o não-sentir. que fardo imenso, o de carregar em si o dom de racionalizar. e, então, atribuí-lo ao sentimento. poder, assim, de uma vez por todas, distanciar esse sofrimento que agora me assola. é louvável o nosso desenvolvimento enquanto espécie. mas é fato que de algo se carece, ao que tange à carne humana. durante toda semana é a mesma circunstância: a minha mente padece, a solidão cresce, nada acontece que me tire do movimento retrógrado. retroativo. reticente. parado, todo movimento é bizarro. por que correm os carros? para onde correm as crianças? no que pensa o açougueiro quando corta a carne? no que pensam as crianças, pela janela dos carros, vendo o sangue escorrer pelas mãos? pensam na mulher mais próxima? nos filhos que são? nas flores do mar? no mar de flores? penso que tão cedo não ouvirei o riacho que corria logo abaixo da minha janela. penso no morro, e se muito penso, morro. penso na vista, e para que não muito insista, sejamos breves: continua sendo impactante estar distante do que fui, do que sou, do que serei. orbitante no oco e no inócuo. no inoperante ser negativo do sentir.
eu sou o açougueiro e seu pensar. eu sou o animal abatido e sua carne dilacerada. já não me recordo as palavras. estavam à mercê do sentimentalismo. foram todas trocadas pelo chumbo que agora carrego comigo. precisa-se de pele. precisa-se de sentir.
talvez eu volte. um dia em que eu não esteja tão cansado.
sérgio loureiro