placebolia doentio

os dias têm nomes, a saudade também. as dores, nem se fala. na quinta-feira 12, esqueceu de esquecer. fora alçado ao bálsamo do saber. do sentimento ensejado pelo nascer eldorado do que não criou asas: a causa. o que não se pôs à lona, surge à tona. da lama ao rio. do mantra ao frio. nocauteado, assim mesmo, tonto e febril. perfeitamente sadio para suportar as demandas evitadas. vício algum o levará daqui. remorsos remotos, antes distantes, a um palmo do curto pavio davam nos brios. antes biológico que antibiótico. rádio testando, rivo uno, duno, trio. nota: não confundir a terapia acidentada aos espasmos seculares. a célula da questão encontra-se dividida em traumas ilegíveis. hereditariedade prontamente negada pelos familiares. a receita garranchada generaliza: trate de ser homem com tratamento homeopático. “você tentou sorrir?”. na fila do abate, o que ousas dizer o réu ferido ao referido caso abatido? fala o que se cala no re-verso do universo abrangente do ser. pirata da prata de quem fora. não mais. doses sociopatas. duas a cada dia. uma de manhã. outra de noite – se ela chegar.

Dr. Sergio Loureiro
CRM 123451000

rua Campos Salles, 137

As coisas pareciam acontecer como ocasionalmente acontecem de maneira regrada, todo santo dia. O mesmo vagão do mesmo metrô lotado das 10:20, na estação Afonso Pena. “Como pode, uma hora destas, o metrô estar lotado?”, me pergunto. “Que tipo de gente enfadonha é essa que pega metrô às 10:20? Que tipo de horário insosso, chocho, pífio, é este?” Tarde demais ou demasiado cedo. Nunca no seu próprio tempo certo. Um horário que tem seu valor atribuído mediante outros horários. Me pergunto, então, se não é algo pessoal. Uma perseguição cosmológica, astral. As coisas realmente têm dado muito errado ultimamente, de certo que ofendi alguma divindade orgulhosa demais de si. No sanduíche humano metalizado, eu era a carne espremida por um homem e uma mulher. Eles se davam costas e me esmagavam, extraindo de mim o sulco da ojeriza matinal. Naquele momento, meus pensamentos já remetiam minha adolescência. Procurava descobrir em que momento da vida encaminhei meus passos para o escritório da Av. Nilo Peçanha. Para a dor de coluna, a dor de cabeça, para o estresse, o sobrepeso, a calvície. Para o ibuprofeno, a piridoxina a nimesulida, a ocitocina. Para o vício em café, os almoços no fast food, os fins de semana dormindo. De repente, algo tão trivial quanto coçar o nariz me chamou a atenção. Os dois pães, o homem e a mulher, sequer notavam a vida escorrer por meus olhos. Cabisbaixos, empunhavam seus celulares com o vigor que mais tarde causaria inveja aos seus filhos. Ambos no aplicativo de relacionamentos. Incapazes de se esbarrarem com intenção. Tropeçam no limite do virtual. A “sensação de” se torna a coisa em si. “O que nos trouxe até aqui?” A esse metrô lotado. A esse profuso movimento de pessoas caminhando para lugar algum, ofuscados pelas luzes digitais. Telas não são placas. Esse metrô está vazio. Há muito espaço aqui. Há muito espaço em mim. Pois agora meus pensamentos me levam ao teu sorriso. Venho me locomovendo comoventemente aos esmo, ao abismo, ao abraço. Há muito espaço para o sentir. Há muito espaço sem ti. Espero que esse metrô lotado um dia me leve de volta para teus trilhos. E que nos guie na trilha do destino, que lá fora nos parecia desafio, mas aqui dentro, somente nós podemos sentir o seu vento frio. Nesse caminho de migalhas, estou colhendo os farelos para te encontrar inteiro. Como espero que os pães que me cercam procurem encontrar sua própria proteína. Subitamente, passei a me afeiçoar a cada corpo vivo, desafiantes da física, nesse vagão. As cabeças podem estar perdidas, mas estão todos com o coração no lugar certo. Apesar de toda a limitação (do) real que redescobri ao ter intenção afetiva com carboidratos, percebi que o mundo era mais que minha casa na rua Campos Sales, 137, Tijuca. Foi um dia bom.

Sérgio Loureiro

ode aos instantes breves que perduram

certos momentos e circunstâncias são tão especiais quando vividos de maneira rara e devida, que causam um breve deslocamento espacial temporário. como nesse instante, em que me sento diante da minha antiga mesa de escrever. afundado em palavras rasuradas nas páginas amarelas do caderno, sou levado ao remoto ponto quando estive sentado em uma mureta, e o mundo parecia um plano perfeito nesse caos moderno. sei que sou herdeiro de uma sociedade incapaz de lidar com o desapego, com a ausência, com o sentir o não-sentir. e casa ainda além de ser um jovem brasileiro, de língua portuguesa, a qual resume todo esse devaneio em uma palavreta e nela garante a sua profundeza. jovem egresso da particularidade do território delimitado, zeloso por privacidade que agora sufoca. nessa falsa tendência imposta pela convergência, possibilidades múltiplas fazem presença. de certos gozos gostaria de me reservar. dizem para deixar disso, me atualizar. o disco se virtualiza, e essa lista tem seu cheiro, seu sorriso, e a flor do seu cabelo que jamais desbota, mas aflora em mim um sentimento convictamente brasileiro. e assim, as convicções do mundo e das coisas mais antigas, saíam da tua voz em tons vívidos, tão apaixonantes, tão engajados, como tudo se precisasse de renascer na língua aguda de seus sotaques. assim, ias enfileirando livros, manuscritos, as cartas longas que te escrevi, as várias canções do devir. e dos teus gestos se elucidam mais convicções que tais palavras. ouço teu sono distante numa cidade ainda mais distante. não há controle sobre a vida. mas remoto, sim. eis me aqui, tanto quanto aí. removido fui, do curso que me atraquei. posto e disposto, a gosto feito um encosto – e talvez até fosse, talvez até seja -, brinquei com as convicções, com o sentir, com o viver. você tão certa das verdades que acabara de descobrir, enxergava em algo uma fonte que a ti já transbordava. e na calada, quantas perguntas foram alçadas ao vasto infinito? quantas ecoaram seu estribilho? qual a virtude do virtual? qual o sentido do real? qual a razão entre o bem e o mal? aqui estou. estatelado em mim, estrelado nesta noite sem fim. desesperado para convencer-me que estou – e talvez até esteja, talvez até fosse -, e sendo negado a cada segundo por uma impermanência. permanente. acho que foram suas as palavras que mais disse, como essas. não sei mais onde começo e onde terminas. mas enquanto não chega o dia em que os últimos serão os primeiros, eu me pergunto o que acontece com quem luta pra ficar no meio. em meio à penúria e à penumbra. ao pé do abismo, olhar para baixo é difícil. é olhar para si. para seu próprio pé. e, então, ver o abismo olhar de volta. os meus pés, troquei pelas mãos que agora escrevem tais confusas confissões. e ao passo em que faço o compasso das letras, vou percebendo o árduo labor ao qual atribuí meus calos. é o que ainda nem existe. é o sol em plena noite. é o perjúrio que persiste. o perdão antes da culpa. o ponto fora da curva. desejo que no final de junho o vento cortante traga-me meu sudário para perto do mar, onde os pequenos barcos fazem ondas que chegam em vibrações. e que ondas, vibrantes, ou não, particularmente se conformem em inquietação. e que a saudade, seja só uma palavra perdida no mar de outras tantas portuguesas.

