eu não quero mais fugir. estou cansado de despedidas e de saídas de fininho. percebo que finjo escapar de algo que está preso à mim. me persegue sempre – e tão somente – quando me ponho em disparada. saio catando frases pelo caminho. coleciono sonhos – maioria, vazios. entre tombos e tropeços, vez por outra me esbarro no acaso.
por estar desatento, não lembro como me viesse. se em orelha de livro ou panfleto ao chão. talvez um post aleatório que tenha me iluminado (e, de repente, isso me faz lembrar da metáfora de que Deus é um poste: passa boa parte do seu tempo ali, despercebido enquanto há luz; mas basta um segundo de escuridão para se tornar essencial).
estampada estava tal qual jamais pudera ignorar. sei que durante muito tempo não busquei entendê-la. apenas aceitava-a como fato – e achava lindo, como ainda me vejo encantado pela sua beleza profunda e misteriosa. um preceito bíblico, uma ordenação constitucional. um poema de si. agora, cansado de partir sem levar, eis-me aqui: decidido a descifrar os mistérios que te convém, acordado para o sentido precedido ao além.
“o olho é uma bandeira”.
o que é uma bandeira? uma demarcação, um registro de posse? uma bandeira é um ato de rendição, um pedido de perdão e clemência. uma bandeira é uma ideia vivida em conjunto, a união coletiva de indivíduos em prol de algo único. uma bandeira é um símbolo, uma representatividade.
já o olho…é uma lente. é a representação do mundo a mim. eu vejo aquilo que é, mas aquilo como é? o olho também é rendição. o olhar que cai, despenca, sucumbe ao outro por paixão. o olhar que se desvia, faz vítimas de olhar perdido. o olho entrega. o olho dá bandeira.
por longo tempo estivesses acompanhando-me. em todas as fugas, presa a mim em uma página abarrotada de caderno, ao lado de uma mancha de café, talvez? tantas variantes já foram criadas diante ti. todas fadadas ao mesmo destino massante: páginas rasgadas de uma história que não se conclui.
por fim, nenhuma poesia deu-se, enfim. tampouco há para onde ir daqui. resta esse registro pessoal onde descarrego tudo que há em mim. só não há poste aceso nessa rua escura na qual trafego. agora, também não há ti. que se eterniza nesse conto sem fim.
sergio loureiro
* que se finque olhares em novas descobertas.