estava ou o que iria comer no almoço. Segui, pois, de repente, não havia nada melhor nada vida a se fazer, nem lugar no mundo para ir. Segui, pois algo latente em mim gritava “é aqui!”. Sem esperar nada, como sempre fiz, frui o seu caminhar vagaroso, suas pausas em cada flor de cor mais extravagante, seu observar diligente aos detalhes do gradil. Guiado pelo seu olhar perdido e seu sorriso luminoso, pude ter a certeza de estar no caminho certo de um lugar que nem sequer sabia existir. Estava imerso nesse peixismo que era nadar errante pelos mares da calçada. Sensível aos acasos rotineiros, os quais jamais havia percebido. Por falta de hábito, pensei. E como me veio, perdi. Não tinha mais moça. Não se viam mais seus passos. Nenhum sinal de seu sorriso. Nem mesmo notícias de seus cachos. E como essa poesia se destinava à memória de ti seguiu os passos próprios, a moça partiu. E eu, acordado, fiquei aqui com mais mais uma memória fantasia. Esperando o dia em que passe outra moça pela calçada que me faça levemente lembrar você e eu possa fantasiar sua memória, matar minha saudade. Até o dia em que as esquinas brilhantes me levem, enfim, até você.

Sérgio Loureiro

faz do meu choro o teu altar

acalma o perigo
afaga o suspiro
afoga comigo
afunda esse risco
de ser fundo
marcar o verso
sublimar o terço
da parte que fui inteiro
já não sou mais, rezo
tenho medo
hoje tremo sem frio
amanhã sou a brisa gélida
uivante em desespero
lamento vazio
roseando lábios vadios
vá de uma vez por todas
fuja do Brasil
para longe de mim
e não me ouves
pois é só mais um choro tardio
se não sou inteiro
sou apenas a metade sua que partiu.

Sérgio Loureiro

tribalismo rodentia

o rato revigorado de energia
rogou a prece
proferida à romaria
o da profecia que regresse
ídolo mitológico que promete
um reinado de justiça que começa
o rato relembrou o rápido lapso de alegria
rasa maré vazia
falsa lembrança luminosa de um dia
que, como tudo, padece
o rato messias
relapso da democracia
acaso da sua própria existência
revogou a resistência
resiliência chora de dor
reinado perene de rigor
rato que envelhece é rei dos bichos
quem não se esquece, adoece
o rato se reveste de roupa túnica
roubou a riqueza
fartura única
só da real rata família
enquanto outros ratos roem o poder
o rato rompeu o rei de Roma
o rato é rei!
rei do povo!
rei de todos!
rei da tribo rodentia
porque tribalistas fomos um dia
e jamais deixamos a rataria
mas é assim
o rio da história é caudaloso
arrasta as ribanceiras que o margeiam
derruba barreiras
dá rasteira, mas levanta
roda vida
roda-gigante
no país do carnaval
chama pessoal pra ver filhos Gandhi
o rato é rei
mas não é todo dia
somos ratoeira
capoeira da Bahia
a guarda negra da redentora
recantando a canção
“as camélias da segunda abolição virão”

Sérgio Loureiro

rasa maré vazia

Foi quando vi seu sorriso, lá pelas duas da madrugada. Eu, cinzas de um homem amargurado com as pontas que me trouxeram até aqui; sempre costurando novas cicatrizes no peito; vivendo de farelos de mim. Foi também o teu olhar, levemente inclinado sob a luz negra que percorria seu rosto.

É esse seu jeito levemente inconsciente de domar meus sentidos, conduzir meu ar, drenar minhas emoções. Foi naquele instante, tive a súbita certeza de que iria alvorecer. Não sabia exatamente o quê.

Uma baleia, peregrinando pela vastidão líquida do ser. Solitária por magnitude. Ameaça inofensiva. Vivendo pelo absoluto dom de existir. Agora encalhada em seus arenosos carinhos. Sabes-me tão bem.

Na entrega permissiva, o desapego cria vínculo. A ponta dos meus dedos conhece cada centímetro sentido-percorrido pelo seu corpo nu. E nus estamos, entranhas abertas, visceral desejo de se dar. E dar, é dar aquilo que já não temos mais.

