eu posso falar sobre o perdão. posso falar sobre os sabores e sobre o vento. posso contar os acasos oportunos regentes desse fantochismo porvirá, dos descuidados distraídos marionetes que se esbarram por mera implicância ao caminhar em trens ou plataformas de encontro casual. ou efeito causal consequente. sobre esse cotidiano consciente (ou não), em que todos cientes do rumo dormem no caminho. / posso falar sozinho sobre a ancestralidade evocada, esse tropeço no destino inclinado ao fino passo em que se dá em uma corda-viva onde todas histórias parecem amarradas. dessa linha-agulha que me guia ao espetáculo, desse palco e dessa luz que me cerca. dessa vida, que é circo. desse equilíbrio celebrado em fases que marcam a pele. cicatrizes. felizes são as novas como bem são as velhas formas de se encontrar. / posso falar sobre nós. nessa coincidência em que se resgata o ponto de encontro e partida. a incidência do sol é a marca da vida de um novo dia e voltar para casa é fugitivo se o melhor lugar é agora e aqui. / posso te falar dos sonhos cheio de medos e dos receios em que me despi ao seu dispor. ou de como a cidade mudou, e no trajeto você mudou, a vida mudou e tudo agora é um deserto. posso falar, mas prefiro que seja de perto.
queira. escute essa canção. ou qualquer bobagem.
eu posso falar das luzes azuis da sirene, e de seus olhos. e desse acaso entregue somente aos encontros que nunca tiveram fim. e então falar dessa sorte a nossa e a vontade que eu tenho de sair por aí. ir por aí, por aí afora. numa estrada que só me leva, nunca me traz. uma estrada de terra que não me pergunta onde foi que me perdi. sentir o barro, beijar a pedra, ser o pó. eu e você, no banco de trás de uma carona. me encontrar longe, mas na tua cama. viajante com você perto a mim. e você é luz da manhã, é de lua, de fases e frases cantadas ao verso que se escreve e encerra sempre com um final feliz.
eu realmente poderia falar. para quando você pudesse ler. e quando você me perguntasse, saberia dizer. diria algo mais do que viria à boca. diria, exatamente, qualquer coisa.
sergio loureiro