sérgio loureiro

esse registro é meu, somente meu. único e inviolável. como o tempo e a consciência eudemônica presente em seu nome na minha agenda telefônica.

notas do outro lado da rua

o não-sentir. que fardo imenso, o de carregar em si o dom de racionalizar. e, então, atribuí-lo ao sentimento. poder, assim, de uma vez por todas, distanciar esse sofrimento que agora me assola. é louvável o nosso desenvolvimento enquanto espécie. mas é fato que de algo se carece, ao que tange à carne humana. durante toda semana é a mesma circunstância: a minha mente padece, a solidão cresce, nada acontece que me tire do movimento retrógrado. retroativo. reticente. parado, todo movimento é bizarro. por que correm os carros? para onde correm as crianças? no que pensa o açougueiro quando corta a carne? no que pensam as crianças, pela janela dos carros, vendo o sangue escorrer pelas mãos? pensam na mulher mais próxima? nos filhos que são? nas flores do mar? no mar de flores? penso que tão cedo não ouvirei o riacho que corria logo abaixo da minha janela. penso no morro, e se muito penso, morro. penso na vista, e para que não muito insista, sejamos breves: continua sendo impactante estar distante do que fui, do que sou, do que serei. orbitante no oco e no inócuo. no inoperante ser negativo do sentir.

eu sou o açougueiro e seu pensar. eu sou o animal abatido e sua carne dilacerada. já não me recordo as palavras. estavam à mercê do sentimentalismo. foram todas trocadas pelo chumbo que agora carrego comigo. precisa-se de pele. precisa-se de sentir.

talvez eu volte. um dia em que eu não esteja tão cansado.

sérgio loureiro

porque existem as fronteiras

Perdemos muito tempo em pensar no depois

esta é a confissão de um coração que estava deserto. vagueando cintilante entre meandros e melismas uníssonos que sigilosamente evocaram a alternância dos fatores do acaso. não pude notar eles vindo, mas os fatos invertidos remeteram ao eu lírico o protagonismo antes negado. o “deixa a vida me levar” trouxe ao abismo e um abraço. a vida escapa. agora, abismado, o solitário trovador, cético, põe-se a refletir em pensamento aritmético. o mundo parece distinto. melindroso, dramático, drástico. de repente, pássaros gorjeiam quânticos cânticos românticos. discretos tônicos de deslocamento atômico, quase imperceptíveis, quase inofensivos, mas de efeito sônico dentro do sentimental peito do poeta, que agora margeia o oceano profundo. não são meros prantos em pratos limpos. um alço ao bálsamo, uma porta para o passado, um céu estrelado. a vida escapa. leva e traz, como um caminhoneiro sempre na estrada, quase sempre de madrugada. movido pela pressa, inquieto, coração disparado, mas guiando com cuidado pela via aberta, mãos no volante, olhos no retrovisor, cabeça em torque e o nome dela gravado no para-choque. as paisagens são um horizonte trêmulo aos olhos úmidos, as faixas passam, as placas cortam, tudo fica para trás e nada pela frente parece aparecer. não há espaços para planos. a vida escapa. amanhã já é outro lugar. os planos são mundanos. os amores são reais, fantásticos, divinos. e por assim serem resistem ao traço do destino, às linhas da vida, às interrupções do acaso, ao fim da estrada. mantenha-se inquieto. estamos vivos e isto é tudo.

sérgio loureiro

 

odisseia baiana

em meio à neblina
no fosco, na rima
tu viesse
devagarinho
me chamando de moço
menino
tão lindo
seu jeito, fascínio
que me jogou no Rio
da Bahia, do norte
que sorte a minha
estar em teu caminho
que sobe –
só sabe quem viu
quem está em tua companhia –
e no meu assovio
eu canto, menina
que bom tua sina
de ser o farol
limpando a neblina
as nuvens acima
de minha cabeça farta
de tanta falta que sobra
diante do armário
que veste as roupas sagradas
do meu Santo Amaro
Cachoeira, recôncavo
pelo amor do amor
em nome de quem for
juro fazer tudo que você quiser
se me deixar ver o sol de manhã
sob teus pés
entre teus braços
refletindo em teus olhos
é fácil a vida ser boa
obrigado!

sérgio loureiro

colírio colorido

deixa ver
o que reluz antes do raiar
o que o desgrenhar do meu cabelo aponta
duplas pontas, triplas intenções

perceba
o movimento migratório dos pássaros
o translado torto dos barcos
o transitório desenfreado dos carros

olhe para os lados
uma sutileza cintilante
sua silhueta aconchegante
nem todas as palavras poderiam dizer
o teu cabelo no meu peito

na areia da praia deitei em seu colo
pus-me a amar o mar que não me banha
a língua que me estranha
os malamares e maleditos

era tão simples viver
quando as coisas não continham você
mas eu não me lembro bem
ainda não tinha, para o amor, nascido

eu era sutil até te encontrar
depois, então, exuberância extravagante
notório manifesto público
bandeiras e cartazes

sobe pelo cerne
sobressai  a derme
arrepia a pele
até o dia em que der-me na cabeça
a súbita ideia de ser teu
para todo dia que vier

hoje eu dormi de lente
mal posso ver um palmo
mas estou calmo
pois no colírio dos teus braços
até o escuro é colorido.

sérgio loureiro

talvez Drummond me entenda

em mim, agora, tudo falta. você sobra. nesse meu vácuo em que você transborda, abri as janelas e portas para sorte entrar. no meu vaso vazio de terra, tu és a flor de plástico que orna perfeitamente com os meus sentimentos. reais. imortais. recicláveis. deixei a porta aberta e por ela entraram vespas que, em meus ouvidos, zumbem fragmentos de memórias, trechos de histórias em que um narrador ao fundo diz “esses foram os dias mais felizes de sua vida”. e absolutamente todas as músicas que você colocou naquele domingo de sol agora têm seu rosto, seu cheiro, o barulho da sua risada. e eu não tenho a mínima ideia de como resolver essa situação. tampouco tenho interesse em resolvê-la. tirar você de mim é tirar a única parte que, nesse instante, se manifesta. entenda, você é tudo que interessa. necessariamente a razão de tudo: desse canto absurdo, esse grito no escuro, desse indagar vazio, esse meu viver arredio. coitadas das vespas que vagam ao léu em busca do néctar e se deparam com flores de plástico. todo mel fora levado em seus olhos, junto com um punhado de coisas que não tive tempo de entender ou dar nome. coitado do homem que vai atrás de mandinga de amor. coitado do homem que nunca te amou. este, é um infeliz de desafortunado fadário. pois não há cousa mais inevitável, força mais imponderável, do que te amar. ao súbito tocante dos olhos, o destino traçado. nada pode um ser, se não, diante de ti, amar. há mais perigo em teus olhos do que em vinte punhais.  há mais certeza da morte em homens vivendo paixões fatais. e agora que estou lendo nossas conversas, as cartas que nunca recebi, as que nunca assinei, as mensagens que fiz você rir, as que, para isso, chorei, me pergunto: quando foi que virei tão melodramático? cardíaco. enfático. o que é fato, é que o amor só é bom se doer. eu, que sequer tive tempo de conhecer meu Orixá, passei o últimos meses em adoração expectante, amando o inóspito, o áspero, um vaso vazio de terra com uma flor de plástico. e a casa vazia orna com meu peito, com o vazo, com a flor. nesse momento de farelos, retorno ao pó. meu necrológio pendurado no tempo estampa a seção fuzilaria dos jornais. a minha autópsia revela minhas tripas sentimentais. aço frio de um punhal, foi o teu adeus para mim. e as memórias são retratos velhos em retalhos de cetim. mas se queres ir, pois que vá! vá de uma vez por todas. fuja do Brasil, para longe de mim. e não me ouves. pois este é só mais um lamento tardio. se não sou inteiro, sou apenas a metade sua que partiu. e que nosso amor seja como o mar, que supera a calmaria em ânsias de tormentas e que hoje nos separa. diante de seu raso esplendor, contemplo a sua imensidão, me torno perplexo por natureza. me afogo, pois nunca soube te nadar. O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

