sexta-feira na sua casa ou na minha?

Eu tenho sido seguido. Não achem que não percebo os olhares atrozes, críticos, marrons sobre meus ombros, mirando a jugular. Ansiando pôr as mãos em minha garganta até que os dedos se cruzem em um largo ponto final. Posso ouvir suas gargalhadas, seus risos frouxos e até, credo, seus desviares de penar. Esses me gelam a espinha. Difícil andar na rua sabendo não ser o mais covarde na calçada. Enorme responsabilidades atribuídas tão subitamente. Dois dedos – com as cabeças ainda nem calejadas, mas de perto nota-se, com certa bondade, algumas marcas típicas – nos separam. Dois dedos de coragem. Não ousei nada mais que isso. Puseram vocês, os rótulos. Estava apenas derivando, à deriva. Quem não estamos? Eu gritei, tu me ouvistes. Sabíamos onde éramos e sabíamos onde íamos chegar. Eu disse que eram palavras escarradas, o que diabos esperava? Sentimentalismo barato, meu caro. Isso é o que mais vende. Mas não se paga. Literalmente. Na indústria literária, digo. Viu? Como podes me exigir sem nem mesmo a mim consigo entender ou me fazer entender ou ao menos me esforçar que nesse texto exista mera compreensão que não em um deslocamento outro. Posso te ensinar a sentir, não a entender.  Já não entendo nada faz tempo. E tudo que lembro estava escrito em um livro sentimentalista. É isso. Quando cansares de procurar esplendor, sublimação e pureza divina, venha saborear comigo os prazeres mundanos do pieguismo.

Sérgio Loureiro (às vezes é difícil escrever meu nome)

permita-me esclarecer certas obviedades

Andei lendo coisas repetidas para me fazer entender de formas diferentes. Entendi, nesse, o cerne do processo mutacional, onde nada se distancia do centro original. Nem mesmo a ordem do caos. Fui expurgando palavras desenfreadas em tons viscerais para me credibilizar. Não se ler pelo não ler tem sido um charme recorrente. Estou me tornando cliché. O cerne certamente está na minha sintomática excentricidade – mesmo que ache excentrismo uma palavra muito mais sonora. De rebate, penso no que isso me concede, no que fica para trás. É que quando você tem tudo, você tem tudo a perder. Espero estar deixando migalhas – para saber voltar mais vezes.

Sérgio Loureiro

ao menos ainda tenho uma camisa branca

A minha tosse escarra minha vontade e força para me aventurar aos desfrutos da vida. A coriza que escorre meu libido é jorrada para longe de mim. Enxugo nas mangas de minhas camisa o resto de pudor e brilhantismo que herdei do meu passado. A chuva que cai lá fora aumenta o ritmo da minha insignificância, do meu despreparo, mas de longe, aqui ilhado, é um perfeito álibi. Sigo recorrendo a drogas ilícitas para tragar prazeres divinos – ou apenas para acessar locais da minha mente em que costumava escrever, enquanto folheio o dicionário de sinônimos. Há de haver algum sentido, ou o que virá depois? Quando a chuva passar não poderei desfilar com minha bicicleta nova, pois todos os outros não saíram à rua, inclusive você, que certamente adormeceu lendo as mesmas páginas daquele capítulo em que continua do seu livro – não porque não o entendes, mas porque é entendidas demais para abandoná-lo. Quando a chuva passar e os gotejos cessarem, tentarei contar animais felpudos, de preferência que pulem e que já tenham sido romantizados pela literatura. Quando a chuva passar eu não terei desculpa, nem tampouco razão. E então eu chegarei ao verso perdido, à parte destoante da canção. Onde percebo que tudo fora escrito às pressas, sem demasia e preciosismo, menos tu. Menos o futuro. Há de haver algum sentido, ou o que virá depois?

Sérgio Loureiro feat. CFA

amor

O amor não é coisa direita.
É revolucionário.
E por assim ser, é um tanto quanto torto.
É um maluco desenfreado
praticante da partilha social, igualitária e justa.

