Guardo estas palavras para quando vieres.
Este é o relato de alguém ofegante que respira entre as linhas escritas e o fim do pavio.
Sou algo, até mesmo o resto. Sou o que evidencia, evoca a si, e se esconde para debaixo do tapete. Às vezes sou a gota intransigente de refrigerante, tensionada entre os dentes. Às vezes sou onda que quebra corrente e te traz para o meu meio-mar. Em outras, até sou gente.
Trago este perfume que exalo e me entala a garganta. Cheiro ao doce suor nos amargos da boca que me estranha. Bom ver o tanto que já caminhei para cheirar aqui.
Sento meus olhos ao repouso dominical, aconchego meus anseios em poltronas de veludo. Pois agora que sei que vens, peço sossegado. Quase mudo.
Os dias, por aqui, são mais do que páginas desesperadas – dependuradas pelas pontas – que caem detidamente, como as folhas de jornais e os outonos ainda sazonais insistem em cair no meu quintal. Foi quando passei a despender o tempo necessário para que nada escapasse que soube pela primeira vez do teu sinal.
Enquanto te escrevo, ouço rumores e notícias de política na tevê. Um chá, quase pronto, assobia e o movimento migratório dos pássaros bate asas pela cozinha. O Flamengo perdeu de novo, o dólar subiu e o presidente é um otário.
Tanta coisa acontece em tanto lugar.
Vais descobrir que adoro o barulho de chá pronto às seis. Entre essas e outras ninharias, um ninho de Bem-te-vi no assoalho do telhado me faz companhia.
Lido com a terra entre os dedos e me pergunto: “quando estive sozinho?”.
Tanta coisa acontece em tanto lugar.
Às vezes penso se a terra é o tapete de Deus. Tenho escondido coisas bonitas pelo simples prazer de reencontrar.
Dos meus dilemas, os que te esperam volta e meia vêm me perguntar de ti. Tua chegada é mais que resposta divina, é resolutivo prover.
Dos meus dilemas, és o derradeiro.
Afinal, o que é que há? O que será de tão inevitável que eu tanto torço para que aconteça? Que verdade existe nesta dúvida para que me reivindique a natureza primária do ser? Que potência se manifesta neste desejo, que me ocupa os espaços vazios?
Já não há mais tapetes.
Quando vieres, vais me encontrar nativo de mim e da terra.
Sérgio Loureiro