sérgio loureiro

a minha loucura só é entendida quando provada em copo americano

eu tô com tanta saudade que nem sei direito se tenho peito o suficiente para isso. existe um severo ataque ao buraco da minha camada de neurônios e meus pensamentos se tornam cada vez mais escassos. raros exemplares de sinapses perdidas em uma vastidão espacial de nada. uma escuridão absoluta que suspeito ser a razão de minha recente preferência por ambientes escuros. sou uma galáxia carente de vida em pontos brilhantes. às vezes acho que o céu é um teto de quarto apagado e o tempo anda devagar quando sonho acordado. cada passo demanda uma força colossal para romper a gravidade que não me leva e nem me tira de você. daqui é diferente, olhar o mundo e ver o que ainda existe. e quem vê de longe acha lindo meu balé flutuante rumo à ociosidade infinita eterna do espaço. eu não sei para onde vou daqui. estaria mentindo se dissesse que tenho um plano – depois de tudo que fiz ter dado errado. mas eu juro que vou, além das emoções. guiado pela lua, a qual eu canto enquanto conto os dias da semana – assim, distante lá fora, ela brilha, como seus olhos perto de mim um dia reluziram. eu me perdi no mel das tuas retinas e fiz do desoriente a minha rotina. eu escrevo teu nome implícito em linhas que nem existem. você se esconde em palavras, as quais eu já não tenho. são pensamentos fugazes, fúlgidos, fugitivos. nada fica em minha cabeça quando estou contigo. às vezes sinto que quando ando com tuas mãos entrelaçadas o mundo está parado. disfarço a saudade e nem lembro porquê. esqueço quase tudo: listas, agendas, telefones. você, não. esquecer você é impossível, porque eu gosto é da fantasia. seu gosto é fantástica fantasia. é assim a cada oito anos. em tempos de terra plana, eu sou o testemunho astrológico do ciclo da vida: um fenômeno raro de natureza cosmológica habita em mim. e lá se vai mais uma semana, e eu tentando lembrar quando me dei perdido. trafegando em sua órbita, como um satélite atraído por algo que não consegue ver. tentando fugir, tentando te tocar. preso ao meio termo. hoje eu preciso de terapia, uma cartomante, cortar o cabelo, virar vegano. e seguir em frente, rir de mim pra não chorar.

sérgio loureiro

as réguas do desejo

declarar-me-ei a ti. sob o véu que encobre o certo e o perigo. a manta, que nos ombros dos homens, os torna meninos. no meu detalhar perfeito indutivo, que teu olhar, intuitivo, capta, no jeito, sentido. montado em minhas palavras, cruzarei as encruzilhadas da gramática, os desafios da semântica, para ser mais do que errático romântico: exótico, exato, preciso. conciso em minhas terminações radicais, precavido em minhas orações quase diretas. não mais. enfrentarei os monstros do apagar, a borracha da memória, para nunca esquecer de nossas primeiras estórias. foram os teus dentes, sorriso, acompanhados das tuas pálpebras fechadas, pétalas índigo. castigo. era mais que um pedido, um mendigo. perdido, tal fosse o meu destino, suplicando por teu abrigo, estava errado desde o princípio. era mais fácil enfrentar as lanças dos fariseus e a fúria dos soldados de roma ferindo-me sobre a cabeça de espinhos do que dotar-te. seria mais leve carregar as cruzes do desamar, do que desafiar o sentido do sentimento, pô-lo em métrica, rítmica e poesia. mas quem não o faria, depois de tamanho testamento? agora crucificado, pregos nos pés, pregos nas mãos, rogo por ti. filho de quem sou, desta Mãe Língua Portuguesa, tão rica de terra e tão carente de manejo, invoco a tua clemência. nessa súplica severina, o meu cordel é minha sina. o teu destino é meu desatino: te caçar uma rima. logo tu, menina, matéria prima nordestina, acaso de ser uma figura divina que em teu nome já ensina: não há nada mais encima. não há nada nesse meu vaguejar entre as veredas da linguística, ao grande sertão do palavrear, que possa, minimamente, me expressar. por ser tão, em tão pouco, me faz admirar. por ser de lá, dói em mim um sol maior. sol que sopra e assobia. secura de quase tudo, menos de saliva. desculpe o estribilho, quase não tenho amigo, quase não consigo. solitário, fui transeunte vagante pelo navegar, pois esse é mais que o viver. vi, ouvi e provei que coisa mais difícil não há, do que dizer tais palavras à você. pois assim, letra por letra seguido, estarei sempre comedido. com medidas precisas de uma régua invisível. traçando no infinito o ponto definitivo. o acento circunflexo. é grave a crase. mas resiste o que existe. e ainda há em mim desejo pelo ensejo do beijo derradeiro. vem ser meu canto, meu verso, meu soneto. vem ser poema no árido deserto, vem ver de perto o que te vejo. pois essa é uma carta de amor que não acaba e não tem fim. como teu sorriso, que se foi, mas ainda está em mim.
sérgio loureiro