“Amor para todos”
estende em cartazes.

Manifesta sua simples vontade de ser,
ou de permitir ser simples.
É defensor de todo e qualquer sujeito de classe trabalhadora.
Aquele que sua a camisa, corre atrás de amar

E no fim do dia, já cansado de mais uma exploração cotidiana,
senta-se à poltrona,
ergue seus pés sobre a pequena mesa,
abre um vinho, como um bom proletário de gosto burguês faria,
e olha para o teto, até que seus olhos se fechem para a realidade
e lhe permitam fazer o mesmo no dia seguinte.

O amor veste vermelho.
Mas jura ser bem lavado.

De alma limpa, e por vezes ingênua,
que se nega ceder aos calos da vida,
permanece sensível e doce.

E se for preciso, pega em armas.
Atira para todos os lados
em legítima defesa
de acertar um coração vago, vadio e preenchê-lo.

O amor tem as mais belas das intenções.
Mas por vezes pensa só em si, é verdade.
Mas quem não o faria depois de tanto desmérito?

O amor é sujeito incorrigível.
Um sujeito simples com sua oração

Não faz predicados
nem tampouco prejudicados.
É vívido em qualquer língua sedenta
E ampara a sua em céus de bocas estrelados.

O amor, certa feita, veio me dizer
das sua lamúrias e descrença consigo mesmo.
Sente falta do romantismo de boteco,
dos amassos no carro quebrado sob o luar,
dos romances em programas baratos que dinheiro nenhum pode pagar.

Portanto, não me venha com seus batons sofisticados.
Quero seus lábios carnudos em pele veludo.
Quero seu corpo desnudo na rede de singular bordado.
Quero tuas coxas, em pares, no meu colo entrelaçado.

E ai de mim ser contra o amor.
Por puro luxo, esmera ilusão
de quem um dia espera cair do céu, levar ao chão
Um tolo ávido por uma paixão.

Até eu, que outrora flertara com a esquerda,
hoje, segundo os conceitos modernos,
sou um homem de amor direito.

Sérgio Loureiro

ruminâncias

sinto que já passei por aqui. seus olhos vermelhos me apontaram o caminho que não tem volta. o vazio me enche. o odor da dor me entope as narinas. insustentável. como o poema que pretendia escrever, mas adiei por só pensar em você. fomos tanto em tão pouco. ou somente eu fui?

recorro aos sinos tibetanos em busca de paz. maldita perseguição de tudo que me leva ao outro lado do mundo. tenho recorrido a meios inescrupulosos para alcançar fins divinos. maldita concessão. como a tese que pretendia elaborar, mas adiei por só pensar em você. refletimos tanto em tão pouco. ou somente eu refleti?

e se nesse mundo de imagens meramente ilustrativas, rostos simpáticos, gente oferecida, fora no seu olhar seco, nas suas palavras medidas, no seu pragmatismo que eu encontrei a paz sem o Tibete ou a Bahia? como a viagem que eu pretendia fazer, mas adiei por só pensar em você. criamos tanto em tão pouco. ou somente eu criei?

agora me resta um fio vermelho de lembrança sobre a cama. e a memória dos seus olhos vermelhos. e meu coração que se vestiu de luto. e seus lábios que se foram súbito. meu desespero de causa disfarça a melancolia e o medo. como minha insegurança pretendia temer, mas adiei ao pensar em você. sentimos tanto em tão pouco. e nada disso foi só em mim.

e adivinha. a ruminância rima com insegurança. e a tinta em que escrevo, sangra.