“Olha minhas pegadas, veja minhas marcas. O que faz de mim ser afim: êxtase momentâneo ou propulsão eterna?”. Acostumado com portas fechadas, de repente, um rombo. Logo eu, você bem sabe, temeroso pelo despreparo.

Agora são suas pernas – o modelo mais perfeito da anatomia humana. E são duas. Esses seus pés sempre tão fincados ao chão, brotando sementes por onde passas, criando raízes em meus dias. Já me questiono se há outro lugar para ir. Mas seus passos querem o além.

Eu reconheço esse seu olhar, conheço esse seu sorriso. Nadei até aqui. Vi o mar se deitar nesse seu lugar. São duas da manhã e seus pés estão massageados nas minhas mãos. Fugirás com o cair do luar, posso sentir. Devo colher as flores ao seu redor? Te faço um lanche para a viagem ou se alimentarás de sonhos do devir?

Eu pensei em tantas coisas para te dizer. Tantos porquês de não poder ir. Tantos medos que senti. E tantos sentimentos que não entendi. Entre todas, algumas são estas. Engarrafadas e jogadas naquilo que um dia foi mar. E talvez meu erro tenha sido admirar tudo enquanto poderia viver.

Talvez novamente, quando minha maré encher.

Sérgio Loureiro

manifesto presidencial #1

Não é hora de se espantar com as lágrimas. Que escorram pelos sulcos, leitem-se nos rios, alaguem as cidades. Deixem ressoar os estridentes agonizos. Que ecoem pelas vértebras para que finalmente se sintam humanos, encardidos. Permitam que a ponta das facas queimem-lhes a pele, para que se aqueçam. Os miúdos joguem fora.

O que me interessa esse sangue em ebulição correndo pelo asfalto frio dos que sentem sem parcimônia? Que queimem em suas ardis intenções em irromper nossa salvação. E se arderem em fogo, o que posso fazer se já estão em chamas? São portadores de suas próprias escolhas em se importar demais com o que não lhes é devido.

Não se nasce para abraçar esse mundo por inteiro. Deus salve seu sangue derramado, mas o meu primeiro. Mantenha-se esperançoso e consciente. Espere sempre pelo pior. Por mais que seja uma coisa difícil em momentos tristes do passado, sonhos são como pesadelos, em que aprendemos a lidar com sua recorrência e ignorá-los ao acordar.

Deixe que temam, sofram, lamuriem. No conforto do estar, não perigam. Mas fechem as janelas no fim da tarde, impeçam a entrada de seus zumbidos. Garantam a paz onde reina o incólume escolhido. No fim das contas, as escolhas mais importantes são aquelas que desistiram de fazer.

Sérgio Loureiro

eu estava lá, era a pedra no sapato

Sentou no trono mais augusto que lhe alcançava a vista: uma pedra. Digno de toda a impressão de poder que transmitia – conseguinte da pomposa postura erguida -, bradou em dó menor

– Parem as máquinas!

Todos ao seu redor, perplexos, suspenderam o que estavam a fazer e ergueram os globos para o sujeito. Admirado com tamanha magnitude do feito, o pequeno rei se autoempossava dono de si. Para delírio geral da nação anônima o, até então, nada esguio homem se acometeu subitamente de alteza interior. Um sopro de lucidez pairava sobre seus lábios enquanto decidiu proferir seu manifesto

– Faço desse manifesto sincero minha ode à alteridade. Assevero a beleza da vida ser suas nuances. Ligeiras gradações de seres variantes, variados, postulantes. Graduados na escola da rua onde desde cedo se aprende que quem muito espera, desespera. E quem não arrisca, não petisca o doce das línguas alheias. Viva a diversidade! Lute-se por ela da mesma forma que lutou pela primavera. Permita-se florir à alma. Mas não te desespera, tens calma.

Para muitos que ali estavam, um sublime momento de austeridade sutil se mostrava, mesmo que de modo furtivo. Para outros, era clara à semelhança bíblica com o profeta das tábuas. Essas, no entanto, abusavam de profundidade.