sobre vírgulas

você me disse, certa feita, que tudo é real e que as coisas pertencem a si. jamais ao “se”. elas são. instantes categóricos onde o aqui e agora se faz presente. onde se escreve o fio da vida em uma linha tão direta quanto paralela que corre pela avenida do destino com pressa pois sabe o que se encontra na linha do horizonte em seu infinito particular e já não há mais tempo sequer para respirar afinal de contas vírgulas para quê? não lembro para onde estou indo, ou voltando. de certo que me perdi nesse encontro (e existe uma sutileza despretensiosa nesses encontros de rostos desconhecidos perambulantes nas ruas de um cotidiano que não me pertence mais). estamos na vírgula da vida. entre o porvir e o devir. o entre atos, o momento oportuno. que grande peso, o de ter o pulso do tempo em mãos. apenas o teu sorriso – aquele, tão espontâneo quanto arrebatador, de vida própria e certezas profundas – tornou leve o instante em que agora escorre a areia da ampulheta por meus dedos. e de mãos abanando eu te vi se aproximar, flores nos olhos e o sol no peito. teus adornos ganhavam jeito, os teus contornos (divinos!) e tua presença era um fenômeno tão perfeito quanto a água, a noite e o paraíso. e eu era um menino com medo do escuro, apaixonado pela lua. tenho-me questionado: quanto é preciso saber – ou, principalmente, não saber! – de alguém para se apaixonar? não depende de nós. nós, inclusive, somos os laços desatinados, desatados por natureza, em encontro casual e perene. não importa de onde veio, ou para onde vais. apenas onde te faço companhia em seu caminhar. no seu instante: a minha vírgula preferida. precisa-se de pele. precisa-se de sentir. menos de dúvidas. as minhas estavam à venda. à vista. mas foram larapiadas pela certeza súbita que agora me assola. em meio à toda incerteza e ao desconhecido, você era. simples e real. uma deusa-mulher que me dilacera. uma miscelânea celestial reunindo tudo de lindo que a meus ouvidos já foram visitados. era também a saudade, o testemunho, a alteridade. a lembrança de uma cidade, cuja energia é única e astral. cósmica e cosmopolita. ô terra, que me tem e de quem me levaram distante. ô terra por quem estou apaixonado por uma menina também terra, signo de elemento terra, para os meus pés, firmeza, para as minhas mãos, carícia. e sem sequer saber se aqui ou lá (mas certo que com você estava em qualquer lugar), me foi tirado também o suspiro. o último suspirar, pois não há mais tempo, não há mais pausas, não há mais vírgulas. as vírgulas são. tudo é real,

de Selma, lobo e Rousseau, todxs temos um pouco

eu tive um sonho. estava em uma dessa feiras livres. comia um delicioso sanduíche vegano. com ele em mãos, passeava pelas barracas, tranquilamente. quando chego no limite entre a feira e a vida, me deparo com o caos. olho para trás, novamente vendo a feira. existe ordem naquela bagunça. mais que isso. existe harmonia. e paz. e indiferença diante da morte da vida. mas eu preciso viver a vida, preciso voltar para casa. então, vejo dois meninos comprando um pastel extremamente oleoso com um velho de bigode. recheio de bicho morto. a morte me circunda. mas sob o seu teto de lona, me sinto protegido. o velho, muito amigável, percebe a minha presença e prontamente me atende. “o que vai querer, amigo?”. o que eu quero? financiar a morte ou morrer de graça? antes que eu consiga manifestar qualquer esboço de reação, somos interrompidos pelo espírito jovem do filho do velho. se prontificando a ajudá-lo. ele assume a hereditariedade da carnificina. vejo nos seus olhos o orgulho de sua ancestralidade. vejo também a inconsciência normalizada de seus atos. me aproveito de sua juventude. coço o bolso e retiro duas moedas de cinquenta centavos. quando ele estica seus dedos para mim, erguendo as sobrancelhas no mesmo gestual do “posso ajudar?” do seu pai, já vou lhe dando o par de níquéis. ele nem conta. nem se questiona. eu sim. “é dois, né?”. ele balança a cabeça positivamente. ludibriei a morte ao mesmo tempo em que me enganei dizendo ter saído de mãos limpas. me ponho novamente diante da vida. e como uma forte chuva, ela já chegou àquele ponto em que a gente se envolve em um diálogo interno. “acho que já dá para ir”. vou. tento me esquecer do velho e do jovem. do pastel gorduroso. das mãos oleosas dos meninos. já perto de casa, o bar da esquina está lotado. do lado de fora, uma velha churrasqueira chia com o seu vagaroso apagar. a brasa queima. a água esfria. ela enferruja aos poucos os seus princípios. caminha na direção certa para o seu fim. dentro do bar, ainda se bebem e comem. um canibalismo cultural. diversos exemplares de uma espécie estranha. peluda. rude. primitiva. fazem sons grotescos com a boca a cada líquido ingerido. copulam com seus próprios egos. exalam o cheiro da morte de suas mulheres. apresso o passo. de repente, ouço um curioso diálogo. “você tem certeza que é seguro?”. “COE, COT, CORE, GPI, RONDESP, BOPE… é tudo nosso”. “mas você acha isso…certo?”. “e vou achar errado, porra?”. “eu me referia à certeza”. “é sim, é sim”. os próximos passos foram acompanhados de uma escuridão fetal. me sentia no útero materno da natureza humana. pequeno e indefeso, mas envolto em uma proteção que não sabia de fato o que era, ou se realmente existia, mas não custava nada acreditar e era tudo o que eu tinha. eu sou um feto, porra! os acontecimentos seguintes eram fruídos em sombras. nada era tão real quanto aquele diálogo. me lembrei instantaneamente de Hobbes. aquela alcateia de homens comungando vísceras do destino. eram seus próprios lobos. vorazes. canibais. mas estavam certos. nunca existiu a paz. o que sempre houve foi uma ideia de busca por ela. não necessariamente a busca, propriamente dita. a falsa sensação de segurança é o suficiente. para quem? a certeza posta em contratos sociais: suborno. a liderança forte e centralizadora do alfa.  Hobbes dizia que o excesso de opiniões divergentes atrapalharia a sociedade, pois sempre haveria quem tentasse provocar conflitos para tomar o poder para si. depois me veio Rousseau. nascemos realmente bons? se já nascemos em guerra, como isso seria possível? ninguém nasce com as mãos limpas e vai sujando-as com a vivência. aquele diálogo, a churrasqueira, o pastel gorduroso, o velho e o jovem, as mãos oleosas dos meninos… nascemos com as mãos sujas, oleosas, ensanguentadas, gordurosas, e limpá-las pelo caminho é o caminho. mas isso não se vende na feira.

sérgio loureiro

além da chuva

foi você quem disse, às doze e meia da tarde, que o amor verdadeiro reside nos pequenos detalhes. as suas mãos, se esfregando na barra da saia de tricô que sua mãe fizera, enxugavam o labor matriarcal do desjejum vespertino. as suas pálpebras, levemente avolumadas, ressaltavam a fadiga maternal que despertara seu sono, matinalmente às cinco para seis. o desgrenhar do seu cabelo evidenciava os estresses femininos, antes hormonalmente explicados. os seus lábios tremiam no gaguejar de sua imposição. seus olhos miravam a ancestralidade de sua fala. a tua pele reluzia a dor. o teu seio, farto de dolor. o teu dedo enrustido apontava os nossos dejetos. os defeitos, os jeitos maledicentes. mal feitos. haviam tantos detalhes – e já não eram pequenos entre a gente -, que a sua frase não fazia mais sentido. o amor verdadeiro reside na comunhão. no comum não a tudo. no comum sim. na unção do meu com o teu. no entender de onde viestes e para onde vais. e qual meu lugar em teu caminho. chore. mas chore como um dia chuvoso. escreva uma carta: de uma mulher para um homem. lembre-se do que esses braços já seguraram. e os faça de asas. em um dia chuvoso. onde pássaros ficam em casa. se dê a chance de ser: além da chuva.

