Eu tenho sido seguido. Não achem que não percebo os olhares atrozes, críticos, marrons sobre meus ombros, mirando a jugular. Ansiando pôr as mãos em minha garganta até que os dedos se cruzem em um largo ponto final. Posso ouvir suas gargalhadas, seus risos frouxos e até, credo, seus desviares de penar. Esses me gelam a espinha. Difícil andar na rua sabendo não ser o mais covarde na calçada. Enorme responsabilidades atribuídas tão subitamente. Dois dedos – com as cabeças ainda nem calejadas, mas de perto nota-se, com certa bondade, algumas marcas típicas – nos separam. Dois dedos de coragem. Não ousei nada mais que isso. Puseram vocês, os rótulos. Estava apenas derivando, à deriva. Quem não estamos? Eu gritei, tu me ouvistes. Sabíamos onde éramos e sabíamos onde íamos chegar. Eu disse que eram palavras escarradas, o que diabos esperava? Sentimentalismo barato, meu caro. Isso é o que mais vende. Mas não se paga. Literalmente. Na indústria literária, digo. Viu? Como podes me exigir sem nem mesmo a mim consigo entender ou me fazer entender ou ao menos me esforçar que nesse texto exista mera compreensão que não em um deslocamento outro. Posso te ensinar a sentir, não a entender. Já não entendo nada faz tempo. E tudo que lembro estava escrito em um livro sentimentalista. É isso. Quando cansares de procurar esplendor, sublimação e pureza divina, venha saborear comigo os prazeres mundanos do pieguismo.
Sérgio Loureiro (às vezes é difícil escrever meu nome)
