tempo entre linhas

o tempo e as tuas mãos enrugadas
acostumaram-me aos carinhos
em pelo pele encravada
mãos que me deram de comer
das dores e delícias
e apontaram o caminho

Para o tempo
e o amarelo que fica
a concretude física
carnal divina
pois tudo que move é sagrado
no toque
de uma mulher que recusou morrer

o tempo
e o sopro do vento nos meus cabelos
encaracolados ao destino e o porvir
virá
calvo galopante sem rédeas ou frenagens
solto grisalho na loucura fina da paisagem
sorriso distante que se aproxima
no ritmo rouco da rima

o tempo e o ventre expansivo
dentro sorri o destino
menina ou menino
certo sensível
de que tempo há de prover e tirar
o que nem as enrugadas mãos conseguem evitar

o tempo preso numa foto
junto a uma fonte

que não seca
cega e mata a sede
do viajante e da dúvida
desatina, onde nem fui ainda
esse meu paradeiro sem fim

o tempo e um relógio no pulso
de quem acha que tem o tempo
nas rugas linhas da palma da mão
ou no curso do rio
caudalosa abstração
de um menino vazio
caçando borboletas renovando o mundo
num relativo pueril

o tempo
uma máquina incessante
dispara e aperta o peito
silenciosa
sacrificada em poesia pura e pontual
sem pontuação
tempo para quê?

Sérgio Loureiro

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