sérgio loureiro

carta branca

e então eu estava bêbado. e o gim no copo combinava com o seu vestido. a ambos eu queria dar um fim. e então, no fundo da sala, B.B. King começa a tocar. aquela música dedicada à sua guitarra. uma guitarra. e o que eu já fiz por você? digo, o gim ainda está no copo e você desfila graciosamente com seu vestido azul cristal. se você fosse um pouco mais bonita, seria fatal. e morrer seria normal. mas isso tem que acabar. você pode me manter em suas mãos, pois assim é mais fácil me provocar. mas olhe ao redor. o fim ainda está no copo. e o gim está próximo. e não adianta de orgulho se trajar. cristais não vão durar às doze badaladas. diga-me se você quer que eu minta. mas a canção continua a tocar. eu poderia fazer tudo por você. mas não é o copo que você tem em mãos. talvez eu volte para casa sozinho. mas eu também tenho a minha guitarra. às vezes acho que ela chora quando a toco. mas são os seus lamentos, não a sufoco. isso tem que acabar. mais uma, Lucille! porque ainda tem gim no copo. e você pode dançar.

sérgio loureiro

uma senhora terra

eu precisei cruzar os limites do desconhecido e chegar ao fim do mundo para ver que a ti sempre pertenci. nenhum chão apalpou meus pés como suas terras tenras e férteis abraçaram meus passos. terras antigas cujos pés ancestrais fundaram minha atual compreensão de existência e desígnio. quis querer, quis ser, quando já tinha o que se era necessário para ser. cresci os galhos para onde não devia e sentir me consumiria. e por vir de lá ainda sementino, piso nesse chão devagarinho. meus pés, aqui, têm a súbita certeza de saberem o caminho. caminho no qual ergo o olhar ao redor e contemplo sua forma de se afirmar uma senhora de costumes sempre modernos e impor respeito ao progressismo renitente. jamais ostracismo, mas arredia em seus arredores resplandecidos pelos sagrados mares africanos. ninguém se conhece tanto. abençoada por todos os santos, banhada por todos os cantos. suas raízes me foram a força emanando coragem durante toda a viagem. goza de profunda loucura desvairada, aquela que não é orgulho nenhum admitir – pois até mesmo essas existem e são deleites em mesas de bares -, aquele que ao olhar para ti não se viu. sou tu antes mesmo de ser eu. tudo, tudo, em ti faz a gente querer bem. a bahia tem um jeito.

sérgio loureiro

tricô de laços eternos

Ainda que possa, enfim, ser minha
ainda assim, toda todinha
sendo bala na agulha, agulha na linha
letra na mão, pele clarinha
mãos que costuram nosso destino concreto
tricô de laços eternos
em teu manejo, nem mesmo o futuro é totalmente incerto
e toda profecia é auto cumprida
chamei a ti de vida
me pus diante da morte
fiz de ti a minha sorte
chamaste a mim, então, menino
e ainda assim, deste-me o destino
impôs uma clareza fria que não assustava
mas tampouco me consolava
e numa noite arredia serena
amarraste-me à minha vida pequena
me fizeste de verbo e eu, sujeito sem jeito
no reflexo do pretérito perfeito
vi o porvir
virá, ainda assim, no vento
tempo, tempo, tempo.

Sérgio Loureiro

Processo obstétrico

A dor ardia adulando o peito determinante à procura do dolo. A culpa cristã, catequizada em candelárias de cristais quebrados, não contemplava o consolo. Nada se cria. A criatividade é posta à prova. A poesia, sempre subserviente, é alçada à sua única sobrevivência. Reverberar as vértebras do intestino, regurgitando verbos, pronomes e palavras perdidas em vazão arterial. Pulsam proliferações prolixas. Bate! Bate! Apanha. Ferimentos que fedem mas já não mais sangram.

Assim, sofria a pobre poesia. Escorada à calçada, prostrada em desgraça. Sempre à postos do acaso, próxima demais de mais uma porta fechada. Sem fé, sem rei, sem leiSem amor em demasia. Apenas ninharias niqueladas arremessadas em seu chapéu. Sem olhos, sem sorrisos. Sem bom-dias. Nem mesmo sob o véu. Rosto? Apenas metalizado, de algum imperador romano.

Seu entulho entalado nos dedos lapidava o espólio de sua sanidade mental vigorosamente larapiada pela tesoura do destino. Tesoura que rasga as sedas do desejo e do viver. Corta as entranhas dos sonhos inócuos. Ceifa os risonhos. Extirpa o amanhecer a ferro, fogo e carne viva e o faz viver em constante escura solidão. Uma prisão particular, a mais cruel. Tesoura incapaz de evitar o tesouro parido.

Do nada, se cria. Do ventre, o véu se dissipa. Celebra, povo, a vida! Nascimento eldorado de mais um destino fadado. Alegria, alegria! Bate! Bate um novo coração que sangra. A retumbante tristeza afundada em cacos, afogadas em trapos, testemunhava sua redenção.  Mais uma poesia que é escrita. Jamais será lida.

Sérgio Loureiro

A estapafúrdia história de Afrânio Demério, o ‘homem-bomba’ brasileiro

“TIC TAC… TIC TAC… TIC TAC…”

Breitling, o relógio de pulso perdido

A vida de Afrânio Demério não era lá um mar de aventuras. Sujeito pacato, ligeiramente enfadonho demais, vivia sua rotina insossa e débil com extremo afinco. Para ser franco, a essa altura da vida já odiava aventuras e o balanço do mar lhe causava graves enjoos. Suspeitava que o ápice dos seus dias havia fincado moradia às seis e quarenta e cinco da manhã – momento em que, após o habitual desjejum à base de cereais e duas torradas com geleia de cebola, desembaraçava, meticulosamente, os pelos do simétrico bigode. Havia nele um temor de que jamais restabelecesse outro ápice, e a total ausência de sinais de mudança legitimava todo temor.

Aos quarenta e dois anos, tudo se encaminhava para que a sua existência não fosse uma das emocionantes histórias dos livros que costumava ler na juventude. Na sua escala de preocupações (atualizada semanalmente no quadro branco e depois passada para as tabelas do Excel e depois impressa e depois finalmente colada ao lado do mesmo quadro branco), esta ocupava a terceira colocação, atrás apenas do momento “ápice do dia”e dos boatos de um prematuro fim de seu seriado médico dinamarquês. No entanto, eis-me aqui contando a sua história e eis-te aqui, lendo-a.

Neste momento, amigo leitor, você deve estar se perguntando a razão disso tudo. Ou estou enganado e seus questionamentos giram em torno da sua mísera existência, ou “a que ponto chegamos?”, ou mesmo “será que pegamos o ônibus certo?”. E se o pegamos, quem está dirigindo? Somos, então, meros passageiros de nosso destino, literal e figurativamente? Ainda por cima, pagamos o abuso de quatro tostões e alguns trocados para sermos levados ao confins da existência? Pior! Passará, essa imaginária condução pública, pela Av. Brasil em pleno horário do rush? Como um dos insignificantes seres viventes deste planeta, marionete dos astros, também não possuo respostas para estes desesperos coletivos. Mas olhe para mim agora, trazendo-vos a razão disso tudo.

Acontece, caro leitor, que nosso parco protagonista sofre de uma anomalia fisiológica extremamente rara, que medicina nenhuma conseguiu desvendar – e neste momento torna-se importante ressaltar que agendamento de consultas é um dos hobbies favoritos de Afrânio, o fazendo, inclusive, mandar seguidas cartas para o Comitê Olímpico Internacional dos Tabeliães, sugerindo a criação de tal modalidade nos próximos  Jogos, em Chisinau, capital da Moldávia. Nota: outros passatempos de Afrânio são: xadrez, sua coleção de figurinhas de famílias reais ao longo da história e o arquivamento alfabético de processos jurídicos.