Sérgio Loureiro

a um traço para o espaço

Naquela noite, não escrevi. Afinal, o que me adianta ser, enfim? No vazio do espaço que habita em mim, sou astronauta navegante em órbita sem fim. No peito apertado parte-se um coração. Sofrendo de solidão, só se ansiava ser seu, estar na palma da mão.

Naquela noite, não tracejei uma linha sequer. Na ponta do lápis, o risco – não o corri. Na ponta dos cascos, o perigo – não o permiti. Nos lábios, a ponta do cigarro contracena com a ponta do nariz. Na mesa, vasos vazios relembram meu estado doentio. Os frascos mais fracos sempre apontam para  alguém que está por um triz.

Só peço que, por descuido, no escuro em que tropeço caia nos teus braços. Selem os nossos laços: suas rotas, palavras, desejos. Sonhos de coletivo manejo. Seja a borracha na mão que afaga. Mas não apaga os meus erros.

Sou o oposto da impavidez colossal. Temo, não teimo e se falho me desfaço. Não me satisfaço com bugalhos. E nem disfarço: sou um homem fraco, não lavo nem passo. Mas o meu caminhar é descalço. O meu caminhar é descalço.

Sérgio Loureiro

esse aqui tem o seu nome

Aos tantos trancos e barrancos, despenquei.
Em prantos, quantos Santos invoquei? 

Terá sua Vênus me tirado da terra?
Será que em algum lugar você me espera?

Barco o troco na barra do porto, navego virgens mares, na conta do gosto.

Desejável ser ambulante, desespero
Quero-te, quero-me, querer é meu esmero.

Do que me resta penar?
Sou fuga, presépio e luar.

Entre tantos “entretantos”  fiz-me ser
Até o “por enquanto” acontecer.

Sou poste para tua oração
Sou chaminé, lava em erupção.

Eu só não sei porquê tudo nosso rima
Nem porque só escrevo quando penso em você, menina.

Sérgio Loureiro

salmos vazios

Pai, eu tenho medo
De nunca mais ser o mesmo
De me perder em erros
E quem sabe
Ser errante ao esmo.

É que agora nada faz sentido
Eu tenho me encontrado perdido
Minha casa tornou-se mero esconderijo
E já não te vejo comigo, ó Pai.

Para onde tu fostes, Pai? Não consigo te ouvir
Será que te buscam aí como te busquei?
Sentes frio como sinto sem teu afago?
Morres sozinho na sarjeta clamando por um trago que aqueça sua chama derradeira?

Por que me tirastes do Rio que circundava meu ser?
E todos sentidos que, um dia, julguei ter
E as palavras que me guiavam na escuridão do silêncio
Já não se encontram faz tempo.

Um gole de vida me apetece
Me parece o elixir
Entre o que padece e o que está por vir.

No ventre, a boca do estômago está seca, sedenta
A fonte transbordou
E agora todos veem meus sulcos profundos
Minhas entranhas, peculiar aos estranhos
Que me conhecem há anos.
Incapazes de admitir
Que tamanha destreza para distrair tanta tristeza
Sempre esteve aqui.

Sérgio Loureiro

outro lado da canção

Eu posso ouvir o silêncio vir me dar o beijo de boa noite. Posso sentir a poeira apagar as luzes do abajur. O vento que entra pela vasculhante, sorrateiro, me abraça. Embala  comigo antigas cantigas de ninar. Às lágrimas: em seus braços, o desconsolo. Eu, mudo, um ser de palavras – perdidas no universal amar.

As lembranças pela sala são fragrâncias expelidas pelo ar. Aspiro do seu perfume o que ainda resta até a última esperança. Por um sopro estás prestes a partir. Teu sorriso não mais canta, emoldura-se em um retalho na parede. Ainda passo por ele, toda vez que não me deixas dormir. No meio do caminho, como sempre ousou estar. Mira te: um retrato de cetim, já por descosturar. Às vezes, as tais lembranças são tormentas caladas à noite. Outras, são crianças correndo pelos corredores, invadindo a sala de estar. Em vão, bravejo. Quando foi que me tornei ranzinza como seu pai? Eu, surdo, um ser de palavras – perdidas na memória do meu lar.

