sobre vírgulas

você me disse, certa feita, que tudo é real e que as coisas pertencem a si. jamais ao “se”. elas são. instantes categóricos onde o aqui e agora se faz presente. onde se escreve o fio da vida em uma linha tão direta quanto paralela que corre pela avenida do destino com pressa pois sabe o que se encontra na linha do horizonte em seu infinito particular e já não há mais tempo sequer para respirar afinal de contas vírgulas para quê? não lembro para onde estou indo, ou voltando. de certo que me perdi nesse encontro (e existe uma sutileza despretensiosa nesses encontros de rostos desconhecidos perambulantes nas ruas de um cotidiano que não me pertence mais). estamos na vírgula da vida. entre o porvir e o devir. o entre atos, o momento oportuno. que grande peso, o de ter o pulso do tempo em mãos. apenas o teu sorriso – aquele, tão espontâneo quanto arrebatador, de vida própria e certezas profundas – tornou leve o instante em que agora escorre a areia da ampulheta por meus dedos. e de mãos abanando eu te vi se aproximar, flores nos olhos e o sol no peito. teus adornos ganhavam jeito, os teus contornos (divinos!) e tua presença era um fenômeno tão perfeito quanto a água, a noite e o paraíso. e eu era um menino com medo do escuro, apaixonado pela lua. tenho-me questionado: quanto é preciso saber – ou, principalmente, não saber! – de alguém para se apaixonar? não depende de nós. nós, inclusive, somos os laços desatinados, desatados por natureza, em encontro casual e perene. não importa de onde veio, ou para onde vais. apenas onde te faço companhia em seu caminhar. no seu instante: a minha vírgula preferida. precisa-se de pele. precisa-se de sentir. menos de dúvidas. as minhas estavam à venda. à vista. mas foram larapiadas pela certeza súbita que agora me assola. em meio à toda incerteza e ao desconhecido, você era. simples e real. uma deusa-mulher que me dilacera. uma miscelânea celestial reunindo tudo de lindo que a meus ouvidos já foram visitados. era também a saudade, o testemunho, a alteridade. a lembrança de uma cidade, cuja energia é única e astral. cósmica e cosmopolita. ô terra, que me tem e de quem me levaram distante. ô terra por quem estou apaixonado por uma menina também terra, signo de elemento terra, para os meus pés, firmeza, para as minhas mãos, carícia. e sem sequer saber se aqui ou lá (mas certo que com você estava em qualquer lugar), me foi tirado também o suspiro. o último suspirar, pois não há mais tempo, não há mais pausas, não há mais vírgulas. as vírgulas são. tudo é real,

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