porque existem as fronteiras

Perdemos muito tempo em pensar no depois

esta é a confissão de um coração que estava deserto. vagueando cintilante entre meandros e melismas uníssonos que sigilosamente evocaram a alternância dos fatores do acaso. não pude notar eles vindo, mas os fatos invertidos remeteram ao eu lírico o protagonismo antes negado. o “deixa a vida me levar” trouxe ao abismo e um abraço. a vida escapa. agora, abismado, o solitário trovador, cético, põe-se a refletir em pensamento aritmético. o mundo parece distinto. melindroso, dramático, drástico. de repente, pássaros gorjeiam quânticos cânticos românticos. discretos tônicos de deslocamento atômico, quase imperceptíveis, quase inofensivos, mas de efeito sônico dentro do sentimental peito do poeta, que agora margeia o oceano profundo. não são meros prantos em pratos limpos. um alço ao bálsamo, uma porta para o passado, um céu estrelado. a vida escapa. leva e traz, como um caminhoneiro sempre na estrada, quase sempre de madrugada. movido pela pressa, inquieto, coração disparado, mas guiando com cuidado pela via aberta, mãos no volante, olhos no retrovisor, cabeça em torque e o nome dela gravado no para-choque. as paisagens são um horizonte trêmulo aos olhos úmidos, as faixas passam, as placas cortam, tudo fica para trás e nada pela frente parece aparecer. não há espaços para planos. a vida escapa. amanhã já é outro lugar. os planos são mundanos. os amores são reais, fantásticos, divinos. e por assim serem resistem ao traço do destino, às linhas da vida, às interrupções do acaso, ao fim da estrada. mantenha-se inquieto. estamos vivos e isto é tudo.

sérgio loureiro

 

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