Sérgio Loureiro

me nego a dizer o que já sabes

sublime sublimação subliminar. limiar do elixir que existe em mim. devaneios divagados vagarosamente. vaga-lume vagueando por vadio lampejo. lúcido legalizado límpido. ímpeto impelido impulsivamente. minto logo pela manhã. mantras entonam cobrem mantas. lógica mágica térmica. quente viu queima horizonte em flâmula acesa. cinzas decompostas em recipientes reutilizados. consciência monogâmica. pandemônio pragmático. doenças evitáveis. pílulas aprazíveis. canções internas. pertencimento à distância. rio morre de calor. eu não sou meu salvador. mas brilho no que sou. grito no escuro. choro evacuado. sala vazia. lotação máxima no que resta. me empresta um gole de ti. em copo americano. embriago ufanismo nacional. macunaíma afogado por vontade própria. belchior. coração selvagem latino-americano jovem sem dinheiro no branco. póstuma mensagem na internet. rede que cai mas não balança. lembra. varanda deita no chão. vento sussurra. piso gelado. céu azul. licença concedida. permissividade inata. tudo é história. lugar do que já foi. escrevo mais uma vez sobre a saudade.

Sérgio Loureiro (mas depende)

diário de bordo alô alô

A sua tela preta três por quatro de nada me amedronta. sua vastidão é vaga diante do desconhecimento da ignorância que me absorve para o além. Além disso, de pronto sou vigiado pelo sargento mostarda a porta. O que me assombra é o quadro multidimensional de infinito branco. Me acordando pontualmente todo sétimo cacarejar já terrificado pelas cobranças matinais antecipando os sabores da banana murcha e do café amargurado. Faz tempo não vomitava palavras assim fluxuais neologismos fora de estantes rótulos aqueles moldes que usam em prédios e a gente metaforiza em construções da psiqué. Perdão o francês fora de hora. Faz tempo ando sumido. Quem me falou foram as responsabilidades quando passei por elas rapidamente na porta do mercado. Tinham desistido e pretendiam passar férias em Nova Iguaçu. Foi ali que vi que haviam seus motivos em viver assim pude indicá-las a Avenida Brasil. Segue reto toda vida e vai. Acho que foi entre um café amargo e uma banana murcha que me contaram.

Voltando ao universo em que agora revelo ser meu quarto. Sob o ardente reflexo do amarelo-laranja das linhas da porta clareou um pensar. Para o fim da fuga uma subversãosinha de leve. Vou riscar de cor a parede negra. Vou pichar de ideias o quadro branco. Depois então vou passar em Nova Iguaçu. Dizem que é lindo nessa época da vida.

Sérgio Loureiro

tracejo

Se eu tivesse um lápis, desenharia uma flor em seu corpo
No traço que faço, um sorriso, um pouco de cor
E se chego mais perto vejo de longe o amor
Uma nave espacial que te leve pra perto comigo
Um barco atracado atrai o pecado abaixo do umbigo
Nos seios um rio, um leito me leva à perdição
No peito, que jeito? faria um enorme coração
Pra que eu caiba perfeito dentro da sua imensidão

Sérgio Loureiro

o que a ponte traz e separa

a cidade é tela de sua própria arte
os prédios, a minha vista remedia
tuas curvas, encostas, favelas: poesia de entardecer púrpuro
os instantes, diante a ponte que tudo presencia
Sou um porto, aéreo à melancolia
Que me visita toda noite fria
Sou um pouso forçado ao futuro
Os teus rios de janeiro a abril
Dezembra em pleno fevereiro um sentimento tardio
Assola em meu peito ser o que partiu
E o que a ponte traz
Separa o que fui
E o que não sei o que serei

Sérgio Loureiro

a melosidade que me constrói

Eu troco
O meu seriado dominical
Pelo nosso cereal matinal
Troco
O meu solo melódico
Pelo nosso dueto desafinado
Abro mão do meu histórico
Se for pra termos um futuro
Eu troco
A TV de canal
O açúcar pelo adoçante
Meu vícios, por manias bestas de casal
Minhas horas de sono, pelos nossos instantes
Nossos passos juntos, por sonecas com pés entrelaçados
Eu já nem faço questão da Minha gravidade
Se praticamente perdi a gravidade dos fatos
Absorvi todos os impactos