De fato. Não sei reagir, e o que poderias esperar de mim? Tu me deixaste, e o que sobrou aqui? Um céu de nuvens que se perderam. Um mar que se divide por inteiro – parte esteve aqui, ouviram falar; outra presa ali, em seu olhar. As estrelas não mais constelam, não mais cintilam, nem sequer combinam umas com outras. Todas decadentes de brilho, como a madeira da sua estante, abandonada, sem verniz.  Não me olhe assim, mal cuido de mim. Eu, cego, um ser de palavras – perdidas no vão do pensar.

Eu me sinto só e o girassol gira devagar. O teu violão guardado, de quem tanto senti ciúme, toca notas de dó. Parado, assim, posso presumir que sou daqui para o pó. Vou me juntar a outros grãos de vida, mortos pela casa. Um punhado de sentimentos que, juntos, não dão um só. “Purezas e impurezas fundidas”, dizias. Vou morar na sua estante empoeirada. Ou veranear no seu céu, junto das estrelas sem graça. Sendo ponto de luz no céu, vou gritar. “Luna, luna, luna, llena menguante”, sei que estás me observando, mas não sei o que me vês. Como não vi seu amor e assim não pude ver teus passos pelo mundo. E se existo em você, foi por louco engano.

Contigo, à distância, sei que podes me ouvir. Percebes – assim, desafinado, sou só rumores do que outrora pude vangloriar – o tom do meu desespero. Mas canto. Canto, pois não há bela melodia em que não exista tu. Canto, pois assim espero a minha hora chegar. Lapidei-me e eis que aqui escrevo minha lápide: o amor que tu me deste era muito e em mim transbordou. Eu, diante de sua profundidade, um ser de palavras –  encontrei-te ao me afogar.

Sérgio  Loureiro

por tentar voltar

Por querer voltar – e de tanto querer voltar
O meu sorriso estremeceu.
Você nem viu a água rolar pelo meu olhar.
Era tarde para te chegar – e de tanto querer chegar
Perdi o teu olhar, longe para a céu de lá.

Tendo que tentar voltar – e de tanto querer voltar
Já não mais sei se para aqui, ou para lá – onde você está.
E sequer saber quem sou eu.
E sequer um beijo teu.
Já não mais sei o que se perdeu.

Por tentar voltar – e de tanto querer voltar
Tudo aconteceu.
Você estava lá – e o sorriso meu.
Era tarde para chegar – e o beijo teu.
E a água – deixa rolar.

Sérgio Loureiro

antieu do que antes tu

Este é um post que te poupa de ler mais um texto sobre a saudade que eu sinto.
É um anti-post do meu eu.

Tranquilo, paciente
Passeia levemente pelo caminho
Pois sabe que tudo passará
E nós, passarinhos
Passarinheiros pelo horizonte
Passivos do que virá

Passada a agonia
Parcimônia e calmaria
O passado é um clarão
E a prece são duas mãos
Postas em harmonia
Prostradas em profana adoração

Não vou me enganar
Fui avesso do avesso
Discordância da negação
Só para negar a mim mesmo
Em autoafirmação.

qualquer um que não eu.

 

a dor do parto partiu-me as estranhas entranhas

Eu tenho andado sumido.
Eu tenho andado esquecido.
Às vezes, até andado perdido.
Mas eu tenho andado, mãe.

Minhas promessas não estão tão bem.
Minha economia não está tão bem.
Nem mesmo minha saúde está boa.
Mas bem eu tenho estado, pai.

Não tenho muito ligado.
E confesso que nem percebi.
Que meus passos não me são dados e o caminho eu que escolhi.
Que, por ficar aqui parado, fiz sofrer e sofri.

Na cabeça, falta uma voz.
No rosto, resta um beijo.
As mãos se entrelaçam em nós.
Mas se oro, não sei o que desejo.

No escuro, estou só.
Na manhã, me refugo.
Nas lições, tiro pó.
E me banho nesse Rio, pensando em quando me enxugo.

Nas rimas, sobrevivo pelo esforço.
Na vida, vivo pelo dorso.
Que parta-me entranhas, profunda natureza.
Antes que a partida seja antes, por tristeza.

Sérgio Loureiro

maracujá soberano

Cantar é mais do que lembrar.