A tal anomalia surgiu por volta de sete meses atrás e é de complexo entendimento e explicação. Afrânio possui, digamos… um coração metafórico-literal (por mais contraditório que isso aparente ser). Em um belo dia (apenas força de expressão, era um daqueles dias horríveis em que você deseja nunca ter saído da cama e até a companhia de sua tia chata, cuspindo no seu pedaço de bolo enquanto encontra simbolismo bíblico para sua maledicência,  é mais aprazível), durante sua caminhada matinal ao trabalho, Afrânio ouviu alguém dizer que corria contra o tempo. Acontece que, por incrível coincidência, neste exato momento havia um lindo balé astrológico, no qual Júpiter e Saturno se alinhavam com Canopus, a segunda estrela mais reluzente da galáxia – feito que ficou conhecido nas assembleias entre os mais brilhantes astrônomos e pessoas que falam de signos ordinariamente com qualquer estranho, como Plié das Estrelas.

Dessa forma, desde o acontecido, o coração de Afrânio passara a bater, literalmente, como um relógio, o tornando inimigo deste que tem como alcunha “o senhor do destino”. Para aqueles que ainda estão aqui e não se impressionam, ou mesmo veem como dádiva divina tal estrondoso fenômeno, permitam-me deixar claro: dentro do peito do pobre homem batia, incessantemente, um relógio velho de madeira. Tic tacs exasperadores no lugar de românticos tum tuns. E assim, Afrânio, o homem que não hesita em submeter-se, se tornou o primeiro homem-bomba de Piracicaba. O que certamente, por sua vez, também o fez celebridade na “Terra da Pamonha”.

Apossado desta metáfora tão trivial em seu músculo cardiovascular, Afrânio decidiu fazer o que todo homem de brio faria: programou o despertador em seu coração para tocar pontualmente às seis da manhã. Deu inúmeras funções e utilidades à sua patologia: cronometrava seu banho de sete minutos, ajustava o timer para os exatos noventa segundos que deixam as torradas crocantes, porém levemente molhadas, marcava passo a passo o seu caminho até o tabelionato. Não era de todo ruim.

Mas era uma desgraça! Aquele tique em seu peito ditando seu ritmo. Acordar sabendo, não só ideologicamente, como literalmente na pele, que a sua existência escorre como uma areia nesta enorme ampulheta chamada vida. E ver que a vida está por um fio, e que este fio dissipa-se inevitavelmente, perenemente, imparavelmente e eternamente. Mais e mais, meu Deus! E que, ao mesmo tempo (trocadilho), relatórios precisam ser entregues, faxes precisam ser mandados, arquivos precisam ser organizados alfabeticamente,  o mercado do mês precisa ser feito, a roupa precisa ser estendida… Muitas satisfações a dar, poucas a receber. Mas mesmo estas se tornam um fardo. E tudo que se ocupa em sua cabeça é “Oh, céus! Estou tentando provar o quê e à quem, mesmo?”. E agora mais essa, Afrânio: precisa atualizar o quadro de preocupações.

Afrânio era uma bomba-relógio, ready to explode (diria, se ao menos tivesse tempo para ouvir o Queen). Como somos e estamos todos nós – só que de uma maneira metafórica e muito mais segura. O passar do tempo, tão mais vivido por ele que, literalmente, marcava os segundos, era desesperador. Já não mais trabalhava. Não se alimentava de torradas crocantes mas levemente molhadas, e substituíra a geleia de cebola pela margarina. Seus banhos duravam horas. Metaforicamente. Nem mesmo o quadro era atualizado ou arquivos quaisquer eram organizados alfabeticamente. O homem, sentado na janela do ônibus, admirava a paisagem caótica de sua vida, sem se preocupar em que ponto chegamos ou com o troco da passagem. Esse era o destino de quem conhecia o condutor da viação vida: o tempo.

Em uma literal e não-metafórica viagem de ônibus em direção ao Rei da Pamonha, no centro de Piracicaba, Afrânio teve um daqueles pensamentos que, assim que nasce, deve imediatamente ser minado, expelido, jogado em uma sala de quinta série cheia de meninos espinhentos e posto diante de toda humilhação infantil que apenas exemplares masculinos da espécie humana conseguem reproduzir com maestria por toda a vida (para azar do mundo). Afrânio decidira assumir a rédea de sua própria vida. Desafiando sua patologia com um rascunho de discurso que dizia basicamente “se sou metafórico-literal, por quê não viver literalmente todas as saborosas metáforas da vida?”. Por isso, dirigia-se decididamente ao Rei da Pamonha para saber se “em terra de cego, quem tem olho é rei”. Tenho quase certeza que Afrânio não entendia de metáforas, ou ao menos sabia diferenciá-las de trocadilhos.

Mas vivendo literalmente o sentido de que, no meio da ignorância, quem sabe pouco, domina, Afrânio caminhava tictacmente ao seu destino, quando subitamente seu alarme disparou, assustando uma senhora que também sofria de problemas cardiácos e caiu dura ao chão, sendo imediatamente socorrida por um rapaz jovem, loiro, de bigode  simetricamente também loiro, trajando uma linda camisa quadriculada por dentro da calça jeans e um casaco de couro com o rosto e a assinatura de Garry Kasparov – o maior enxadrista de todos os tempos (trocadilho). Em suas mãos, as pastas organizadas pelas ordem de cores do arco-íris se espatifaram pela calçada, criando o caos estético para ambos. Sem pestanejar, Afrânio coletou e reorganizou-as, devolvendo-as para o seu proprietário, que prontamente disse, com uma voz garbosa e um olhar meigo e ligeiramente vesgo: “tak”.

Por um instante, o coração de Afrânio parou (metaforicamente), como um relógio velho em que os ponteiros são por demasia desobedientes. A conjunção de fatores em um só homem era demais para seu pobre relógio. Estava desarmado.  Não sentia mais o risco de explodir. Os dois se levantaram paulatinamente. Testemunhas podiam jurar que no fundo tocava Lionel Richie, mas era demais acreditar em tamanha pieguice. Segurando as mãos, via pastas, eles se entreolharam. Foi então que Afrânio proferiu as palavras que o Tempo, até hoje, afirma serem as mais linda que um passageiro pode dizer ao motorista quando ignora o aviso em letras garrafais de “fale apenas o necessário”.

– Kærlighed er den bedste af sygdomme.*

Pouco se sabe o que foi dito, apenas que Afrânio aprendera tal sentença assistindo seu seriado médico dinamarquês.

Hoje, Afrânio mora em Copenhague. Casado com Sven, ele cuida da relojoaria da família do marido, onde prova que “em casa de ferreiro, espeto é de pau”. Seguindo sua rotina, toda terça-feira pratica yoga e costuma fazer a posição sirsasana, em que fica com a cabeça para baixo, girando a areia de sua ampulheta e lhe garantindo não a eternidade, mas segundos extra de esplendor. Além do mais, descobriram que a doença é contagiosa e agora Sven tem um cérebro de elefante (o que o tornou o ser humano mais inteligente da atualidade, porém reduziu seu paladar a folhas de árvores, ervas, raízes, frutos e, especialmente, gramas do jardim do vizinho).

