essa é para você contar aos outros na rua.
essa poesia pura, nua e crua. tua como teus dentes que se atrevem a atravessar a minha carne quente a um mero instante do contato aos meus ócios, meus ossos, meus órgãos, meu âmago, para, quem sabe então, meu corpo literal, meu antieu, minha essência antes posta em prática pelo meu ser vivente.
quem sabe o meu desmoronar demonstre mais que as palavras sentidas – não ditas – tentaram falar. quem sabe em nome de algo eu possa dar, à vida ou ao desamor, o infortúnio ato de despejar – e quem despeja um dia não tem mais água para dar.
essa vem de longe. fui procurar no dicionário a direção exata, o ponto ordinário ao que eu possa, enfim, me perder. outrora vaguejante vaqueiro na vastidão do palavrear, agora nada mais a ser ante o que há. sou desculpas e teimosia, sou demora e a agonia recém-nascida do primeiro ar.
você sempre quis estar neste papel de folha branca e curvas desalinhadas, ornando o rasuro ao desenho de trato infantil. agora esse canino que se mostra ao liso sorriso arredio está no verso subversivo punhado à mão do descaso, e se escreve tal qual o apunhalado peito do teu aço frio.
tu és a morte e a vida. é o mundo inteiro se acabando. é sentir a célula-prima da natureza de todas as coisas se partindo em um espetáculo piromático, e depois se apagando. é o fogo-rei que contrai as entranhas num rebolado de devastação e magia. é brasa que não queima, mas arrepia. é, e é isso todo dia. um fenômeno raro e obtuso, diferente como cada qual há de ser. és a beleza na noite trancado numa cela. a fúria e a alma de uma pobre donzela. és o resgate do náufrago atendido em oração, és a colheita divina quando estendo as mãos.
me leve contigo. amassado, no bolso de sua calça. ou mesmo perdido entre tuas coisas na mochila. agora nada mais me importa se nada me acalma. podes me mostrar aos teus amigos desconhecidos no meio da rua. a gente é esse grão, indo de mão em mão, caindo em tentação.
só não esqueces de mim. esta poesia que é uma recordação, um segredo entreaberto, é também uma tentativa. mas, antes de tudo, uma confissão.
sérgio loureiro