essa noite, Laura era astronauta
voava e batia as asas
como se fossem esforços válidos.
penas e taças se arremessavam pelos lados
pelos e lábios em contato equidistante
laços dados em linha de cetim.
sobe de longe, a lua vai
o clarão vertical
anuncia em tambor o seu nome alvorecer.
num dadaísmo reverso
golpe de pragmatismo à revelia
um faz-de-conta que faz sentido
passaria em minha TV.
nesse delírio escatológico
de comportamento óbvio
sacramentado o inócuo
sangue tinto, clorofórmio
utopia, sonda espacial e unicórnio.
sabes, de longe, onde flutuar
tendes as firulas das manhãs
dentes nas frutas – o sabor da maçã
o que seria da sereia que rega corais no fundo do mar?
preenchida pela alegria do profano
arremetia-se em sonhos tão mundanos
caindo de cabeça no universal amar.
“é tão bom não ser divina”
e, serelepe, saciar a sede
do carnal desejo
do peito, o leite quente.
já rodou o mundo
fez a volta errada
deu lugar a tudo
fez muita sacanagem
arrependeu-se, muda
já sentiu saudade.
mas retornando ao discernimento
copular astral
melantonina em dissenso contratual
rompe a barreira do sono inabitual.
afã do afago ao lado
me acordou com olhos esbugalhados
me dizendo no espelho:
“sou forte.
meio doce e meio ácida.
em alguns dias acho que sou fraca.
e boba.
sou gente.
mais tarde, hei de ser.
me acorde às seis.”
sérgio loureiro