* O amor é a melhor das doenças

Sérgio Loureiro

Alberto tem algo importante a dizer

Eu tenho para mim que a vida não passa de uma eterna estação de trem. Vazia, solitária, inspirando ansiedades e saudades. A gente nunca sabe ao certo se devemos entrar no trem. Até entrarmos. E descermos em uma nova estação. Vazia, solitária, completamente diferente da outra, mas… tão idênticas. A graça talvez esteja na viagem. No olhar a paisagem passando rápido. Nos esforçarmos, em vão, para olhar a vegetação, o trilho que vem e já foi. A gente é passageiro. Nem mesmo maquinista da nossa própria embarcação. Sem direito a comes e bebes. No vagão popular, sonhando em um dia estar no vagão deluxe. A troco de quê? Estamos sempre tentando provar algo a alguém.

Num desses vagões, dei de parar nessa estação. Os morros daqui são iguais ao do cartão postal que agora tiro do bolso do meu casaco. Talvez eu tenha chegado aonde sempre quis estar. Uma completa idealização burguesa, sem fundo racional, sem explicação lógica, sem juízo, nem valores. Dei de parar aqui, onde sempre quis estar. E não nego, é tudo diferente. Exceto pelo vazio e pela solidão. Pela euforia e pela saudade que me acometem. Mas agora que o postal é apenas um pedaço de papel e me ponho diante do real, inevitavelmente me pergunto: a troco de quê estou aqui? Estou tentando provar o quê à quem, mesmo?

Não sei, sabe… É que lá eu já conhecia, já era conhecido. Naquela estação todos me cumprimentavam. Falavam o meu dialeto, me entendiam. Nem riam de mim, porque assim teriam que rir de si. E riam, se preciso fosse. E se não fosse, riam também. Ô povinho alegre. Era vazio, mas tão cheio de gente. Tão cheio de mim. Aqui, nessa solidão, me esbarro em correrias, em xises chiados, em gritaria gratuita.

Não estou querendo dizer que vou pegar o trem de volta. Mas quero dizer que sair foi o pior erro que já cometi. E nada no mundo, nem mesmo a melhor paisagem, há de apagar ou compensar esse erro. Mas saí. E nunca saí. Vou carregar o peso de uma terra e seu povo por todas as estações que der de parar. Vou andar curvado, cabisbaixo. Vão esbarrar em mim. Vou olhar os cartões postais no bolso. Vou desejar parar de desejar. Esse negócio não é para mim.

Sérgio Loureiro

F*da-se: a arte de ligar a sutileza

– Você precisa acreditar mais em seu potencial; recomendava a tia autointitulada terapeuta que um dia sonhara ser juíza federal.

– Nunca desista dos seus sonhos; disse o guru da zona sul que tinha insônia pelo uso exagerado de entorpecentes ilícitos.

– Você é dono do seu próprio destino; disse o filho do empresário, recusando o currículo.

– A vida é uma só! Temos que viver intensamente cada segundo e agradecer; aconselhava a motorista ao seu filho, enquanto justificava seu atraso ao engarrafamento, pelo telefone.

– Todos os seres vivos merecem ser amados; disse o influenciador aos seus seguidores, em uma churrascaria.

– Os problemas são oportunidades para se mostrar o que sabe; afirmava uma pichação na parede de uma penitenciária.

– Você está evoluindo, acredite em si mesma! Apesar dos dias parecerem uma tempestade sem fim, você é forte. Você conseguirá!; cantava o vocalista que se suicidou de overdose.

– O que você chama de fim, pode ser um novo começo; anunciava um outdoor de funerária.

– Não fique olhando o relógio, faça como ele: mexa-se; proclamava o Presidente da República.

– Palavras têm poder; disse o escritor de blog com três visualizações semanais.

manifesto presidencial #2

Dia desses, tive uma visão. Podia ver populares aglutinados esbravejando palavras que, daqui, não pude compreender. Suados, amontoados, abarrotados, sujos. Da sacada, mais parecia uma marola vermelha. Vermelha, como a onda de pânico que pintamos às ruas; mas distante da grandeza de nosso sangrio mar. Não obstante à calamitosa situação, convoquei, novamente às pressas, os executores oficiais a fim de resolver esta questão.

Para pôr fim à balbúrdia, segui os conselhos do Bobo. Cortem tudo! Cortem as bolsas! As amnióticas, os embriões prodígios! Ceifem os caules, os troncos, as copas. Tirem o mal pela raiz! Um corte seco e certeiro, como de uma foice. Não, foice nunca! Balbuciei. Um lapso, equívoco. Isso nunca existiu. Onde vocês viram? Não se pode acreditar mais em tudo.

Voltemos ao que interessa, a cissura. Por toda parte, dizem que é abusivo, ilegal. Ora, quem nunca podou uns galhos podres não entende nada de vernissage. Jardinagem! Esse negócio de ecologia nunca foi a minha, prefiro a pecuária. Adoro um gado.

Esse barulho todo perto do Palácio não me incomoda, mas é chato. Meu sono já não está lá muita coisa. Parece que eu carrego 39 kg em minhas costas. Amanhã mesmo vou baixar um decreto contra alguma coisa aí que tire essa gente que não me deixa em paz. Talvez um muro. Me parece original.

Sérgio Loureiro

Luz com ch

E se, vez ou outra, eu duvidar? Do cosmos, dos nexos, dos códigos, dos céticos. Duvidar de Deus e tudo mais. Vão dizer “que loucura, esse ser em cheque”. Em tempos que ninguém mais aceita, eu sigo sendo, à sensação do sentir e não mais sentir. Ser? Não ser? De que me importa, se negando me afirmo e assumindo, sou, de qualquer forma, até tentando evitá-la?

Vou duvidar de tudo, menos de ti. Dessa retumbante força espontânea que tu emana e desperta em mim. Dessa loucura, que é incontestável. Está aqui e reverbera em cada vértebra. Ecoa, assovia, partilha e penetra meu âmago infinito. Raso, de tão infinito. Tu foste a luz que me fez enxergar meus olhos. Foste o escuro quando tudo doía. Sabias exatamente o que ser, sem duvidar ou mesmo temer.

Esse encontro, esse acaso. Prefiro chamá-lo de poesia, do que de coincidência. Essa não. Insustentável aos meus questionamentos. Já a poesia que se escreve em nossas entrelinhas, essa sim permanece perene ao caudaloso rio da vida.

É tu, sou eu, somos nós. E se “existe alguém em nós, em muito, dentre nós, esse alguém brilha mais do que milhões de sóis. E a escuridão conhece também”.

Sérgio Loureiro

Coração sertanejo

Acalma-te, coração! Para quê essa pressa de viver-sentir aquilo que já se tornou inevitável, sujeito abestado? Viva a constância dos teus sentimentos como um ponteiro de relógio. Aprenda com o tempo, coração! Seja intenso, mas seja eterno. Seja sereno e essa neblina que te rodeia será, também, você.

Vai arrudiar noites de deserto, mas sempre chega o mar, coração. Vistoso, grande, imponente. E tu, sertanejo, há de entrar, visse? Sem perreio, nem estripulia. Dane-se que tu não sabe nadar, que nunca viu pedaço de água tão grande. Vai entrar, sim! E, sem arregar, vai se afogar.

