certeza sensível

era cedo quando uma certeza sensível invadiu meu coração e fez dele sofá em manhã de domingo. um furtivo zumbido adentrando pela janela, trazendo aquele som ao definho. tão afiado, tão ligeiro, que eu nada pude fazer. categórico de si, carregava consigo a convicção da dúvida de sua própria natureza. afinal, assumira muitas formas até aqui, não sabia exatamente como me vir. talvez neblina nebulosa, talvez raio de sol e passarinho. talvez duvidando de si, ou de que a Terra dá voltas ao sol. talvez brincando de achar, encontrou-se só. nenhuma surpresa, a sua chegada me fez, quando ouvi seus passos aos esbarros na cozinha, arrastando os imóveis pela sala. vejo que seus tropeços medraram o sentir, agora que sinto seu amadurecimento frutificar – não em um vazo exposto na janela, mas pelo campo, ornando com outros carvalhos, barbosas e jasmins. soube de tua vinda desde o princípio do saber e estive com ele até o fim. comparo a sua chegada a uma ilha que fugiu do continente. pois agora que vieste e que teus pés descansam sobre a mesa, sinta a vontade. tire o pesar no que passou, nem o tempo aguenta mais o peso desse relógio. aconchega-te nessa concha de fora que escolheu te cobrir, e, talvez, repousa. ama esse insólito desejo de se fundir ao estranho corpo outro, ama o inóspito e o descobrir as novas terras em pedaços de suculência em carne em osso. percorre cada centímetro sentido meu. pois o meu corpo é solo, e como toda superfície, esconde seu ouro. o meu corpo é poesia que você jura ler com a língua. e então, sente-se salva quando se despede ao despir-se de toda insegurança e medo. se converte no que já era por essência e beleza inata. assim, fraca, reergue-se venusta exuberante, lenta e sadio, forma e conteúdo. tal qual regente cabal destemida ao esmo. ciente que a constância das incertezas é a volta de todo partir, tem na essência a negação do existir. descobre que lar é o “a” de abrigo que há no aqui. e aqui, por fim, encontra moradia, me preenchendo – não de promessas vazias, mas de perfeitas incertezas sobre o amanhã. chega e me diz coisas que não diria para si mesma. com calma, depressa, sem agonia. eu tenho todo o tempo do mundo, mas eu te quero agora.

sérgio loureiro

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