Hoje eu acordei angustiado. Acordar, a início de conversa, é mera formalidade linguística. Desde que esse resfriado começou, eu não tenho uma noite contínua de sono. A saudade ainda assola o rosto desamparado de alguém que não se vê inteiro nos estilhaços de um espelho. Mas a angústia – essa sim -, de longe, é o sintoma mais preocupante. Agravada pelo isolamento e ainda mais pela interação virtual com os outros confinados, ela dilacera a esperança que ainda ilumina esta cela.
Pode parecer ironia àqueles que intimamente me conhecem, os quais agora me destino, mas não sou uma pessoa extrovertida. Todas as minhas vivências e experiências são mais fruídas em processos internos do que externos. Quando estamos rindo juntos, simultaneamente dentro de mim, estou ruminando os sentidos, ocultando os sentimentos, ressignificando a risada. Aquilo que chega à superfície é apenas produto de exportação. Mas nem por isso deixo de lado uma característica essencial nesse fardo de me ser: a espontaneidade. Não me interessa ser nada além de quem sou.
Há uma razão por trás. Fui criado sozinho, sempre mudando de endereço, afastado de qualquer noção de núcleo familiar e constantemente impedido de criar novos vínculos efetivos de amizade. Muitos dos doutores que posteriormente analisaram meu caso, condenam à esta formação parca de afeto as razões de meu comportamento “imprevisível, impulsivo e com fortes tendências ao uso de substâncias psicoativas” (SIC).
Foi na solitude em que criei o hábito (antes de sobrevivência, hoje de pura vivência epicurista) do autoexílio. E isto cria um caráter analítico infinito: sou regido por códigos de conduta que se atualizam a cada experiência simultaneamente vivida em processos internos. Tais condenações sociais – as quais hoje pago o preço com o suor do meu confinamento e o definho físico e mental – não são nada se comparadas aos perjúrios que cometi a mim mesmo durante esta longa trajetória.
Mas nem tudo são espinhos. Minha condição me possibilita estar sempre em dois lugares: o aqui e o meta-aqui. Assim, não há prisão que se limite à solidão sem fim. O exílio é o confinamento no confins que há em mim.
Mas este é apenas um preâmbulo ao que me direciono. Durante esse período em que o mundo se tranca em casa em meio àquela que já é chamada de “crise da geração”, tenho acompanhado de tudo: desde as coberturas combativas, massivas e massantes da mídia, às reações e interações das redes sociais – ambas vistas sempre de relance em pequenos quadrantes permitidos pelos oficiais da ronda. Incrível o que os olhos são capazes em tempos de fadiga mental. Membros mais ávidos do meu organismo, não acomodam-se nem mesmo quando o corpo clama por repouso. Estar em estado constante e perene de vigia, de caça, à procura de algo – e algo é tão absoluto quanto possa parecer. Algo é qualquer coisa. E de qualquer coisa, o mundo está cheio.
Parece óbvio que existe uma certeza universal pairando sobre o coração de cada ser ainda humano neste planeta. Nossa existência necessita uma revisão. E não é alarmismo, é constatação básica de algo que deveria ser inerente. Com ou sem crise. Em um dos artigos capturados pelos olhos ávidos, o autor lembra da situação da tão enaltecida fronteira livre da União Europeia, agora suspendida. Muros se erguem enquanto costas se viram aos, antes, irmãos, que agora se olharão com a desconfiança da contaminação – livres sequer da preocupação de seu E/estado.
Novas certezas emergirão. Como a de que nada é irreversível. Estamos presenciando o começo da ruína de antigos contratos sociais, como a liberdade, a democracia como a conhecemos, a benevolência, a segurança e a saúde pública – conquistados à sangue e suor pelos que agora constituem o principal grupo de risco. Elas não deixarão de existir, mas certamente estarão sob outra perspectiva.
Quando o contato social for reavido, tudo será como antes, mas antes jamais será como fora um dia. Quando as celas se abrirem, e o sol nascer redondamente esbelto em algum horizonte imponente demais que me mostre a grandeza da insignificância de ser quem sou, lembrarei dos tempos de exílio. Lembrarei do cárcere e do martírio. Lembrarei de tudo que dê tempo, pois há pressa em abraçar um amigo.
Eu não sei como dizer, nesse momento de incertezas, onde tudo é tão duvidoso e todo passo é dado em falso, para onde vamos daqui. De certo que a algum lugar, pois um dia deixaremos as celas, um dia sairemos das virtualidades dos quadrantes, um dia teremos que assumir o papel que nossos pés tem: não o de caminhar sempre em firmeza, mas o de caminhar. Não o de nos dar equilíbrio, mas também, por vezes, nos levar ao ar. Não de nos guiar a algum lugar de paz, mas de, acima de tudo, romper antigas fronteiras.
Sérgio Loureiro