Sérgio Loureiro

casulo

O que o espelho me mostra?
Assim, nublado, mal consigo ver
Há vezes em que sou um menino inocente
Em outras, um homem perdido
Que ainda se assusta com a barba em seu rosto
A imagem não é nítida
Mas quem sou eu para cobrar certezas e convicções?
Daqui, o que vejo é desespero
Para fora do espelho
Como posso ter domínio de mim
se nem sei qual penteado combina comigo?
O corte do meu cabelo reflete anseios
Às vezes prefiro que seja curto e não me dê problemas
Mas por agora espero que cresça e se enrole nas suas raízes

Sérgio Loureiro

vale a pena sofrer de novo

Ancoro os meus pesares
em males profundos
De imensidão oceânica
Em meio a tormentas e caos
Sou nau em águas túrbidas
E a luz solar que me chega é um farol à beira do cais
Então Afogo-me
De tantos falsos afagos
providos por mesmos falsos amigos
Oriundos de oriessas e orioutras
Categorias animais
São as mesmas vespas postulantes a abelhas
Que não são

Sérgio Loureiro

sentimentalismo à la caetano

Nenhuma imagem me é permanente
Bem como não são profundas
Nenhuma ideia é tangível
Tudo passa
Nada fica
Mas você vem
Frequentemente
Aparece e some
Como faz todos os dias
No fundo dos meu olhos
Onde não posso enxergar
Você vem
Meu coração logo percebe sua chegada
Para
Sente a morte pós encarnação
Se desespera
Respira fundo e volta à vida
Mais forte
Disposto a lutar
Contra tudo e contra todos
Para depois
Em último suspiro
Se entregar
Ao seu amor
A ti
Sem pudor
Meu coração parece saber o que quer
Expressa isso em suas batidas
Onde percebi seu manifesto
Sua manifestação
Seu anseio
Escorre para meus poros
Exalo em emoção
Já não há mais volta
Sou teu sem tu saber
Sou teu sem me querer
Não manifesto sequer detalhe
Que possa me socorrer
Me denunciar para ti
Dizer aquilo que não mais posso negar
Orgulho teu
Preconceito meu
No fim da música
Seu rosto
Sorrindo
Ri de mim por estar escrevendo isso
Ri do texto
Metalinguístico sentimental
Autoexplicativo

Sérgio Loureiro

Nuances

O apartamento apartado
Bem perto, quase colado
Do Barraco apertado
Escorado, amontoado
Lado a lado com outros Barracos
Lado a lado entre o certo e o errado

A dor do parto
Partindo de minhas entranhas
Partiu-me a cabeça
E antes que eu me esqueça
Lembre-me de notar
Que perto de um apartamento apartado
Há sempre um Barraco apertado
Há sempre um Barraco apertado
Onde agora nasce mais um “pobre coitado”
Onde sorri um sonho acordado

Sérgio Loureiro

O risco

o risco
na encosta da parede
na beira do edifício
a princípio
marca só
mais uma resistência cotidiana
uma morosa tarde de sol
parado na sombra daquilo que é
o risco percorre
o muro que construí
curva-se à vida
me mostra que aqui parado
à deriva
não corro o risco
de ser feliz

Sérgio Loureiro

dálias perdidas em palcos vazios

porque jaz minha flor
no desabroche do botão de minha camisa
abarrotada após um gole de vida
amassada, como o papel de minha poesia
abri para os pétalas do meu peito sentirem a brisa
tal qual fizera meu pai em outrora doravante
vou seguir meus passos errantes
que é melhor do que os seus, errados
a partir de hoje, quero apenas o que for inventado
sou tropical, tropicália
efervescência ancestralizada
não mais rosa, mas dálias.

Sérgio Loureiro

Carta ao velho petiz Sr. da Vida

Velho desconhecido
que me viestes outras vezes
Flertara comigo em ocasiões inoportunas
recusastes meu não
para a mim retornar
Sujeito teimoso
sabes que a ti sou vulnerável
convencido de falsos orgulhos
rejeito-te com soberba
no instante em que n’outra mão rogo pra tua implicância
Agora que me viestes
Que a ti estou entregue
Conduza-me pelos rios misteriosos
Banha-me com sua sabedoria ímpar
Faz-me entender-te
Pois não demais
Estarás novamente em minha porta.

Sérgio Loureiro