notas da calçada

Eram quase uma e meia da madrugada da quinta e eu estava parado na calçada do lado de fora da festa. No oitavo andar do apartamento do outro lado da rua um homem abre a vidraça, cigarro pendulando na ponta dos lábios. Espreguiça-se abrindo os braços ao que se passa: carros, motos, vira-latas. Dentro do bar entre todas metáforas mal entendidas repetidas incessantemente ao som das batidas, você suava. Suava e não eram minhas mãos a te secar. Suava e o samba já não suportava o tamanho desse calor. Em meio às fumaças cigarros cinzas, silhuetas se entrelaçavam do lado de dentro para fora. Sentado sem saber ao certo o que fazer da vida, ciente de que o que me restam são apenas as suas sílabas, solucei. Solução nenhuma surgia. Logo eu que nunca soube fazer somas entre vírgulas nem tampouco ousei aprender – talvez por isso contraí tantas dívidas. E no fim da conta no bar onde está você? Espero que escute essa canção que não se dança mas se baila. A estrada é longa a vida é curta e entre todas as curvas e bebidas espero que se encontre a paz. Que seja, nesse caminho que te leva para o outro lado da festa, passiva e possante. Passageira e volante. Um passo errado e o outro errante. A vida não é mais vida quando vivida dessa forma e geralmente passa despercebida, como o casal que se entreolha na minha frente. À sombra das silhuetas que acompanhava quase que cinematograficamente, à moda que não volta, ao descaso próprio com a sanidade. São uma e meia e eu não sei se já se diz bom-dia. São uma e meia e a sua insistência em sumir satisfez a minha perseverança. São uma e meia e não se passa mais nada, não se ouve mais nada, não se dança mais nada. Não há janela e nem estrada. Mas se for dirigir essa noite fique comigo só mais uma vez. No rádio as notícias mais tristes são as mais repetidas. Por aqui o que me restam são goles de sensatez.

É difícil acreditar o que o sol é capaz de fazer nestes dias desde que é manhã neste exato momento em algum lugar. Então bom-dia!

Sérgio Loureiro

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