Coragem, coração! Oxente, home, n’era isso que tu queria? Pois viva, cabra. Sinta as trinta e sete borboletas que acasularam-se em suas cavernas e cavidades. As dê nome. Voa com elas, sem medo de cair. Sobe nesse vulcão e se derrete todo. Seja lava e ventania. Não bata, mas apanhe com maestria.

Tu não é jagunço, home? Pois pegue em armas! Atire para todos os lados em legítima defesa de acertar outro coração vazio e preenchê-lo com as mais belas de vossas intenções.

Perdoe-se, coração! É assim mesmo, a gente aprende errando. Pior seria não ter se entregado e vivido aquilo que tu achou que era – e se fosse, seria porreta. Quem perde são eles, coração, de não querer o tanto que tu quis dar.

Levanta essa cabeça, coração. E não leva tuas dores pra próxima vez. Seja eterno aprendiz, pois nenhuma experiência humana o faria pronto para o que está diante de ti. Sim, bicho! Levanta essa cabeça e dá uma olhada nisso aqui.

Palpita, coração! É tudo de novo, sô! É estardalhaço, é euforia. Calor e frio, vira e mexe dá nisso. Sacode, se joga! É carnaval em pleno meio junino. Anarriê! Oxalá! Voltou tudo para o seu lugar.

O sertão foi ao mar! E diante da inevitabilidade deste encontro – que chamo mais de poesia do que de coincidência e que até o destino aguardou -, creio que estaremos usufruindo dos deleites divinos do amar. Haja mar!

Corre, coração! Convoca a tua artilharia, reúne teu exército nos campos de batalha. E proclama sua resistência pacífica. Se entrega. Litoralmente falando. Tu saiu do árido sertão da dor e da culpa para cair em mares de ternura. Chega dessa vida cigana, home. Estende a sua rede, coração. Aqui, vamos ficar.

Sérgio Loureiro

lições

O eterno retorno do mesmo. Quero dizer tudo de novo. Falar muito mais do que sou capaz de falar. Com muita vivacidade. Com a tenra ternura de ter a terra novamente nos meus pés descalços. Reconhecendo as pedras e o caminho. Quero viver tudo de novo. Viver, reviver, reaver, reverberar. Rever a relva densa de pastos que me nutriram. Quero fazer tudo de novo. Fazer mais do que sou capaz de fazer. Fazer no afã, no afogar, na farra, no fruir. Tenho as ferramentas mas não tenho a matéria-prima. Quero sentir tudo de novo. Sentir nem em demasia e nem em economia. Não viver uma vida na ponta do lápis, nem ser comedido em me racionar e racionalizar. Ser Bahia, ser baiano. Ser normal, ser estranho. Ser carne, ser alma. Ser o oposto contraditório conivente com a concordância universal do ser. Ou não. Eis a questão. E ser de novo. Não sendo novamente. O eterno retorno do mesmo. Como são todas as coisas.

Ser Sérgio Loureiro

O velho no bar

Sempre existirá: contas a se pagar e um velho sozinho no bar.
MESMO, Eu

Vai chover. Posso concluir ao levantar a cabeça para o céu. Estava tudo limpo até poucos minutos atrás, e agora, tão de repente, essas nuvens cinzas e pesadas pairando nos ares. Distantes o suficiente para não nos atrapalharem, mas inegavelmente se fazendo presente, ali no cantinho. Às vezes é assim. Dentro e fora de mim. Talvez só mais uma cerveja.

No descer dos olhos, o apartamento apagado. O homem fumando um cigarro, escorado na janela. O que se vê de lá? Onde esse homem queria estar? Longe da chuva que ameaça cair, ou será que chove primeiro lá? Eu sempre tive um fascínio sobre homens solitários tomando sua cerveja em botecos. Principalmente velhos. Geralmente são. Seus olhares vazios. Sua parcimônia. Sua tranquilidade ao analisar cada detalhe com o máximo de desimportância. Talvez essa chuva seja só para amanhã, tanto faz.

Hoje eu sou o velho. Sentado em uma mesa, sozinho, em um desses bares da Voluntários da Pátria. Todos ao meu redor são jovens. Têm, basicamente, a minha faixa etária. Eu sou jovem. Não, não hoje. Hoje, sou um velho vazio tomando sua cerveja sozinho. Mas a falta de prática me chama a atenção rapidamente. Não tenho o olhar vazio: sou curioso, ávido para viver o meu próprio fascínio. Tampouco estou calmo. Olha essas nuvens! Claramente é tempestade e minha cabeça trovoa.

Será que sequer perceberam que estou sozinho? Um jovem, como eles, sozinho!? Ou para eles também sou um velho bebendo sua cerveja sozinho no bar? Imperceptível. Normalizado. Não, com certeza não. Percebo isso quando me vejo atento ao assunto da mesa ao lado. Uma menina de cabelo azul conta do dia em que, por algum motivo jovem, acabou tendo umas dessas peripécias de jovem no banheiro de uma boate jovem de Búzios. Têm boates em Búzios? Esse é o estopim para que todos na sua mesa contem experiências semelhantes. O jovem é tão jovem. Talvez levar um ou dois cascos e terminar de beber em casa. Aquele filme do Spike Lee vai passar no canal fechado que só exibe filmes dublados. Filme com chuva é infalível. Tomara que chova.

Já pela segunda garrafa, o susto. Na mesa ao meu lado – que até então havia sido tão somente um breve mistério instigado pelos meus olhos curiosos ao avistar uma mochila sozinha sobre a mesa – senta-se um velho. Trajando um belo bigode, ele abre o botão da calça e pega o maço de cigarro dentro da mochila sobre a mesa que despertara brevemente a minha curiosidade. Agora que não chove mesmo.

Pela primeira vez a tal parcimônia me incomoda. Eu sou o olhar desimportante e analítico do velho ao meu lado. Será que ele vê em mim um rival? Não. Talvez vê a si mesmo. Com quanto anos se passa a beber sozinho em bares? Bom, comigo foi aos 25. Mas não me lembro bem. O garçom não é simpático. Enche meu copo toda vez que passa pela minha mesa. A mesa ao lado, a do velho, é intocável. O velho tem o seu próprio tempo. Respeita. Mas eu, jovem, como não beber freneticamente? Ah, velho! Quando talvez nem tu quisera estar em teu couro, eu quis. Quis a sua parcimônia. Quis o seu desinteresse. Quis o seu cigarro. Quis até o seu bigode. Quis te perguntar qual o segredo de beber sozinho. Quando vou acalmar e deleitar os goles da vida? Ou mesmo da cerveja. Eu sei que tu me vê, mas será que te vejo? Quando te ver, me verei?

O velho, talvez cansado do meu olhar penetrante, completamente se importando com os fenômenos arredores, se levantou. Pagou a conta e saiu. Da forma que veio, foi. E eu fiquei. Talvez herdado o seu trono. Talvez agora estejamos todos carentes de um velho a nos analisar desimportantemente. Queria ter falado com o velho. Queria ter escrito um texto à altura do momento. Mas quis ser fenomenologia. Sou um velho, não tenho mais tempo. Tenho meu próprio tempo. E vai chover.

Sérgio Loureiro