Caetano Veloso

Onde se perdeu o restante?
Como via os olhos sedentos em calores praianos
O ano inteiro, todo ano
Se encontra no interior de cada um.

Se até as bocas mais ardis
sopravam vento pelos ventres.
Ardiam fogueiras ao redor
a fumaça gerida no peito ardente.

Somos um, sou mil
Mil e algumas luzes explodiam, queimavam meus dedos.
Chapéu de palha, xadrez e flanela,
cores no escuro ornavam a cidadela.

Quermesse, ou quer agora?
Casar comigo, ir embora.
Sem medo, é fantasia
é sazonal, é junino
tempo de homem maduro virar menino
milho em tudo, tudo é amendoim
Hora de você encostar em mim.

Se essa rua fosse minha, eu mandava quadrilhar
com traques de brilhante
para ver o meu amor passar.

No beijo da barraca,
onde o genipapo é absoluto,
Maracujá soberano:
Seu rosto azedo me faz esperar ano a ano.

SL.

ainda assim

“Eu não me arrependo de você. Cê não devia me maldizer assim.”
Não Me Arrependo – Caetano Veloso

um poema sobre a vida que não vivi, planejei viver. Ou coisas do tipo. Ou nada a ver.

Não é que eu fosse uma aberração, mas eu ainda possa estar sendo;
em feições naturalizadas que já não me metem medo ou me assombram os brios.
E ainda assim, aparar as arestas dos pelos.
Mas ainda monstro sendo, monstro sê-lo.

Não é que ter um armário me fez diferente,
apenas posso fingir organizá-lo.
E ainda assim chegar na poeirenta casa, no poeirento quarto.
Mas ainda assim chegar numa casa, num quarto.

Não quero me perder.
Ir além do que devia ir.
E ainda assim, é cedo para voltar.
Mas ainda assim, nunca é tarde para arriscar.

Tenho muito e isso é quase nada.
Sou metade, sou inteiro.
E ainda assim, sou primeiro.
Mas ainda assim, sou em partes.

Se sou menino, afobado.
Se ora homem, desesperado.
E ainda assim, faço a barba, faxino.
Mas ainda assim, a poeira e o monstro me consomem.

“Vi você crescer.
Fiz você crescer.”
E ainda assim, voas alto de mim.
Mas ainda assim, sombreia o desenho de nós aqui.

E cagas nas minha cabeça com tamanha destreza.

Sérgio Loureiro (sob luz de Caetano Veloso)

coisas que para você não fazem o mínimo sentido

Vamos esclarecer as coisas: eu não procuro a pessoa perfeita. O que eu deveria fazer com isso? Sentar ao seu lado, ornar a sua perfeição, admirá-la eternamente deitar em seu esplendoroso berço? Contemplar o definhar de seus dias na constância do seu magnânimo ser, perene, profundo, inalcançável, turvo como uma lagoa, habitada pelos mesmos peixes desconhecidos e seus cisnes pomposos que, a mim, não enganam?

Nesse eterno nadar contra minha correnteza, escamo minhas incertezas, escorro pelo desconhecido. Um ser aquoso – ora aquário, às vezes fora d’água. Sempre líquido, maleável, mutante. Sedento pelos rios caudalosos que insinuam suas belezas sinuosas. Certo de que nasci em doce manancial, mas sabe-se lá onde isso tudo irá desaguar. Jamais banhei-me como outrora, como poderia esperar o mesmo? E sei que a beleza em ser rio é ser ciente de sua natureza crescente. Às vezes enchente, às vezes seco. Agarrado àquilo que é, navegando margeado por leitos diversos, que me limitam, até fazer de mim imensidão oceânica.

Apenas um rio capaz de entender e aceitar a si é capaz de entender e aceitar a mim. Reconhece a tua trajetória, assim como reconheces a minha. Meu nado errante, meu medo de afogamento, foi o que me trouxe aqui. E estar aqui é suficiente. Se sou um menino com medo de crescer ou um homem temendo ameninar, faz parte. Convicções não me trouxeram até aqui; me tiraram de lá. E para onde vou, do que adianta saber? Apenas me diga se há flores pelo caminho.

Sérgio Loureiro