em preto e branco, mais um dia se vai. lá fora um frio lindo, com a garoa paulistana cobrindo sonhos e telhados, cercas e cercados. a noite cai. os olhos cinzas como a cidade e os pensamentos inocentes voando no alto dos prédios, cortando luzes, antenas e fios. as estrelas se escondem entre as nuvens de fumaça, nuvens de algodão, nuvens de sonhos cobertos pela garoa. o céu era uma noite normal em sampa. concreta contra a parede fria, sentada vendo carros correrem pelas ruas, ruas correrem pelo asfalto molhado da avenida Afonso Pena. não houve o que duvidar.
em preto em branco ela se veste. a Terra, cinza, da cor do seu vestido. a Terra gira, como a flor no seu cabelo. a Terra atenta ao primeiro sinal de vida em seu sorriso no espelho. fora de órbita, outros braços estendem-se a si. entocada em seu quarto, uma só constelação estelar. intocável, a Terra gira no eixo de seu dedo. a Terra, vista assim, até faz sentido ser e estar.
duvidou. talvez por saber que o armado atira até por medo de que um outro atire primeiro. teve medo. o rádio da vitrola tocava uma canção que dizia “minha tristeza tem sabor de cigarro, mas dentro de mim você pode me ouvir cantar”. cansada, atirava pedras em vidraças e as vezes achava que não haviam pedras suficientes.
em preto e branco, uma foto junto ao junco. um conjunto de flores mortas no vazo feito de cinzeiro. cinzas regendo um enterro. não houve sentimento presente. ouve um silêncio que se rompe, sorrateiro. subitamente deseja sentir o tato do tácito, o implícito à flor da pele.
em preto e branco, ela tem algo a dizer. antes mesmo de ter as palavras. palavras sufocadas já não cabem nas páginas rasgadas do caderno amarelo. ouve promessas de felicidade. dentro de si, não se sente neste lugar. desejaria viver em Júpiter onde as almas são puras e a transa é outra. não que seja a mais virginal de todos os tempos, mas seu perfume tristeza contrasta com o cheiro e com a dúvida que acaricia na ponta de seus dedos.
em preto e branco hoje vai se rebelar a maior de todas, estrela lunar. no apartamento, oitavo andar, um deserto perfeito. num país sem nome, outros homens mantém-se satisfeitos. como se pudessem prever o vento. como se pudesse duvidar. em preto e branco, um cartão postal de Paris. um casal ensaia-se feliz. um soco em cheio no peito. este amor em seus olhos já se fecharam. não abra a porta se você não pretende entrar.
em preto e branco hoje vai se revelar. batom vermelho para quê? a noite é sua, a dança sua. aos corpos quentes, pedras de gelo. em preto e branco, é hora do adeus. cigarros, gato, cartas espalhadas pela sala, cartão postal e uma mensagem no espelho. o disco torto na vitrola contracena perfeito com o que há la fora. as vivas cores do destino desbotam na palidez do pensar. são tons de sim, são tons de cinza. em preto e branco sabes exatamente o que vai ser.
o seu pensamento tem a cor do seu vestido
sérgio loureiro
❤
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