as réguas do desejo

declarar-me-ei a ti. sob o véu que encobre o certo e o perigo. a manta, que nos ombros dos homens, os torna meninos. no meu detalhar perfeito indutivo, que teu olhar, intuitivo, capta, no jeito, sentido. montado em minhas palavras, cruzarei as encruzilhadas da gramática, os desafios da semântica, para ser mais do que errático romântico: exótico, exato, preciso. conciso em minhas terminações radicais, precavido em minhas orações quase diretas. não mais. enfrentarei os monstros do apagar, a borracha da memória, para nunca esquecer de nossas primeiras estórias. foram os teus dentes, sorriso, acompanhados das tuas pálpebras fechadas, pétalas índigo. castigo. era mais que um pedido, um mendigo. perdido, tal fosse o meu destino, suplicando por teu abrigo, estava errado desde o princípio. era mais fácil enfrentar as lanças dos fariseus e a fúria dos soldados de roma ferindo-me sobre a cabeça de espinhos do que dotar-te. seria mais leve carregar as cruzes do desamar, do que desafiar o sentido do sentimento, pô-lo em métrica, rítmica e poesia. mas quem não o faria, depois de tamanho testamento? agora crucificado, pregos nos pés, pregos nas mãos, rogo por ti. filho de quem sou, desta Mãe Língua Portuguesa, tão rica de terra e tão carente de manejo, invoco a tua clemência. nessa súplica severina, o meu cordel é minha sina. o teu destino é meu desatino: te caçar uma rima. logo tu, menina, matéria prima nordestina, acaso de ser uma figura divina que em teu nome já ensina: não há nada mais encima. não há nada nesse meu vaguejar entre as veredas da linguística, ao grande sertão do palavrear, que possa, minimamente, me expressar. por ser tão, em tão pouco, me faz admirar. por ser de lá, dói em mim um sol maior. sol que sopra e assobia. secura de quase tudo, menos de saliva. desculpe o estribilho, quase não tenho amigo, quase não consigo. solitário, fui transeunte vagante pelo navegar, pois esse é mais que o viver. vi, ouvi e provei que coisa mais difícil não há, do que dizer tais palavras à você. pois assim, letra por letra seguido, estarei sempre comedido. com medidas precisas de uma régua invisível. traçando no infinito o ponto definitivo. o acento circunflexo. é grave a crase. mas resiste o que existe. e ainda há em mim desejo pelo ensejo do beijo derradeiro. vem ser meu canto, meu verso, meu soneto. vem ser poema no árido deserto, vem ver de perto o que te vejo. pois essa é uma carta de amor que não acaba e não tem fim. como teu sorriso, que se foi, mas ainda está em mim.
sérgio loureiro

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